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A erosão do solo e a forma de a minorar, por Maria José Roxo

A erosão leva à desertificação. Esta é esta a mais trágica consequência da má utilização dos recursos solo, água e coberto vegetal, sublinha Maria José Roxo, recordando que a melhor defesa contra a erosão não é reparar os danos, mas gerir o território de forma que o solo nunca perca a sua capacidade de sustentar ecossistemas saudáveis.

Recurso essencial ao funcionamento dos ecossistemas e principal fator da produção de alimentos, o solo é a camada superficial da Terra, composta por organismos, minerais, matéria orgânica, ar e água. A sua formação depende do tipo de rocha original, dos organismos presentes, da topografia e do clima, mas sobretudo da passagem do tempo. O tempo necessário para formar novo solo ou recuperar um solo degradado é tão longo que este recurso é considerado “não renovável”.  

Em contrapartida, a destruição do solo é muito mais rápida, e também mais fácil de acontecer, comprometendo a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental, social e económica.  

“A erosão leva à desertificação e desertificação não é despovoamento. É uma trágica consequência de utilizarmos mal os recursos solo, água e coberto vegetal”, sublinha Maria José Roxo, que adverte: a perda de solo conduz a ecossistemas menos produtivos, menos segurança alimentar e hídrica e maior vulnerabilidade das populações. Reforça ainda o papel do solo como importante reservatório de carbono: “não ter solo é não poder sequestrar carbono”, ajudando aos efeitos das alterações climáticas.

Considerando o que sabemos sobre a erosão e o impacte que as atividades humanas têm na perda e degradação do solo, importa, sobretudo, atuar para a evitar. 

Erosão hídrica: influência natural e humana 

A água das chuvas é uma das principais causas da erosão do solo. Embora este fenómeno dependa, em grande parte, de fatores naturais, os seus efeitos podem ser significativamente minorados ou agravados pela atividade humana. 

A erosão hídrica resulta de um conjunto de ações sequenciais que conduzem à degradação e destruição do solo. Primeiro, a chuva provoca a desagregação das partículas do solo; depois, a água que escorre à superfície transporta-as ao longo das encostas; finalmente, à medida que a água perde força para as transportar, ocorre a deposição de sedimentos. Em grandes chuvadas, estes sedimentos são, muitas vezes, arrastados até aos cursos de água. 

As gotas da chuva e a escorrência das águas pelas vertentes são os principais agentes da erosão. A intensidade deste processo depende, sobretudo, da relação e interação entre dois fatores: 

  • A erosividade, que decorre das características da precipitação e da escorrência. No primeiro caso, depende da dimensão das gotas de chuva e da velocidade, intensidade, ângulo e direção com que chegam ao solo, bem como frequência e duração da precipitação. No segundo, está relacionada com o caudal, a profundidade e velocidade do fluxo, a frequência e a duração do escorrimento superficial e o seu teor em sedimentos. 
  • A erodibilidade, que corresponde à sensibilidade do solo à erosão e que depende das propriedades do solo e da topografia – tamanho das partículas, estabilidade dos agregados e capacidade de infiltração do solo –, mas também das condições da superfície, da vegetação existente e das práticas de uso e gestão do solo, que são, em muito, determinadas pela ação humana. 
Rocha à superfície: sintoma da erosão do solo

O grau de cobertura do solo pela vegetação, o tipo de vegetação e a proteção que ela confere ao solo, o tipo de mobilização do solo, as diferentes culturas instaladas e as práticas agrícolas ou silvícolas – desde o uso permanente ao pousio e das culturas extensivas às intensivas – são exemplos dos fatores influenciados pela ação humana. Outros estão relacionados com o sobrepastoreio, a destruição de matos, os incêndios e a desflorestação. 

Quando ocorre perda de solo podemos ver, por exemplo, sulcos mais ou menos vincados, fragmentos rochosos a surgir à superfície e manchas mais claras nas zonas de solos avermelhados. Estes sinais indicam que as partículas finas do solo se perderam e a matéria-orgânica foi arrastada. O resultado é a perda da camada mais produtiva do solo. 

Como prevenir a perda de solo que leva à desertificação? 

Num mesmo evento de pluviosidade, uma zona coberta por vegetação natural pode perder 186 quilogramas de solo por hectare, enquanto um campo integralmente lavrado pode perder 12 mil quilogramas por hectare. Se utilizarmos curvas de nível (transversais ao declive que funcionam como barreiras, travando a força da enxurrada e promovendo a infiltração), a perda poderá ser de menos de metade, revela Maria José Roxo, com base em dados do Centro Experimental de Erosão de Solos de Vale Formoso, em Mértola.

Maria José Roxo, responsável científica deste Centro Experimental, sublinha a importância de conhecer estes dados, que permitem identificar “as melhores técnicas para podermos conservar o solo (e também a água)”. Entre elas, destaca: 

  • Diminuir as mobilizações do solo, sobretudo nos períodos húmidos. 
  • Lavrar segundo as curvas de nível. 
  • Evitar lavouras profundas e gradagens desnecessárias, que destroem a manta morta. 
  • Preservar a manta morta, com os resíduos das culturas, incluindo das culturas florestais, para que o solo tenha sempre a sua proteção natural. 
  • Preservar o coberto vegetal de matos e sub-bosque, gerindo esta vegetação para equilibrar cobertura do solo e risco de incêndio. 
  • Aumentar o teor do solo em matéria orgânica 
  • Diversificar culturas. 
  • Diminuir a utilização de agroquímicos, contribuindo para manter a saúde dos solos. 
  • Utilizar espécies bem-adaptadas às condições do solo e do clima. 
  • Favorecer a infiltração da água no solo. 
  • Reduzir a velocidade de escorrência superficial das águas, com a construção de pequenas estruturas de retenção. 
Barreiras à escorrência da água reduzem erosão
Minorar o solo arrastado pelas enxurradas

“As duas principais leis para a proteção e conservação do solo são manter o solo protegido com coberto vegetal e aumentar a sua matéria orgânica”, salienta Maria José Roxo, explicando que, com estas medidas e com as curvas de nível, aumenta a capacidade de infiltração da água e reduz-se a água que irá movimentar-se e escorrer pelas vertentes. “Estaremos também a promover o armazenamento de água subterrânea, o que reforça a nossa resiliência em relação às secas”, acrescenta. 

A melhor defesa contra a erosão dos solos é gerir o território de forma que ele não perca a sua capacidade de sustentar os ecossistemas saudáveis de que todos precisamos, conclui, deixando para reflexão uma frase do antigo Presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, com a qual se identifica: “A nação que destrói os seus solos, destrói-se ela própria”. 

Sobre o Formador

Maria José Roxo é Professora Catedrática (aposentada) do Departamento de Geografia e Planeamento Regional, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. É Investigadora integrada no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais – CICS NOVA e é também a responsável científica do Centro Experimental de Erosão de Solos de Vale Formoso, uma infraestrutura dedicada ao estudo da degradação dos solos no clima mediterrânico. 

É membro da Comissão Nacional de Combate à Desertificação, da Academia das Ciências de Lisboa e da Comissão Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. 

Ao longo do seu percurso coordenou e integrou vários projetos nacionais e internacionais, sobre temáticas relacionadas com a desertificação, as mudanças climáticas e as catástrofes naturais. Foi reconhecida com o prémio das Nações Unidas “Dryland Champions”- UNCCD, 2013.