O ERGA iniciou-se com um projeto-piloto, cujos primeiros resultados foram divulgados em 2024. Envolvendo cientistas de 33 países, promoveu a descoberta de genomas de referência de alta qualidade para 98 espécies europeias. As equipas portuguesas assumiram a sequenciação de seis espécies consideradas como prioritárias – endémicas, ameaçadas ou sujeitas a fortes pressões em Portugal continental e nos Açores. Duas plantas, três vertebrados e um inseto:
- Camarinha (Corema album) – Os trabalhos de sequenciação deste arbusto de baga branca comestível começaram em 2024, em múltiplos tecidos de plantas masculinas e femininas, com o objetivo de anotar o genoma de referência desta planta dioica e obter informação sobre a diversidade genética da espécie e os mecanismos que lhe permitem adaptar-se aos habitats costeiros. Esta é uma informação relevante para compreender como vive nas condições ambientais exigentes, nomeadamente de aridez, dos ecossistemas dunares.
- Louro-da-terra (Laurus azorica) – Este loureiro, que ocorre apenas nos Açores – distinto do loureiro (Laurus nobilis) mais comum em Portugal continental – tem já um projeto próprio no European Nucleotide Archive, no âmbito do piloto ERGA, reunindo dados de sequenciação, montagens genómicas e anotação.
- Chasco-preto (Oenanthe leucura) – uma ave cuja população em Portugal, de cerca de uma centena de casais, persiste apenas na região agrícola do Douro.
- Lebre-ibérica (Lepus granatensis) – espécie endémica da Península Ibérica (que não ocorre naturalmente em nenhum outro lugar) com um papel importante nos ecossistemas ibéricos e que tem sido afetada por doenças virais.
- Saramugo (Anaecypris hispanica) – um pequeno peixe de água doce, considerado como um dos mais vulneráveis à extinção em toda a Península Ibérica.
- Escaravelho-cavernícola-da-Ilha-Terceira (Trechus terceiranus) – pequeno coleóptero endémico da ilha Terceira, nos Açores, associado a habitats cavernícolas.
Aos trabalhos de sequenciação destas seis espécies juntam-se esforços dirigidos a outras espécies, quer no âmbito deste Atlas, como é o caso do priolo, quer fora do ERGA. Eis alguns exemplos:
– Em 2018, uma equipa portuguesa publicou a primeira sequência do genoma do sobreiro (Quercus suber). À data, foi a informação genómica mais completa disponibilizada para esta espécie, embora ainda não na sua versão final. O trabalho identificou mais de 900 milhões de pares de bases de ADN de uma árvore selecionada e constituiu um marco para o conhecimento genético de uma das árvores mais icónicas em Portugal.
– Já no universo do ERGA, um genoma de uma espécie portuguesa recentemente sequenciado é do lapa (Patella rustica), cuja montagem de nível cromossómico foi publicada já em 2026, um recurso fundamental para investigar como as espécies marinhas da zona entremarés respondem ao aquecimento global.
– Outra espécie portuguesa em estudo no âmbito do ERGA é o agrião-dos-Açores (Cardamine caldeirarum). As amostras desta planta endémica foram enviadas para sequenciação no Instituto Earlham, em Norwich, Reino Unido, num trabalho que pode ajudar a esclarecer um mistério antigo: a possível existência de espécies crípticas – plantas geneticamente distintas, mas visualmente idênticas – neste arquipélago.
Por detrás destes trabalhos está uma ideia que precisa de ganhar força: de que a biodiversidade não se resume à diversidade de espécies. Inclui outras dimensões, como a diversidade genética dentro de cada espécie. Sequenciar genomas de referência é, neste contexto, dotar a conservação de uma base de informação estrutural.
O genoma do priolo é um bom exemplo. Ter o mapa do ADN desta espécie, cuja população está reduzida a uma única ilha e é pouco diversa geneticamente, é uma importante ferramenta para monitorizar a sua diversidade, antecipar riscos e desenhar medidas de gestão mais informadas. Aplicada a um número crescente de espécies, esta abordagem pode ajudar a mudar a forma como olhamos – e cuidamos – do património natural português e europeu.