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07.05.2026

Que espécie devo plantar? Plataforma Radici ajuda a decidir

Que espécie devo plantar? Plataforma Radici ajuda a decidir

Saber o que plantar e onde plantar pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de um projeto verde. Por isso, a Natural Business Intelligence – NBI lançou uma plataforma online, interativa e de utilização gratuita, que ajuda a identificar as espécies autóctones que melhor se adaptam a diferentes locais e tipos de habitat em Portugal continental. A plataforma Radici contempla, na sua versão inicial, 107 espécies de plantas herbáceas, arbustos e árvores.

Disponibilizada em abril de 2026, numa versão “beta” (suscetível de novos desenvolvimentos), a plataforma Radici surge como resposta às necessidades de pessoas e organizações que querem tornar mais verdes diferentes áreas privadas ou públicas – desde jardins particulares a espaços de lazer e parques urbanos –, mas que não sabem quais são as espécies da flora portuguesa com melhores condições para se desenvolverem nos locais em causa.

A plataforma está disponível em https://nbi-tools.pt/ e, mediante o preenchimento de dados personalizados, indica quais são as espécies com maior probabilidade de crescer saudáveis na zona e circunstâncias identificadas. Os dados a preencher dão as pistas essenciais para gerar uma resposta automatizada da plataforma e incluem:

  • Localização, indicando distrito, concelho e freguesia;
  • Características do local, considerando o tipo de habitat e as condições que o influenciam – mediterrânico, atlântico, litoral, ribeirinho (margens de cursos de água) ou montanhoso;
  • Tipo de vegetação pretendida, com opções de herbácea alta, arbusto, arbusto/árvore e árvore;
  • Nível de resistência pretendido face a possíveis eventos meteorológicos extremos (de muito baixo a muito elevado).

Cada espécie indicada pela plataforma Radici está ligada à respetiva página do portal Flora-on, uma plataforma da Sociedade Portuguesa de Botânica dedicada à identificação e estudo da flora silvestre de Portugal, onde é possível consultar mais informação sobre as suas características, ecologia e área de distribuição. As imagens que ilustram as espécies provêm da plataforma de ciência cidadã iNaturalist.

O nome Radici foi escolhido por corresponder ao termo latino para “raiz” e a ideia da NBI é que esta “raiz” sustente uma plataforma que se alargará progressivamente, para incluir novas espécies, funcionalidades e informação sobre os benefícios que cada planta ou árvore pode trazer ao território – como os serviços dos ecossistemas que lhe estão associados – contribuindo para decisões mais informadas.

Plataforma Radici dá pistas iniciais…

A NBI dedica-se, entre outras áreas de atividade, ao desenho e à implementação de planos de restauro, de infraestruturas verdes e estratégias de biodiversidade urbana, e assume a plataforma Radici como uma forma de contribuir para a literacia ecológica e para a capacitação das comunidades na criação de espaços verdes e no restauro de ecossistemas degradados.

Este enquadramento ganha particular relevância no contexto do Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que compromete os países europeus a restaurar pelo menos 20% das zonas terrestres da União até 2030.

Outro dos objetivos da plataforma Radici é evitar que quem está envolvido na plantação, replantação ou restauro escolha espécies inadequadas às condições locais (clima, solos, relevo etc.), que acabam por não resistir, desperdiçando materiais reprodutivos e horas de trabalho que se relevam infrutíferas.

Segundo a NBI, a “informação é aplicável ao desenho de projetos de restauro, a planos de rearborização pós-catástrofe, à seleção de espécies para arborização urbana, industrial e rural e à caracterização do capital natural em instrumentos como Planos Diretores Municipais, Planos de Urbanização ou Estratégias Municipais de Adaptação Climática”, mas “não substitui o conhecimento especializado nem os estudos de campo”.

Conhecimento especializado completa-as

As orientações iniciais fornecidas pela plataforma Radici ajudam a definir as espécies possíveis, mas outros conhecimentos devem complementá-las, envolvendo Gabinetes Técnicos Florestais dos municípios, Organizações de Produtores Florestais ou empresas especializadas no planeamento e gestão florestal.

O conhecimento de especialistas pode ser fundamental, por exemplo, em ações de expansão ou reconversão de povoamentos florestais e agroflorestais, em que as espécies a plantar têm de respeitar as indicações dos Programas Regionais de Ordenamento Florestal (PROF) e em que, consoante a dimensão das parcelas, pode ser necessária a elaboração prévia de um Plano de Gestão Florestal.

Refira-se que existem PROF para sete grandes regiões em Portugal continental, que abrangem mais de 130 sub-regiões com características homogéneas. As espécies a usar na expansão ou reconversão florestais em cada sub-região estão indicadas como “Espécies a privilegiar” e “Outras espécies a privilegiar”, consoante o território tem maior ou menor área com aptidão para as receber, como ilustram estes exemplos do Litoral Alentejano e do Algarve.

Outro aspeto importante são os materiais florestais de reprodução (MFR), que têm de respeitar uma série de regras, quer para evitar a propagação de pragas e doenças, quer para assegurar a adaptação ecológica, a resiliência e a sustentabilidade das florestações e reflorestações. Assim, as sementes, plantas e partes de plantas para sementeira ou plantação só podem obter-se junto de fornecedores licenciados de MFR, sendo cerca de 40 as espécies e híbridos que requerem adicionalmente a utilização de materiais de reprodução certificados. A região de proveniência dos MFR é outro dos requisitos a considerar.

Por exemplo, a importação de materiais reprodutivos de amieiro-comum (Alnus glutinosa) de viveiros de europeus tem contribuído para o chamado “declínio do amieiro”, pela disseminação da Phytophtora alni. Em paralelo, estudos genéticos recentes indicam que o amieiro nativo de Portugal (e de grande parte de Espanha) pertence a outra espécie: ao amieiro-ibérico, de nome científico Alnus lusitanica. Deste modo, para preservar a sua genética, deve-se plantar a espécie Alnus lusitanica em Portugal (em vez da Alnus glutinosa). Embora reconhecida oficialmente, esta “nova” espécie ainda não consta de muitas listas botânicas.