Comentário

Teresa Carita

Pastagens permanentes biodiversas e multifuncionais: o valor do mundo vegetal

Promover a biodiversidade de espécies vegetais nas pastagens permanentes permite que estes ecossistemas se mantenham funcionais, ou melhor, multifuncionais. O pastoreio extensivo pode ajudar a aumentar esta diversidade e as sinergias que daqui resultam refletem-se em muitos outros benefícios, para além de uma melhor nutrição para o gado: abrigo e alimento para a fauna silvestre, proteção e fertilidade do solo, aumento das suas reservas de carbono e redução do risco de incêndio são alguns exemplos.

As pastagens permanentes são um sistema agrário que permite a produção de “erva”, ou seja, de alimentos principalmente direcionados às espécies ruminantes: bovinos, ovinos e caprinos. Parte significativa dos terrenos em Portugal não tem solos com qualidade, nem condições climáticas viáveis para outras culturas, mas permite o crescimento de pastagens que, nas regiões de clima mediterrânico, são maioritariamente de sequeiro – onde apenas a água da chuva apoia o crescimento das plantas.

Grande parte da superfície agrícola utilizada em Portugal é ocupada por pastagens permanentes, quer naturais, quer melhoradas pelos seus proprietários. Estes tipos de pastagens são constituídos por uma mistura de muitas espécies vegetais, principalmente gramíneas e leguminosas que, se bem geridas, mantêm a sua produtividade durante muitos anos. É esta grande diversidade de espécies vegetais que permite às pastagens permanentes serem ecossistemas funcionais.

Muitas destas espécies de plantas têm uma grande capacidade de adaptação para formar pastagens. Diz-se, por isso, que têm “aptidão pratense”. Desenvolveram mecanismos específicos de adaptação que contribuem para manter estes campos produtivos durante muitos anos, sem necessidade de realizar operações nestas culturas, para além da fertilização ou correção do solo, quando necessário. Entre estes mecanismos, refira-se, por exemplo, a elevada capacidade de produzirem muita quantidade de sementes e de as dispersarem de forma natural.

Nas pastagens naturais (onde não houve intervenção humana) a diversidade de espécies poderá ser maior do que nas pastagens semeadas, mas as primeiras são significativamente menos produtivas e têm menor valor nutricional.

Idealmente, a produção de ruminantes em pastagens permanentes deverá ser gerida de modo extensivo. Quer isto dizer que os animais deverão existir em número adequado à área que vão utilizar, para que consigam alimentar-se maioritariamente a partir das espécies presentes nestas pastagens, de algumas forragens produzidas de preferência na mesma exploração (erva cortada e conservada na forma de silagem, fenossilagem ou feno) e de coprodutos agrícolas pastoreáveis (que, não sendo o objetivo principal da exploração, têm valor e podem ser reutilizados).

Com uma abordagem sustentável de pastoreio extensivo é possível aumentar a diversidade das pastagens permanentes, quer na perspetiva dos diferentes tipos de espécies vegetais, quer na das várias espécies animais que ali encontram abrigo e alimento. Isto porque nestas paisagens podem coexistir áreas com árvores, arbustos e herbáceas, fornecendo múltiplos habitats e contribuindo para um ecossistema equilibrado que, embora se altere naturalmente, se mantém ao longo do tempo.

Teresa Carita, pastagens biodiversas

© Teresa Carita

Múltiplos benefícios das pastagens permanentes e do pastoreio extensivo

Para além de produzirem “erva” para os ruminantes, as pastagens permanentes podem proporcionar alimentos para diferentes tipos de aves, caça para inúmeros predadores, zonas de refúgio para insetos, pequenos mamíferos e aves, répteis ou anfíbios, assim como espaço para as sementes, assegurando uma regeneração adequada das espécies vegetais, que também fornecem sombra e conforto térmico aos diversos animais.

Além deste tipo de uso, o pastoreio extensivo ajuda a gerir e controlar a biomassa combustível existente em diferentes tipos de ecossistemas, transformando áreas abandonadas em pastagens, mantendo as florestas adequadas ao pastoreio e criando descontinuidades na paisagem, o que reduz o risco e a gravidade dos incêndios.

No solo, o pastoreio extensivo tem outro benefício importante: ajuda a conservar as espécies que se alimentam de fezes – os chamados animais coprófagos. Estes organismos têm um papel fundamental na decomposição e na reciclagem de nutrientes, contribuindo para a saúde e fertilidade do solo.

No Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 – estratégia portuguesa para alcançar um balanço neutro entre as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o sequestro de carbono até 2050 –, as pastagens permanentes biodiversas são destacadas como uma das principais soluções para um outro objetivo: reduzir as emissões de GEE no sector agrícola e florestal. O seu contributo é fundamental para o sequestro líquido de carbono: aumentam o armazenamento de carbono no solo e melhoram outros serviços do ecossistema que dependem dessa diversidade.

A boa gestão destas pastagens, ou dizendo de outra forma, o pastoreio adequado poderá promover o aumento da diversidade de espécies de plantas e manter uma boa cobertura vegetal do solo. Desta forma, contribui de uma forma “amiga do ambiente” para o aumento da eficiência das explorações agropecuárias ou agrossilvopastoris e para a adaptação às alterações climáticas.

Contrariar tendências, promover biodiversidade e resiliência das pastagens

Sabemos que a biodiversidade (variedade de espécies, genes e ecossistemas) é essencial para o equilíbrio dos ecossistemas e para a manutenção dos ciclos vitais que sustentam a vida na Terra. Regula processos naturais como os ciclos da água, carbono e azoto, garantindo serviços fundamentais — desde a formação do solo ao controlo de pragas, filtragem do ar e regulação do clima.

Além do valor ecológico, a biodiversidade é crucial para a economia, já que grande parte da produção global depende de recursos naturais, e até para a saúde humana, pois o uso de plantas medicinais, praticado desde a antiguidade, pode até ser considerado a origem da medicina moderna. E a diversidade de plantas é a base que sustenta a eficiência e a resiliência dos sistemas agrários, da produção agrícola sustentável e da segurança alimentar.

Apesar de todo este valor, a biodiversidade vegetal enfrenta um declínio acelerado num contexto global de extinções sem precedentes:

  • Estima-se que existam cerca de oito milhões de espécies de plantas e animais no planeta, mas até um milhão poderá desaparecer nas próximas décadas devido à perda de habitat, às alterações climáticas, à proliferação de espécies invasoras e à degradação dos ecossistemas.
  • Cerca de 25% das espécies avaliadas, incluindo plantas, encontram-se ameaçadas, e mais de 500 mil espécies terrestres – muitas delas vegetais – já não dispõem de habitat suficiente para garantir a sua sobrevivência a longo prazo se não beneficiarem de restauro ecológico.
  • Desde 1900, registou-se uma redução superior a 20% na abundância de espécies nativas, acompanhada por uma queda de cerca de 30% na integridade dos habitats terrestres, fatores que afetam diretamente a diversidade vegetal.

Reconhecendo o valor do mundo vegetal, o INIAV – Instituto de Inovação Agrária e Veterinária e mais precisamente o seu Polo de Inovação de Elvas integra, no seu plano de atividades re­gulares, o desenvolvimento de programas de melhoramento genético vegetal clássicos, dirigidos a espécies pratenses e/ou forrageiras. Em resultado, dispõe de variedades de leguminosas e gramíneas, muitas das quais usadas pelos agricultores em Portugal e noutros países da Europa e América do Sul.

Desta forma, o INIAV contribui para aumentar a diversidade, resiliência e funcionalidade das pastagens permanentes, minimizando os riscos associados a fatores tão diversos, como o aumento das espécies invasoras, as pressões humanas e as alterações climáticas.

Abril de 2026

O Autor

Doutorada em Ciências Agrárias pela Universidade da Extremadura, em Espanha (UEx), Teresa Carita é investigadora no Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. – Polo de Inovação de Elvas e integra o centro de investigação Green-it – Bioresources for Sustainability. O melhoramento genético de leguminosas pratenses e/ou forrageiras é o seu domínio de investigação principal.

Teresa Carita é ainda secretária-técnica da Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens (SPPF).

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