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Espécies Florestais

Floresta Laurissilva: uma relíquia da ilha da Madeira

Quando se fala em floresta Laurissilva, a árvore que nos vem à ideia é o loureiro. Mas a floresta nativa da Madeira é muito mais do que isso. Valorizada desde há vários séculos pelas diferentes utilizações, a sua riqueza está espelhada em espécies variadas e únicas no mundo, com muito para conhecer neste artigo escrito em colaboração com Beatriz Sousa.

Embora se possam encontrar espécies da floresta Laurissilva noutros arquipélagos, incluindo em várias ilhas dos Açores, é na ilha da Madeira que se encontra a maior e mais bem conservada área da floresta indígena madeirense. Hoje, a floresta Laurissilva ocupa cerca de 20% daquele território e é um dos “tesouros” mais bem guardados e preservados.

Muito valorizada noutros tempos pela sua madeira, matéria-prima para a construção, ou como fonte de recursos para a medicina, culinária ou até como combustível, a sua riqueza, importância e especificidade valeram-lhe, em 1999, a classificação como Património Mundial Natural da UNESCO. Hoje é uma das principais atrações da ilha, também pela exclusividade de muitas das suas espécies.

A floresta Laurissilva é constituída pela vegetação autóctone que existia no continente antes da última glaciação (glaciação de Würm, de 35 mil a 20 mil anos a.C.), quando o clima era mais quente e húmido. Este tipo de floresta subtropical húmida encontrou refúgio nas ilhas dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias, que, em conjunto com Cabo Verde, constituem a região biogeográfica denominada Macaronésia. Este termo tem origem no grego (makáron – feliz, nesoi – ilhas) e significa “ilhas afortunadas” ou “ilhas abençoadas”. Nestas ilhas, a presença da água à sua volta atua como agente termorregulador (que regula a temperatura), o que ajuda a explicar a razão pela qual estas regiões mantiveram, e mantêm, um clima com temperaturas mais amenas que as da Europa, que permitiu a manutenção da floresta Laurissilva.

Assim, quando os navegadores portugueses chegaram à ilha, no século XV, atribuíram-lhe o nome de “Madeira” devido ao seu extenso e denso arvoredo. Segundo relatos históricos do século seguinte, a floresta Laurissilva da Madeira estava presente em toda a ilha, desde o mar até às montanhas: “…não tinha palmo de terra que não fosse cheio de árvores grandíssimas…”. Contudo, a ocupação do território, a procura de materiais (como a madeira e o carvão), a introdução de espécies exóticas, entre outros factores, fizeram com que a área de distribuição da floresta Laurissilva naquela região sofresse oscilações ao longo dos cinco séculos de ocupação e atividade humana.

A partir de 1970, a consciencialização da importância deste património natural e do seu valor intrínseco, aliado à implementação de legislação adequada, permitiram a recuperação crescente da área da relíquia autóctone que é a floresta Laurissilva da ilha da Madeira.

Além de ser património da UNESCO, a importância desta floresta encontra-se protegida por legislação regional, nacional e internacional. É um habitat prioritário, com interesse de conservação – habitat 9360, Laurissilvas macaronésias (Laurus, Ocotea). Foi classificada como Zona de Proteção Especial (ZPE), no âmbito da Diretiva Aves, e é Sítio da Rede Natura 2000 com o nome Laurissilva da Madeira. Faz ainda parte da Rede de Reservas Biogenéticas do Conselho da Europa.

Miradouro da Levada dos balcões

Miradouro da Levada dos balcões © Pedro Silva

Floresta Laurissilva

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Floresta Laurissilva

Laurissilva da Madeira mais luxuriante na encosta norte

A floresta Laurissilva da Madeira ocupa cerca de 15 mil hectares da área da ilha, o que corresponde a aproximadamente 20% deste território. É na encosta norte, na zona de Porto Moniz, São Vicente e Santana, entre os 300 e os 1300 metros de altitude, que é mais frequente, no entanto, podem ser encontradas manchas de floresta Laurissilva da Madeira noutras zonas da ilha – Calheta, Ponta do Sol e Machico -, em áreas de difícil acesso entre os 700 e os 1200 metros de altitude. A maior parte da área de floresta Laurissilva está inserida no Parque Natural da Madeira, área protegida que abrange cerca de dois terços da ilha.

Ao longo de todo o ano, as árvores e arbustos da floresta Laurissilva apresentam uma tonalidade sempre verde, apesar de as suas características e espécies também variarem com o clima. Na encosta sul até cerca dos 1000 metros de altitude e nas zonas mais baixas da encosta norte, o clima é mediterrânico, destacando-se pela secura prolongada durante os meses de verão. Nestas zonas, a vegetação está condicionada pela precipitação, sendo a área potencial da floresta Laurissilva mediterrânica do barbusano (Apollonias barbujana) e dos bosques de zambujal, um tipo de floresta madura e dominada pela oliveira-brava endémica (Olea maderensis), também conhecida por zambujeiro. Este zambujal é uma floresta baixa, onde dominam, além do zambujeiro, os buxos-da-rocha (Chamaemeles coriacea e Maytenus umbelatta), o dragoeiro (Dracaena draco sbsp. draco) e o esparto (Asparagus scoparius). É, no entanto, um tipo de floresta com ocorrência reduzida na paisagem nos dias de hoje.

Mapa da Floresta Laurissilva

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Mapa Floresta Laurissilva

Já na maior parte da encosta norte da ilha, e a partir dos 1000 metros de altitude na encosta sul, o clima é temperado, com precipitação distribuída ao longo de todo o ano e sem seca ou com seca reduzida em agosto. Como tal, a falta de água não se faz sentir, pelo que a vegetação é mais luxuriante. Esta é a zona da Laurissilva do til (Ocotea foetens).

Por seu turno, na zona de maior altitude, acima dos 1400 metros, o frio, o granizo e a neve limitam a presença da floresta de lauráceas. A vegetação de montanha, o chamado urzal arbóreo de altitude, é uma floresta com um sub-bosque mais pobre, onde domina a urze-molar (Erica arborea), que pode chegar a ultrapassar os 8 metros de altura, e a urze-das-vassouras (Erica platycodon subsp. maderincola). Pensa-se que este bosque pode ter sido dominado, no passado, pelo cedro-da-madeira (Juniperus cedrus subsp. maderensis), que foi muito usado para construção. Hoje em dia restam poucos exemplares espontâneos, tanto do cedro-da-madeira, como da sorveira ou da tramazeira-da-madeira (Sorbus maderensis), outra espécie endémica da Madeira, mas com folha caduca.

A flora vascular dos arquipélagos da Madeira e das Selvagens é constituída por 1226 espécies. Destas, 123 são endemismos da Madeira, exclusivos destas ilhas, e 69 são endemismos comuns aos restantes arquipélagos da Macaronésia (Açores, Canárias e Cabo Verde).

A diversidade da floresta Laurissilva da Madeira

A floresta Laurissilva da Madeira é constituída por uma elevada percentagem de espécies exclusivas da região da Macaronésia, sendo que as espécies com maior dominância pertencem à família das Lauráceas – Laurus. Assim, através do latim é possível compreender o nome atribuído a esta floresta: Laurissilva = laurus – loureiro + silva – floresta. De notar que o loureiro da floresta Laurissilva da Madeira (Laurus novocanariensis), é uma espécie endémica macaronésica. Porém, as folhas de louro que usamos habitualmente na cozinha (no continente) pertencem à Laurus nobilis, uma espécie mediterrânica.

Além do género Laurus (loureiro, Laurus novocanariensis), a presença de espécies dos géneros Ocotea (til, Ocotea foetens), Appolonias (barbusano, Apollonias barbujana), Clethra (folhado, Clethra arborea) e Myrica (faia, Myrica faya) fazem da floresta Laurissilva uma relíquia do período Terciário – desde há cerca de 65 milhões de anos até há 1,8 milhões de anos.

Relativamente a arbustos endémicos, destacam-se o massaroco (Echium candicans), a figueira-do-inferno (Euphordia melífera) – uma espécie distinta da figueira-do-diabo (Opuntia ficus-indica), uma invasora no nosso país –, a Isoplexis sceptrum e a Musschia wollastonii. Nos taludes dos cursos de água e nas clareiras podem ser encontrados outros endemismos vistosos nas herbáceas, como por exemplo, as orquídeas-da-serra (Dactylorhiza foliosa) ou as pássaras (Geranium palmatum).

A vegetação Laurissilva está organizada em três comunidades: Laurissilva do barbusano, Laurissilva do til e Laurissilva do vinhático, que se encontram em “andares” bioclimáticos diferentes na ilha da Madeira, os quais refletem as unidades climáticas regionais através da forma como estas influenciam a vegetação. A do barbusano ocorre em altitudes mais baixas, encontrando-se a Laurissilva do til e a do vinhático mais acima na paisagem. Conheça um pouco mais sobre estas três comunidades.

Distribuição da Floresta Laurissilva

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Laurissilva do barbusano

A Laurissilva mediterrânica do barbusano é designada cientificamente por Semele androgynaeApollonietum barbujanae. Este nome provém da espécie dominante deste ecossistema, o barbusano (Apollonias barbujana), e de uma das lianas que se pode encontrar no seu sub-bosque, o alegra campo (Semele androgyna). Além do barbusano, as florestas maduras são também dominadas pelo loureiro (Laurus novocanariensis), pela faia (Myrica faya) e pelo azevinho (Ilex canariensis). O sub-bosque é constituído por várias espécies trepadeiras e lianas, como o alegra campo (Semele androgyna), a Smilax pendulina, a Smilax canariensis e a hera endémica da ilha da Madeira (Hedera maderensis subsp. Maderensis), a corriola (Convolvulus massonii), entre outras. As áreas mais degradadas da zona potencial da Laurissilva do barbusano encontram-se ocupadas por comunidades de figueira-do-inferno (Euphorbia piscatoria), onde dominam também a malfurada (Globularia salicina) e o massaroco (Echium nervosum).

Massaroco

Massaroco (Echium candicans) © Beatriz Sousa

Esta comunidade tem a sua área de distribuição potencial entre os 300 e 800 metros de altitude na vertente sul e entre os 50 e 450 metros na vertente a norte da ilha da Madeira. Hoje em dia, pela pressão da atividade humana, encontra-se limitada a algumas zonas declivosas e inacessíveis.

As folhas do barbusano encontram-se frequentemente marcadas com saliências semelhantes a verrugas, resultantes de picadas de um ácaro específico desta espécie.

Laurissilva do til

Esta comunidade florestal é característica de zonas com precipitação elevada e humidade atmosférica superior a 85%, onde as árvores podem atingir perto de 30 metros de altura. A sua área de desenvolvimento potencial está compreendida entre 800 e 1450 metros de altitude da encosta sul da ilha e entre os 300 e 1400 metros de altitude da encosta norte, estando localizada acima da Laurissilva do barbusano.

A Laurissilva do til é cientificamente denominada por Clehro arboretum-Ocoteetum foetentis, sendo as espécies predominantes o til (Ocotea foetens), o loureiro (Laurus novocanariensis) e o folhado (Clethra arborea). Além destas árvores, são também frequentes o pau-branco (Picconia excelsa), o aderno (Heberdenia excelsa), o vinhático (Persea indica), a gingeira-brava (Prunus lusitânica subsp hixa), e o perado (Ilex perado subsp. perado).

O sub-bosque desta comunidade é composto por uma elevada diversidade de espécies arbustivas, herbáceas, pteridófitas (grupo de plantas como as avencas e as cavalinhas, que não possuem sementes, entre outras características) e briófitas (grupo de plantas a que pertencem os musgos, por exemplo). Aqui podem ser encontradas algumas espécies endémicas da Madeira, como é o caso da roseira-brava (Rosa mandonni), a cabreira (Phyllis nobla), a malfurada (Hypericum grandifolium) ou a erva-redonda (Sibthorpia peregrina).

As florestas de Laurissilva do til, pela diversidade de espécies existentes, incluem micro-habitats variados, estando a sua biodiversidade muito associada às comunidades existentes em orlas e clareiras naturais – zonas com maior quantidade de luz disponível e onde se podem encontrar mais “andares” de vegetação.

Tis Centenária 1
Tis Centenária

Tis centenários (Ocotea foetens) © Pedro Silva

Laurissilva do vinhático

A Laurissilva do vinhático, de denominação científica Diplazio caudati-Perseetum indici, é uma comunidade de bosques ripícolas, típicos de ribeiras permanentes. Tem uma distribuição potencial entre os 700 e 1500 metros de altitude na vertente a sul e entre 300 e 1300 metros na vertente norte, nos troços médios das ribeiras que nascem no topo da ilha.

As florestas ripícolas de Laurissilva do vinhático ocorrem em solos com material aluvionar (depósito de sedimentos de areia, cascalho ou lamas em zonas fluviais ou de estuário), onde dominam o vinhático (Persea indica) e o loureiro (Laurus novocanariensis). O sub-bosque é constituído por fetos higrófilos, adaptados a viver em ambientes húmidos, como o feto-de-calvalto (Diplazium caudatum) e o feto-de-botão (Woodwardia radicans). Nas orlas dos bosques podem encontrar-se silvados de Rubus bollei e ruivinho (Rubia agostinhoi), entre outras espécies.

Vinhático 1

Vinhático (Persea indica) © Beatriz Sousa

Vinhático
Vinhático
Vinhático
Vinhático

Feto-Botão (Woodwardia radicans) © Beatriz Sousa

Os animais da floresta Laurissilva da Madeira

A fauna da floresta Laurissilva da Madeira é composta por uma variedade de espécies, tanto endémicas como introduzidas. O isolamento geográfico da ilha possibilitou o desenvolvimento de espécies particulares e a existência de numerosos endemismos. Por exemplo, das quase 3 mil espécies de insectos da ilha da Madeira, cerca de 20% são endémicas.

Alguns dos endemismos mais interessantes são a lesma Phaenacolimax madeirovitrina ruivensis, que pode ser encontrada nos locais mais húmidos, sobre as pedras dos ribeiros e regatos; a lagartixa Lacerta dugesii, o único réptil nativo da Ilha da Madeira; e o emblemático pombo torcaz (Columba trocaz), que vive associado à Laurissilva, que prefere vales escarpados e profundos abaixo dos 900m de altitude onde pode encontrar o til e outras espécies para se alimentar dos seus frutos. Esta é uma espécie com estatuto de conservação “Vulnerável” no livro vermelho dos vertebrados 2005 em Portugal e classificada como prioritária na Diretiva Aves, que enquadra a conservação e a gestão das aves selvagens na Europa.

Tentilhão

Tentilhão (Fringilla coelebs madeirensis) © Pedro Silva

Sabia que:

 

  • Além do pombo-torcaz, a Madeira tem outras aves endémicas: o Bis-bis (Regulus madeirensis), a espécie mais pequena da avifauna e que se alimenta de insectos, o que a torna um importante regulador do equilíbrio do ecossistema, e o Tentilhão (Fringilla coelebs madeirensis), uma subespécie endémica da desta ilha.
  • O Jardim Botânico da Madeira – Eng.º Rui Vieira, criado em 1960, além de um ponto de atração turística, é um dos maiores repositórios de biodiversidade da ilha. Aqui é feita investigação e conservação dos recursos dos arquipélagos da Madeira e Selvagens.
  • O vinhático, o til e o cedro-da-madeira foram utilizados como matéria-prima na construção e na indústria mobiliária e a urze era usada, sob a forma de carvão, como combustível.
  • A floresta Laurissilva continua a ser fonte de recursos vegetais para a medicina popular e a culinária madeirense. O loureiro (Laurus novocanariensis) tem várias utilizações: o pau é usado nas espetadas (prato tradicional), as folhas como tempero e as bagas para fazer óleo de louro para fins medicinais. Os frutos da uveira (Vaccinium padifotium) são usados para a confeção de geleias e compotas. Na medicina popular madeirense são utilizados, entre muitos outros, o fungo madre-de-louro (Laurobasidium lauri), o til (Ocotea foetens) ou a erva-redonda (Sibthorpia peregrina).
  • As folhas e ramagens do folhado (Clethra arborea) são ainda hoje usadas na alimentação do gado.
Uveira da Serra

Uveira da serra (Vaccinium padifolium) © Beatriz Sousa

Beatriz Rodrigues de Sousa

Beatriz Rodrigues de Sousa é licenciada em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais pelo ISA – Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa. Atualmente é estagiária no IFCN, IP-RAM – Instituto das Florestas e da Conservação da Natureza. É ainda redatora na Quercínea, revista oficial da APEF – Associação Portuguesa de Estudantes Florestais.

e-mail: Beatriz_rodriguessousa@hotmail.com