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Carla Candeias

Geofagia: quando a terra se transforma em alimento

Desde sempre que o solo desempenha um papel importante na história da humanidade. Fornece alimento, água, abrigo e até medicamentos. Em muitas culturas, a relação com a terra chega mais longe: comer solo (ou argila) faz parte de práticas antigas, conhecidas como geofagia. Apesar de poder parecer estranho para alguns, este comportamento é um costume universal e ancestral, registado em diferentes épocas e locais do mundo.

O solo é uma mistura complexa de minerais, matéria orgânica e micro-organismos. Alguns materiais geofágicos são ricos em ferro, cálcio ou magnésio, e acredita-se que o seu consumo pode funcionar como suplemento natural em populações com dietas pobres em determinados nutrientes.

Certos tipos de argila possuem propriedades que ajudam a neutralizar toxinas e micro-organismos, sendo uma das razões para que, em alguns locais, se misture terra com alimentos de sabor amargo ou potencialmente nocivos. Pela sua forma estrutural, as argilas agem como um “filtro” dentro do organismo, reduzindo os efeitos negativos. Outro contributo importante é o efeito digestivo, havendo relatos de alívio de azia, náuseas ou dores de estômago após consumir pequenas quantidades de argila, razão pela qual se trata de uma prática mais frequente em grávidas, sobretudo em regiões onde o acesso a cuidados médicos é limitado.

A geofagia tem raízes muito antigas, havendo registos que apontam para a sua prática desde a pré-história, associada tanto a tradições culturais como a necessidades fisiológicas. Comunidades de África, da Ásia, da América e da Europa deixaram testemunhos da ingestão de terras argilosas ou de certas rochas moídas.

Em muitos casos, a prática surge ligada à maternidade, sendo comum mulheres grávidas recorrerem a certos tipos de argila para aliviar enjoos ou reforçar o organismo. Existem também práticas de carácter ritual ou espiritual, em que o solo é consumido como símbolo de ligação à terra, de purificação ou de proteção contra doenças. Neste sentido, comer terra nunca foi apenas um ato instintivo, tendo um valor cultural enraizado.

Nas comunidades que residem em zonas florestais, é relativamente comum que o solo seja usado em geofagia. As raízes das árvores atuam como arados, fragmentando as rochas e facilitando a alteração química e física que leva à formação das argilas. Na camada superficial dos solos, onde predomina material biológico em decomposição, são libertados ácidos orgânicos e nutrientes, essenciais para maturar o solo, tornando-o nutricionalmente mais biodisponível.

Geofagia: quando a terra se transforma em alimento

Venda de diferentes materiais geofágicos em mercados de Maputo, Moçambique. A escolha depende da preferência do consumidor.

Uma tradição que persiste

Nos nossos dias, a geofagia ainda continua a ser uma prática em vários locais do mundo.

Em vários países africanos, como por exemplo Cabo-Verde, Moçambique, Angola, Nigéria, ou Gana, facilmente se encontram nos mercados vendedores de diferentes tipos de argilas preparadas especialmente para consumo humano.

Na América do Sul, há regiões nos Andes onde se mistura argila com batatas amargas, reduzindo o seu sabor desagradável e tornando-as comestíveis. Na América do Norte, algumas comunidades rurais mantêm o hábito de mastigar pedaços de “terra branca”, uma argila rica em caulinite, um dos minerais de argila mais usados na geofagia. Esta argila é conhecida pela ação protetora do sistema digestivo e capacidade de adsorção de toxinas, pelo alívio de enjoos, vómitos e azia durante a gravidez, entre outros benefícios.

Em Portugal, embora menos conhecida, a prática já foi referida em contextos históricos e populares, sobretudo em zonas rurais, associada a tradições de cura.

Os riscos da geofagia

Apesar de todos os potenciais benefícios, a geofagia não é isenta de perigos. O solo pode estar contaminado com bactérias, parasitas ou metais pesados que representam riscos sérios para a saúde.

Em zonas próximas de indústrias, estradas ou minas, a ingestão de terra pode expor as pessoas a elementos tóxicos como chumbo, arsénio ou mercúrio. A degradação do esmalte dentário e a obstrução intestinal são também riscos associados.

Adicionalmente, a ingestão repetida de maiores quantidades de solo pode dificultar a digestão e levar a complicações médicas. E o consumo excessivo de argila pode interferir com a absorção de nutrientes essenciais, causando carências e deficiências nutricionais.

Embora compreensível em contextos culturais ou históricos, a prática da geofagia levanta hoje sérias preocupações de saúde pública.

A geofagia continua a ser uma prática bastante estudada por cientistas, médicos e antropólogos. Será que se trata de uma reação instintiva do corpo, de procura por minerais ou de proteção contra toxinas? Ou será sobretudo um costume cultural transmitido entre gerações? A resposta parece encontrar-se a meio caminho, tratando-se de um hábito com múltiplas raízes. Mais do que uma curiosidade, a geofagia recorda-nos a ligação profunda entre o ser humano e a terra. Comer solo é, ao mesmo tempo, um reflexo de necessidade, crença e sobrevivência. Mas a geofagia requer um alerta, já que o solo pode fortalecer ou, pelo contrário, afetar negativamente a saúde.

O Autor

Carla Candeias é investigadora no Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro e membro da Unidade de Investigação GeoBioTec. Doutorada em Geociências, tem inúmeros trabalhos publicados na área da Geologia Médica, uma área emergente relacionada com o impacte dos materiais geológicos na saúde das populações.

Entre os vários trabalhos que desenvolveu, em diferentes localizações do mundo, incluem-se a caracterização geoquímica ambiental, o impacte de diferentes fontes de poluição (naturais ou antropogénicas) nos solos, nas águas, nos sedimentos, nas plantas para consumo humano e na qualidade do ar, e as potenciais consequências na saúde pública. Nestes estudos incluem-se, entre outras abordagens, a Geofagia, a Peloterapia (argilas medicinais) e a Talassoterapia (águas terapêuticas).

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