Comentário

Jorge Sousa

Criar condições para que a gestão aconteça

Ao longo dos anos e pelo contacto próximo com os proprietários, tornou-se evidente que para enfrentar muitos dos desafios da floresta de forma eficaz é indispensável cooperação, escala e capacidade de organização, algo particularmente importante num território marcado pelo minifúndio. Foi neste contexto que a Organização Florestal Atlantis promoveu o modelo de Unidades de Gestão Conjunta, criando condições para que a gestão aconteça e se mantenha.

A Organização Florestal Atlantis (OFA) nasceu em 2009, no Centro litoral, da convicção de que muitos dos desafios da floresta, num território fortemente marcado pelo minifúndio, só podem ser enfrentados de forma eficaz através da proximidade aos proprietários e de uma gestão mais organizada do território.

Por isso, desde a sua fundação, o foco nunca esteve apenas na prestação de serviços, mas sobretudo na criação de soluções que ajudem os proprietários a gerir continuamente a sua floresta e a valorizar o território onde vivem.

Desde o início, o objetivo foi claro: apoiar os proprietários florestais e contribuir para uma gestão mais organizada, eficiente e próxima da realidade do território, conciliando a produção florestal com a valorização de recursos fundamentais, como o solo e a água, através da promoção e aplicação de boas práticas de gestão florestal.

Uma realidade cada vez mais difícil para os proprietários

Como grande parte da floresta do centro de Portugal está dividida em pequenas parcelas, frequentemente dispersas e geridas de forma isolada, mesmo os proprietários mais empenhados enfrentam dificuldades em assegurar uma gestão regular e economicamente viável.

À medida que os custos aumentam e a gestão se torna mais exigente do ponto de vista técnico e administrativo, torna-se mais evidente que muitos dos problemas da floresta não resultam da falta de vontade dos proprietários, mas da dificuldade crescente em criar condições para que a gestão aconteça.

A floresta exige hoje uma gestão cada vez mais profissional e ativa. No entanto, a maior parte dos proprietários não vive da floresta nem dispõe das ferramentas necessárias para a acompanhar de forma contínua. Por outro lado, quando as operações têm de ser contratadas externamente, a reduzida dimensão das propriedades torna difícil gerar rendimento suficiente para compensar o investimento realizado.

Foi precisamente para responder a esta realidade que a OFA foi construindo a sua intervenção e desenvolvendo soluções que procuram ultrapassar alguns dos principais obstáculos à gestão florestal.

Criar condições para que a gestão aconteça

Mais do que prestar serviços, garantir continuidade

O contacto diário com os proprietários mostrou-nos que muitos dos desafios da floresta requerem cooperação, escala e capacidade de organização, algo particularmente importante nestes territórios de minifúndio.

Foi por isso que a OFA procurou assumir este papel de proximidade, apoiando os proprietários nas suas diversas atividades, desde o planeamento das intervenções e elaboração de projetos e candidaturas, até ao acompanhamento técnico, certificação da gestão florestal e execução dos trabalhos no terreno. O seu objetivo foi, por isso, criar condições para que a gestão aconteça de forma continuada, promovendo soluções que permitam enfrentar desafios comuns, valorizar os recursos florestais e reforçar a capacidade de gestão dos proprietários.

Ao mesmo tempo, desenvolveu e participou em diversos projetos financiados por fundos comunitários, tanto para valorização das propriedades dos seus associados e clientes, como enquanto parceira ou consultora de entidades públicas e privadas. Este trabalho permitiu captar investimento para o território, testar novas abordagens e apoiar a concretização de intervenções que, de outra forma, dificilmente avançariam.

A partilha de conhecimento, a sensibilização e o esclarecimento técnico assumiram igualmente um papel importante neste percurso, contribuindo para uma maior aproximação dos proprietários à gestão das suas áreas, ajudando-os a compreender melhor as opções de gestão disponíveis e a participar de forma mais informada nas decisões relacionadas com o seu património florestal.

Quando a escala passa a fazer parte da solução: Unidades de Gestão Conjunta

Contudo, à medida que a experiência se foi acumulando, tornou-se evidente que muitos dos constrangimentos da floresta não podiam ser resolvidos apenas através de apoio técnico ou financeiro. Continuava a existir um problema estrutural: a reduzida dimensão das propriedades e a dificuldade em criar escala suficiente para tornar a gestão mais eficiente.

Foi desta reflexão, construída a partir da experiência acumulada no terreno e do contacto permanente com os proprietários, que nasceu o projeto UGC – Unidades de Gestão Conjunta.

O conceito é simples: criar condições para que todos os proprietários possam enfrentar de forma facilitada, apoiada e em conjunto os desafios que dificilmente conseguiriam resolver de forma isolada, mantendo a titularidade das suas propriedades e beneficiando de uma gestão mais organizada, eficiente e sustentada.

Mais importante ainda é que o modelo procura manter os aderentes envolvidos. A adesão é voluntária e assenta numa participação ativa, permitindo que cada proprietário acompanhe e contribua para as decisões relacionadas com a gestão das suas áreas, apoiado por uma estrutura técnica que procura identificar as soluções mais adequadas para cada situação.

A ideia não é afastar os proprietários da gestão, mas criar condições para que possam continuar ligados às suas propriedades. Em alguns casos, o projeto assegura diretamente o acompanhamento e execução das intervenções. Noutros, os proprietários mantêm um papel mais ativo, beneficiando de apoio técnico e de modelos de gestão que permitem partilhar custos, otimizar recursos e reforçar a capacidade de intervenção.

Criar condições para que a gestão aconteça

Ao gerir em conjunto, torna-se possível planear melhor, reduzir custos, concentrar operações e criar condições para que a gestão seja economicamente viável. Aquilo que, muitas vezes, não é sustentável numa propriedade isolada passa a ser possível quando integrado numa área mais alargada.

Em 2026, a UGC envolve mais de uma centena de proprietários, cerca de 540 parcelas e uma área próxima dos 950 hectares.

Ao longo dos últimos anos, foram realizadas intervenções em centenas de hectares, incluindo plantações, controlo de espécies invasoras, podas, desbastes, seleção de varas e gestão de combustíveis. O projeto permitiu igualmente integrar cerca de 750 hectares em processos de certificação da gestão florestal, reforçando a adoção de boas práticas de gestão e a valorização dos produtos florestais.

Este modelo de Unidade de Gestão Conjunta foi distinguido com o Prémio Floresta é Sustentabilidade 2026, na categoria Economia e Sociedade. O reconhecimento foi recebido com orgulho e responsabilidade, mas é sobretudo entendido como um sinal de que é possível construir soluções ajustadas à realidade do minifúndio e dos territórios onde a gestão florestal enfrenta maiores dificuldades.

O desafio persiste: criar condições para que a gestão aconteça

Apesar dos progressos alcançados, continuamos a acreditar que o principal desafio da floresta portuguesa permanece o mesmo: criar condições para que a gestão aconteça de forma consistente ao longo do tempo.

No caso da OFA, esse caminho passa pela consolidação e expansão das Unidades de Gestão Conjunta, envolvendo mais proprietários, reforçando parcerias e alargando a intervenção a novas áreas e novos modelos de valorização da floresta.

Acreditamos que existe ainda potencial para aumentar a escala de gestão, melhorar a eficiência das intervenções, reduzir custos e criar condições para captar novos investimentos e mecanismos de apoio à gestão florestal. Ao mesmo tempo, importa mobilizar novos parceiros para a valorização dos recursos florestais e das áreas de conservação, através de instrumentos como a certificação da gestão florestal, o reconhecimento dos serviços dos ecossistemas e outras formas de remuneração associadas à gestão ativa e responsável do território.

A experiência adquirida ao longo dos últimos anos demonstra que projetos desta natureza exigem estabilidade, continuidade e capacidade de planeamento a longo prazo. Mobilizar proprietários, construir relações de confiança, implementar modelos de gestão conjunta e acompanhar os seus resultados são processos que requerem vários anos. E para que possam consolidar-se e ampliar o seu impacto, consideramos importante avançar na reflexão sobre a implementação de contratos-programa com as Organizações de Produtores Florestais, criando condições para uma intervenção mais estável, previsível e orientada para resultados de longo prazo.

A floresta precisa de investimento, conhecimento e inovação. Mas precisa, acima de tudo, de continuidade. Porque uma floresta bem gerida não se constrói num ano, nem num projeto. Constrói-se ao longo de décadas, através do trabalho persistente dos proprietários, dos técnicos, das empresas e de todas as entidades que contribuem diariamente para a valorização do território.

É neste caminho que a OFA continua a trabalhar, acreditando que os desafios da floresta se ultrapassam mais facilmente quando existe cooperação, proximidade e um compromisso partilhado com o território.

Porque juntos fazemos (a) floresta.

Julho de 2026

Consulte informação de apoio

A Organização Florestal Atlantis (OFA) é uma associação sem fins lucrativos, que assume a proximidade ao território como uma prioridade. Além da sede em Cantanhede, dispõe de três gabinetes descentralizados em Oliveira do Bairro, Mealhada e Montemor-o-Velho. Estas estruturas são complementadas por uma presença regular no terreno, que permite à OFA um apoio próximo e contínuo aos proprietários num território mais vasto, abrangendo também Figueira da Foz, Mira, Vagos e Anadia. Em paralelo, ao longo dos anos, a OFA tem promovido a ligação entre os diferentes intervenientes da fileira florestal, aproximando proprietários, indústria, centros de conhecimento e entidades públicas em torno de objetivos comuns para o território.

O Autor

Jorge Sousa é Coordenador Técnico da Organização Florestal Atlantis (OFA) desde abril de 2024. Licenciado em Engenharia dos Recursos Florestais pela Escola Superior Agrária de Coimbra, iniciou o seu percurso profissional na Fundação Mata do Buçaco, onde participou em projetos de conservação e valorização do património natural, com especial envolvimento no projeto BRIGHT LIFE+.

Integra a equipa da OFA desde 2016, onde tem desenvolvido atividade junto dos proprietários florestais e dos territórios marcados pelo minifúndio. Tem participado na conceção e implementação de diversos projetos orientados para a valorização da floresta privada, a transferência de conhecimento e o desenvolvimento de soluções colaborativas para o território, acompanhando, desde a sua génese, o projeto UGC – Unidades de Gestão Conjunta.

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