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Incêndios Rurais

Qual a percentagem de incêndios com causas apuradas e quais as principais causas de incêndio?

Dos incêndios com causas apuradas em Portugal, a maioria continua a ter origem humana, devendo-se principalmente ao incendiarismo, às queimas e queimadas rurais e a outros usos negligentes do fogo (fogueiras, cigarros, foguetes, entre outros). As causas naturais, como os raios, são responsáveis apenas por uma pequena fração das ocorrências.

Em 2025 foram investigados 8237 dos 8252 incêndios rurais registados e os incêndios com causas apuradas totalizaram 5838, revelam os “Registos individuais de incêndios“, disponibilizados pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O apuramento de causas foi possível em 71% dos incêndios investigados e a cerca de 93% da área total ardida nesse ano.

Desde 2006 registou-se um aumento muito significativo da capacidade de investigação e determinação das causas dos incêndios, o que permitiu uma melhor caracterização dos fatores que estão na sua origem: até 2006, as ocorrências investigadas rondavam anualmente 5% do total. Desse ano em diante a investigação começou a aumentar e, desde 2019, tem vindo a cobrir mais de 90% de incêndios rurais registados anualmente. Refira-se que em 2006, a investigação de incêndios rurais passou a ser uma competência da GNR – Guarda Nacional Republicana, que substituiu o Corpo Nacional da Guarda Florestal da antiga Direção-Geral dos Recursos Florestais, integrando os seus profissionais.

 

Evolução do número de incêndios rurais com causa apurada, 2001–2025

Mais incêndios investigados e causas apuradas em PortugalFonte: Registos individuais de incêndios, ICNF

 

O que inclui cada tipologia de causa? As causas intencionais dos incêndios rurais incluem o incendiarismo e as estruturais – relacionadas com a caça, a vida selvagem e as alterações de uso do solo. As causas naturais estão relacionadas com descargas elétricas de trovoadas. As causas negligentes incluem as queimas e queimadas, o uso de fogo em fogueiras e queimas de lixo, assim como os incêndios resultantes de cigarros, de foguetes e da apicultura, e os decorrentes de acidentes relacionados com maquinaria ou vias de transporte. A determinação das causas dos incêndios rurais é fundamental para compreender o risco de incêndio e orientar medidas de prevenção mais eficazes.

 

Considerando o número total de incêndios com causas apuradas, a maioria deve-se a situações de negligência (acidentes, queimas e queimadas, uso do fogo). As causas intencionais (incendiarismo e estruturais) vêm a seguir, embora sejam responsáveis pela maior percentagem de área ardida:

  • As causas intencionais, nas quais predomina o incendiarismo, representam entre 20%-30% do número de incêndios rurais, mas são responsáveis por entre 40%-50% da área ardida.
  • A causas negligentes estão na origem de 50-60% dos incêndios, mas representa entre 30%-40% da área ardida.

 

Evolução do número de incêndios por tipologia de causa, 2001–2025Número de incêndios com causas apuradas

Evolução de área queimada por tipologia de causa, 2001–2025Área ardida em incêndios com causas apuradasFonte: Registos individuais de incêndios, ICNF

 

As atividades humanas continuam a ser o principal fator desencadeador dos incêndios rurais em Portugal e na generalidade dos países mediterrânicos. Entre as causas mais frequentes encontram-se:

  • Queimas e queimadas para eliminação de sobrantes agrícolas e florestais;
  • Renovação de pastagens por queimadas;
  • Utilização negligente do fogo no espaço rural;
  • Acidentes associados à utilização de maquinaria e equipamentos;
  • Atos intencionais de incendiarismo.

As queimas e queimadas resultam de tarefas tradicionais da agricultura, silvicultura e pastorícia que envolvem o fogo e que acabam por se descontrolar. Embora a legislação limite a época de realização de queimas e queimadas, o facto de serem práticas tradicionais contribui para que a lei seja frequentemente menosprezada. Esta é considerada a principal causa de incêndios relacionada com situações de negligência, sendo que parte das queimadas são feitas para renovação de pastagens.

Embora as causas associadas ao uso do fogo representem uma parte substancial das ignições, diversos estudos realizados em Portugal demonstram que os incêndios de origem intencional (incendiarismo) tendem a originar maiores áreas ardidas e incêndios com comportamento potencial mais severo. Esta relação resulta, entre outros fatores, da seleção deliberada de condições meteorológicas e locais favoráveis à propagação do fogo. Contudo, a severidade final de cada incêndio depende também das características dos combustíveis existentes, da topografia e das condições meteorológicas durante a ocorrência.

O aumento do número de ignições relacionadas com causas humanas (tanto devido a negligência, como de forma intencional) é um dos quatro fatores centrais que estão a aumentar o risco de incêndio em toda a zona mediterrânica da Europa, incluindo em Portugal. A redução destas causas humanas é considerada uma das medidas mais eficazes para diminuir o número de incêndios e a área ardida. A evidência científica tem demonstrado que a redução da severidade dos incêndios depende também da gestão eficaz da vegetação que serve de combustível ao fogo e da criação de paisagens mais diversificadas e resilientes aos incêndios.

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