Comentário

Aida Melo

Uma sala de estudo ao ar livre, para absorver Vitamina N

Quando os dias se tornam maiores e as tardes são solarengas, a sala de estudo sai à rua e instala-se a mesa de bancos compridos à sombra da carvalheira grande. Alunos, alunas e professores sentam-se, contemplam as dimensões da copa, sentem a sua frescura na agitação da folhagem, admiram a verdura das bolotas e chegam a ouvir-se propostas de as colecionar… Logo que prontos os trabalhos de casa! – remata a professora.

Quando a sala de estudo se instala lá fora, tudo serve de inspiração. Os alunos apressam-se nas tarefas agendadas, emendam o que precisa de correção enquanto suspiram por uma volta no baloiço. Chega, por fim, o tão desejado momento: saltam dos lugares e correm para ver quem é o primeiro a ocupar o balancé, preso a um ramo que mais se assemelha a um tronco horizontal.

Os que esperam a vez colecionam bolotas e bugalhos, erguem o olhar tentador para avistar a coruja que habita o tronco da árvore, seguem os carreiros de formigas admirando a sua capacidade de transporte e correm ao redor do tronco que é, muito provavelmente, mais que tricentenário. Trocam-se os lugares e o entusiasmo cresce: há corridas, agora pelo pequeno bosque, em busca de árvores semelhantes. Apreciam-se aromas, observam-se os recortes e as cores das folhas, conferem-se nomes: científicos e populares. Uma vez descoberta, a amoreira cativa todos os interesses pelo seu saboroso fruto.

Já cansadas, as crianças sentam-se no chão, rindo e sonhando. Regressam, depois, para junto do seu gigante verde preferido e reproduzem, em desenho, os pequenos tesouros que recolheram, tanto folhas como frutos. E, quando os pais as vêm buscar, há uma ladainha interminável que entrelaça histórias com as pequenas aventuras vividas.

Nem sempre podemos fazer aulas assim, ao ar livre. Tanto nos limita o tempo atmosférico como os tempos de preparação que requerem provas e exames. E, pois claro, não deixa de ser uma dinâmica com maior dose de incerteza que até se pode gerir bem no pequeno grupo, mas nem sempre tão bem quando os alunos estão em maior número. Ainda assim, tenho para mim que não há aula mais interdisciplinar, mais interativa, mais facilitadora de aprendizagens do que a que se faz neste contacto com a natureza.

Há anos ouvi, com surpresa, dizer a uma criança que morava num ambiente rural que o melhor lugar para recolher informação sobre árvores seria… a internet?! Há informação em linha, com certeza; alguma mais concisa, outra menos correta… nem sempre passível de rápida distinção acertada. Mas: e os aromas, o bailado das folhas, a frescura que nos delicia o rosto?! A própria observação que é o princípio de toda a Ciência?

Uma sala de estudo na Natureza, rica em Vitamina N

ⓒ Aida Melo

Uma sala de estudo na natureza aumenta a Vitamina N

Percebida esta quebra entre os jovens e a natureza, a minha resolução tornou-se a de proporcionar aos alunos e alunas experiências imersivas no mundo natural: estudar debaixo duma árvore, interagir com animais, realizar caminhadas, recolher flores ou frutos, identificar árvores, apreciar os elementos e ficar grato por isso.

Em pesquisa posterior, vim a saber que existe mesmo um movimento global, o Dia de Aulas ao Ar Livre, que se assinala em duas datas específicas (em maio e novembro) definidas anualmente: o próximo a 5 de novembro de 2026 e o seguinte a 20 de maio de 2027. A efeméride pretende “que o contacto com o ar livre seja uma realidade diária na vida das crianças” e propõe aos professores e educadores que, especialmente nestes dias, proporcionem aos alunos tempo ao ar livre para aprender e brincar.

A relevância de tal opção é corroborada pela investigação recente que liga a saúde mental, física e espiritual ao contacto com a natureza.

Apelidada de Vitamina N, é essencial, a par da boa nutrição e do sono adequado, para a terapia de défices de atenção e outras patologias. Quem o diz é Richard Louv, jornalista e investigador que, no seu mais recente livro Noticing: intimate encounters with the natural World (2026), afirma que “o futuro será […] daqueles que desenvolverem uma compreensão profunda do poder de transformação do mundo natural e que equilibrarem o virtual com o real. Quanto mais elevada a tecnologia, de mais natureza necessitamos”.

Já em trabalhos anteriores, Louv afirmara ser o contacto com a natureza essencial ao desenvolvimento saudável, tanto de crianças como de adultos e, ainda, que a sua ausência teria consequências nefastas para o meio ambiente, a sociedade e o indivíduo aos níveis psicológico e espiritual: “como os jovens passam cada vez menos tempo das suas vidas em ambientes naturais, os seus sentidos mirram, quer fisiologicamente, quer psicologicamente, o que reduz a riqueza da experiência humana”, lê-se em Last Child in the Woods (2005).

É evidente o benefício de dispor de uma sala confortável, coberta e calafetada para ler ou estudar; particularmente nos dias invernosos que, por vezes, temos. Mas a proximidade à natureza favorece uma conexão que é essencial a uma experiência humana completa, pois eleva o potencial dos nossos sentidos.

Num ambiente natural, escutamos, observamos e interagimos com seres vivos de espécies diferentes, conectando com ecossistemas de que fazemos parte. Ao mesmo tempo, tiramos inúmeras lições do seus ritmos e da forma como se organizam e se otimizam. Quem tem esta ligação com a natureza afirma sonhar, por diversas vezes, com passeios pelos bosques visitados, sentindo-se imerso neles. Este contacto gera a possibilidade de uma autêntica criação de laços de afeto, fazendo-nos querer o bem desse mundo que espera a nossa proteção e cuidado. E existe, neste contexto, toda uma imprevisibilidade que facilita a abertura da nossa mente a outras possibilidades de compreensão do real.

Sempre que coloco a sala de estudo ao pé da árvore recordo uma história que me foi contada no início deste século: num lugar remoto da África lusófona, uma jovem professora ensinava a ler tendo por sala de aula a sombra de uma mangueira. À falta de outros recursos, utilizava um antigo manual de língua portuguesa, destinado ao primeiro ano de escolaridade e oriundo da Pátria-mãe. Para se fazer entender, evidenciava com os braços a frondosa copa, carregada de mangas por sinal, enquanto dizia, pausadamente, “Aaa… de árvore. Agora vocês: Aaa… de árvore”. O silêncio reinante deixava desconcertada a professora, até que um aluno, mais afoito, comentou: “É pé di mango, professora”!

Outubro de 2026

O Autor

Aida Melo é licenciada em Economia pela Universidade Portucalense (1998) e Mestre em Ciências Religiosas pela Universidade Católica (2013). Desde 2007 que leciona no Ensino Público – Educação Moral e Religiosa Católica, Matemática/Ciências e Economia – e é cofundadora da sala de estudo Pedra Formosa (2014) na qual se conjuga o sucesso escolar com a ligação à natureza. Paralelamente, lidera um projeto de quinta pedagógica que trará a representação teatral dos contos tradicionais, numa modalidade imersiva, para o seu cenário mais comum que são os bosques.

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