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01.04.2026

Alterações climáticas mudam dinâmica dos carvalhos ibéricos

Alterações climáticas mudam dinâmica dos carvalhos ibéricos

As alterações climáticas vão potenciar mudanças na dinâmica dos carvalhos ibéricos, favorecendo a sua deslocação para norte e para zonas mais elevadas. As áreas com condições para o sobreiro deverão aumentar, promovendo a expansão desta espécie, mas diminuirão as zonas onde (principalmente) o carvalho-negral conseguirá crescer.

A configuração das florestas de carvalhos ibéricos vai mudar ao longo do século XXI, influenciada pelas pressões das alterações climáticas, que irão promover a substituição progressiva das espécies menos tolerantes à seca por outras adaptadas a condições mais quentes e áridas.

Estas dinâmicas foram projetadas por uma equipa multidisciplinar de investigadores portugueses das áreas da ecologia, geografia, silvicultura e biologia – Isabel Passos, Albano Figueiredo, João Gonçalves, Maria Margarida Ribeiro e Carlos Vila‑Viçosa. As suas conclusões foram divulgadas em março de 2026, no artigo Exploring turnover dynamics in Iberian Oak forests under climate change scenarios, publicado na revista científica Discover Conservation.

O estudo focou‑se em três espécies de carvalhos ibéricos que dominam as florestas maduras nas áreas onde encontram condições ótimas para se desenvolver: sobreiro (Quercus suber), carvalho-negral (Quercus pyrenaica) e carvalho-alvarinho (Quercus robur). Em termos geográficos, o trabalho abrangeu a Península Ibérica, ou seja, os territórios continentais de Portugal e Espanha, Andorra, Gibraltar e partes do sul dos Pirenéus em França.

Nesta área geográfica, os investigadores desenvolveram modelos para prever a distribuição potencial futura das três espécies, em dois intervalos temporais, 2041–2070 e 2071–2100, e em dois cenários climáticos, um intermédio (SSP3-7.0) e um mais severo (SSP5-8.5), ambos incluídos no 6.º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (AR6, IPCC). Os modelos de distribuição das espécies, cruzados com estatística e machine learning, consideraram variáveis relacionadas com os solos, o clima e a topografia.

Embora os cenários e períodos testados façam variar os resultados das projeções, todas elas antecipam uma reconfiguração das florestas de carvalhos ibéricos impulsionada pelas alterações climáticas, com alterações na localização e dimensão das áreas potenciais de cada espécie e com a substituição das espécies dependentes de maior humidade pelas mais adaptadas à seca. O sobreiro surge como a espécie com melhor capacidade de adaptação ecológica e como a que terá melhores condições para se expandir.

Perdas e ganhos na área de distribuição dos carvalhos ibéricos

As projeções revelam trajetórias divergentes para estes três carvalhos, indicando que estas espécies deverão experimentar deslocações na sua área de distribuição, predominantemente para latitudes norte e para altitudes mais elevadas.

Esta alteração está relacionada com a ampliação das características mediterrânicas a novas zonas do território e com as dinâmicas de aumento e redução das áreas com condições às quais cada espécie conseguirá adaptar-se:

  • Carvalho-alvarinho: a maior parte da sua zona de distribuição atual – entre 84,3% e 73,1%, consoante o cenário climático e o período temporal – deverá manter-se estável, mas a área total adequada à presença da espécie diminui ligeiramente, qualquer que seja o cenário climático usado. Este carvalho continuará a encontrar refúgio estável nas regiões mais húmidas.

Note-se que, embora recentemente se tenha demonstrado que as populações ibéricas de Quercus robur são morfológica e geneticamente independentes face às do resto da Europa (uma espécie diferente), como os registos históricos as consideram como Quercus robur, a equipa optou por modelar a presença e projeção destas árvores como se de uma mesma espécie se tratasse.

  • Carvalho-negral: a área adequada à sua presença diminui ao longo do tempo e de forma mais acentuada do que para os outros dois carvalhos ibéricos. Estima-se que 64,4% a 36% da área atual de distribuição deverá manter-se estável, mas entre 31,7% e 59,2% das zonas onde está presente deixarão de ter condições para acolher a espécie, em especial nas regiões sul e interior da Península Ibérica. Esta espécie submediterrânica enfrentará a maior contração e possíveis extinções locais.
  • Sobreiro: a área total adequada à espécie aumenta em todos os cenários e ao longo do tempo – entre 32,4% e 43,4% – antecipando-se, assim, que o sobreiro possa expandir-se, tanto para o interior como para o norte, podendo atingir os Pirenéus. As áreas que perdem aptidão para o sobreiro são mínimas, entre 0,3% e 1%, e estão confinadas ao sul da Península Ibérica. As áreas de distribuição que ganhará – para norte e para zonas elevadas – promovem ainda um efeito de substituição.

Sobreiros substituem principalmente carvalho-negral

Algumas das áreas onde uma destas espécies perde adequabilidade climática poderão ter condições para acolher outra:

  • Sobreiro substitui carvalho-negral – os modelos sugerem que o carvalho-negral poderá ser substituído por sobreiro em 19,9% a 47,3% da sua área atualmente adequada, com a percentagem mais elevada a corresponder ao cenário climático mais severo e ao período temporal mais longínquo. A troca mais pronunciada deverá acontecer nas zonas sul da atual área de distribuição do carvalho-negral, nas quais passa a haver melhor aptidão para o sobreiro, que terá uma expansão progressiva para o interior da Península Ibérica até ao final do século.
Alterações climáticas mudam dinâmica dos carvalhos ibéricos

Esta substituição de carvalho-negral por sobreiro é a tendência mais pronunciada antecipada pelo estudo, “empurrando” o carvalho-negral para manchas dispersas no Norte e para áreas de maior altitude, mas não é a única:

  • Carvalho-negral poderá substituir carvalho-alvarinho – embora em menor escala, entre os 4,6% e 8,2%, esta substituição poderá ocorrer na parte sul da área atual onde se encontra o alvarinho, em particular nas zonas interiores de baixa altitude. Neste caso, a substituição será mais expressiva no intervalo de tempo mais próximo e sob o cenário climático mais moderado.
  • Sobreiro poderá substituir também carvalho-alvarinho principalmente nas regiões oeste e nordeste da Península Ibérica, em zonas próximas do litoral. A escala de substituição é mais intensa no cenário climático mais severo e à medida que o tempo avança, embora com percentagens ainda menos expressivas do que no caso anterior.

Outras trocas entre espécies são antecipadas, mas os seus valores são tão baixos, que são considerados irrelevantes.

Apoiar a mudança de forma adaptativa e responsável

Estas alterações permitirão manter a cobertura florestal e a sua continuidade funcional, mas reconhecê-las e apoiá-las de forma adaptativa e responsável é essencial para assegurar, a longo prazo, a resiliência, a produtividade e os serviços do ecossistema destas florestas, sublinham os autores, alertando para a necessidade de integrar estas projeções no planeamento, florestação, gestão florestal e também na conservação e restauro de áreas e habitats protegidos.

Refira-se que uma parte considerável das zonas onde se antecipa esta substituição entre espécies de carvalhos ibéricos está situada em Áreas Protegidas, incluindo Parques e Reservas Naturais, Rede Natura 2000 e habitats protegidos, como o 9230 – carvalhais galaico‑portugueses de Quercus robur e Quercus pyrenaica e o 9330 – florestas de Quercus suber.

As mudanças que se antecipam pressupõem uma gradual reorganização destes habitats florestais que, em alguns casos, poderão deslocar-se ou reduzir-se, ou ver as suas formações secundárias a ganhar protagonismo. Os métodos de restauro e as prioridades de conservação devem, por isso, ser revistos e adaptados à luz destes novos conhecimentos.

Adicionalmente, seja em áreas públicas, protegidas ou privadas, é necessário promover a florestação e regeneração das espécies de carvalhos ibéricos onde o seu futuro climático for favorável, favorecer abordagens multiespécie e multiproveniência, assim como estabelecer estratégias adaptativas.