Em condições ambientais favoráveis, as reservas de carbono consumidas vão sendo compensadas pelo carbono assimilado pela árvore, através da fotossíntese. Mas em contexto de seca, as árvores reagem para reduzirem a perda de humidade e ajustam a gestão da energia disponível – o seu carbono – para assegurarem funções vitais. Mas estas reações têm um preço. Por exemplo, quando fecham os poros das folhas (os estomas) para reduzirem a perda de água por transpiração, também diminuem a quantidade de dióxido de carbono que pode entrar e, consequentemente, a fotossíntese.
Neste estudo, os resultados mostram que o efeito cumulativo da seca e do descortiçamento levam a:
– Redução prolongada do fluxo de seiva para prevenir perdas: Imediata redução da transpiração e crescente redução do fluxo da seiva para prevenir a perda excessiva de água e de energia (o que não acontece em anos sem seca, nem nas árvores não descortiçadas). A redução do fluxo de seiva chega aos cerca de 50% e o fluxo nunca foi reposto durante o período de observação.
– Aumento localizado e temporário de carbono para um sumidouro prioritário: Pico imediato de glucose e frutose nos tecidos do floema (camada antes da casca, que transporta os compostos da fotossíntese desde as folhas para as restantes partes da árvore), acompanhado de aumento pronunciado da respiração do tronco. Os dados sugerem que a energia contida nestas reservas de hidratos de carbono está a ser direcionada para a rápida proteção e regeneração da zona descortiçada, que surge como prioridade para a árvore.
– Reparação do tronco é feita à custa das reservas de carbono e vai esgotá-las: Depleção acentuada e prolongada de hidratos de carbono não estruturais – sacarose e amido – no tronco (floema), mas níveis estáveis nas folhas, que mantêm também os seus potenciais hídricos. Esta dissociação entre copa e tronco sugere que a reparação do tronco está a ser feita à custa das reservas de carbono, criando um desequilíbrio entre fontes e sumidouros: enquanto a copa consegue captar água e dióxido de carbono suficientes para se manter, o tronco precisa de consumir as reservas energéticas de forma acelerada, sem que haja uma reposição que as compense, o que deixa a árvore sem margem de segurança fisiológica.
Adicionalmente, como o descortiçamento ocorre em pleno verão, esta necessidade de carbono extra coincide habitualmente com o período de seca estival, em que a carência hídrica se intensifica na região mediterrânica.
“Em anos secos, o descortiçamento induz uma alteração marcada e persistente na dinâmica dos hidratos de carbono no tecido do floema dos sobreiros, mas não nas folhas, fornecendo, pela primeira vez, evidência bioquímica de uma ‘crise de carbono’, tal como sugerido anteriormente por Natividade em 1950”, conclui o artigo, remetendo para uma dinâmica que o mais importante estudioso do sobreiro, Vieira Natividade, já há muito tinha equacionado. “Embora a realocação de carbono seja essencial para a reconstrução do floema e, consequentemente, para a regeneração da cortiça, este processo pode competir com a capacidade da árvore para armazenar hidratos de carbono não estruturais (amido e sacarose), o que poderá comprometer a sua resiliência face a stresses ambientais subsequentes.”