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Andrey Barbato

A admirável capacidade de inovação da indústria florestal

Quando pensam em floresta, poucos pensam em inovação. Embora nem sempre visível para quem não se relaciona com a floresta nem com a transformação das suas matérias-primas, a capacidade de inovação da indústria florestal tem dado passos significativos nas últimas décadas. E a inovação neste sector abrange praticamente todas as etapas em que possamos pensar, desde o melhoramento genético à gestão no terreno, passando pela descoberta de novas aplicações para os materiais que brotam das árvores.

A palavra “inovação” desperta uma multiplicidade de imagens e significados. À primeira vista, pode evocar produtos de elevada tecnologia, como veículos autónomos, smartphones com inteligência artificial, realidade aumentada ou novas formas de geração de energia limpa. Contudo, a inovação também se manifesta em processos industriais criados para resolver problemas complexos e aumentar a eficiência produtiva, ou até em simples ideias que tornam mais fáceis as tarefas do nosso quotidiano.

Apesar das múltiplas possibilidades de associação, é provável que poucas pessoas relacionem, de imediato, a palavra “inovação” à indústria florestal. E com razão: a maior parte das informações que nos chegam sobre inovação provém, de facto, do universo dos produtos eletrónicos e dos serviços digitais, sem aparente ligação com o ambiente natural.

Contudo, nos últimos anos, diversas pesquisas têm desafiado a ideia de que sectores como o florestal possuem potencial limitado de inovação. Outros estudos vão ainda mais longe, apontando que a inovação e o empreendedorismo ligados à silvicultura têm apresentado progressos significativos nas últimas décadas. Mas em que se concretiza, afinal, a capacidade de inovação da indústria florestal?

A resposta sobre a inovação da indústria florestal é animadora para os entusiastas da modernidade: manifesta-se em todas as etapas da produção – seja de forma direta, com o desenvolvimento de novos produtos de origem florestal, seja de modo indireto, através das tecnologias que apoiam o processo produtivo. E não se limita ao processo produtivo, embora seja nele que a inovação se revela mais evidente.

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Inovação da indústria florestal começa na própria floresta

A inovação da indústria florestal começa ainda numa fase anterior. Antes mesmo da plantação, técnicas de colheita de sementes e melhoramento genético são utilizadas para desenvolver variedades e realizar clonagens de espécies, procurando assegurar o crescimento de florestas mais resilientes, a qualidade da madeira e as características que promovam uma boa produção. A investigação é fundamental para a criação destes processos inovadores e para o aperfeiçoamento de técnicas tradicionais.

Na gestão florestal, a utilização de drones equipados com câmaras e sensores permite a deteção precoce de doenças e infestações, possibilitando aos produtores respostas mais rápidas e eficazes.

Estes equipamentos, entre outros contributos, também agilizam e melhoram os inventários florestais, ao calcular a altura, estimar a densidade e a biomassa das árvores através do mapeamento das áreas e da recolha de dados, posteriormente analisados por aplicações desenvolvidas especificamente para a gestão florestal.

Sensores instalados na floresta comunicam entre si por meio da Internet das Coisas (“IoT”, ligação que permite a comunicação entre objetos) e possibilitam a monitorização de parâmetros ambientais, como condições do solo e temperatura, além de permitirem conhecer as movimentações da vida selvagem. Máquinas florestais conectadas aos sensores enviam dados sobre a aproximação de trabalhadores, animais e a entrada dos equipamentos em zonas de risco, emitindo alertas automáticos que reduzem acidentes e fortalecem a segurança operacional.

A inovação que brota das árvores

No entanto, é no desenvolvimento de novos produtos florestais que o sector apresenta as suas inovações mais promissoras, principalmente na medida em que estes produtos podem contribuir diretamente para a substituição de materiais de origem fóssil.

A partir da celulose, que é um dos principais constituintes da madeira, é possível obter uma ampla variedade de novos materiais, como:

  • A celulose solúvel, amplamente utilizada na indústria têxtil e que se apresenta como uma alternativa natural aos derivados do petróleo na produção de películas plásticas.
  • A celulose nanofibrilada, composta por fibras extremamente finas que impedem a passagem de líquidos e até de oxigénio, é ideal para o fabrico de embalagens biodegradáveis e de outros revestimentos especiais destinados ao acondicionamento de alimentos e cosméticos.
  • Com elevada resistência, leveza e durabilidade, a celulose nanocristalina revela grande potencial para aplicação na produção de ecrãs para dispositivos eletrónicos.

A lignina ou lenhina, molécula que constitui cerca de 25% da árvore, surge como uma matéria-prima para produção de componentes em diversas indústrias, como a automóvel e aeronáutica.

No domínio dos biocombustíveis, o etanol de segunda geração — produzido a partir de resíduos de madeira, entre outros materiais — apresenta custos de produção reduzidos e características semelhantes às do etanol convencional, ampliando as possibilidades para a consolidação de uma matriz energética mais limpa.

Em Portugal, a inovação da indústria florestal abre igualmente uma ampla janela de oportunidades com o desenvolvimento de novos produtos à base de cortiça. O país é o maior produtor e exportador mundial deste material e, embora a produção de rolhas ainda domine o sector, multiplicam-se as possibilidades de criação de novos materiais compósitos, com aplicações nas indústrias têxtil, da construção e até aeroespacial.

Estas são apenas algumas das inúmeras formas de ilustrar a capacidade e amplitude da inovação da indústria florestal.

A preocupação desta indústria com a preservação dos recursos naturais orienta também as suas inovações no sentido da sustentabilidade ambiental, tornando-a uma aliada essencial no combate às alterações climáticas.

Do ponto de vista económico, o seu papel é igualmente relevante. Os exemplos práticos apresentados evidenciam a capacidade da silvicultura para criar sinergias e mobilizar outros sectores da economia – especialmente as chamadas indústrias intensivas em conhecimento, como as dos ramos farmacêutico, químico, tecnológico e de engenharia de software –, contribuindo para a dinamização e o fortalecimento da economia como um todo e promovendo o desenvolvimento económico e social das populações.

Assim, é fundamental que a indústria florestal seja considerada nas estratégias de investigação, desenvolvimento e inovação dos países detentores deste valioso recurso. E importa ressaltar que a inovação não se limita à dimensão tecnológica: os âmbitos social, institucional e político também fazem parte desse conjunto. São, contudo, temas que merecem uma reflexão própria para além deste texto.

Janeiro de 2026

O Autor

Andrey Barbato é investigador colaborador no Centro de Estudos Internacionais do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa.

Licenciado em Economia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) e mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Andrey Barbato é doutorando no programa interdisciplinar de Economia Política conjunto do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Iscte – Instituto Universitário de Lisboa.

Os seus interesses de investigação centram-se na inovação em indústrias baseadas em recursos naturais e sua tese de doutoramento, em desenvolvimento, procura investigar a influência do conhecimento idiossincrático no desenvolvimento de inovações tecnológicas e na transição sustentável da indústria florestal.

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