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Água

Florestas regulam a (re)circulação de água doce

A água doce corresponde a uma ínfima fração da água do planeta e a sua disponibilidade e qualidade são influenciadas por múltiplos e complexos fatores, entre os quais a existência de florestas. Conheça o papel regulador das florestas na qualidade e disponibilidade deste recurso natural essencial à vida.

Embora a água seja o líquido mais abundante na Terra, apenas uma pequena parte está disponível para ser utilizada. Se descontarmos a água que está quimicamente ligada à crosta terrestre, a água salgada, a água retida em glaciares, a neve permanente e a água que se encontra em reservas subterrâneas de difícil acesso, resta para consumo a água doce que se encontra em lagos, rios, na atmosfera e no solo.

A água cobre cerca de 71% da superfície do planeta e a sua quantidade está estimada em 1600 milhões de km3. No entanto, cerca de 97% desta água é salgada e apenas 3% corresponde ao que chamamos de água doce. Mas mesmo esta pequena parte não está, na sua maioria, acessível: 77% está retida nas zonas polares e cerca de 22% armazenada em áreas subterrâneas, algumas a grande profundidade. A quantidade de água doce que está disponível à superfície – em ribeiras, rios, lagoas, na atmosfera e no solo – é uma ínfima parte: cerca de 0,3% de toda a água.

À escala do planeta, a quantidade de água doce é constante. Isto significa que a mesma água percorre uma sequência de etapas, num fluxo circular e contínuo entre três grandes subsistemas: os mares e oceanos, a superfície terrestre e a atmosfera. Este sistema fechado, no qual a água pode surgir em estado líquido, sólido ou gasoso, é o que se chama o ciclo da água ou o ciclo hidrológico. Estes fluxos do ciclo da água permitem a vida nas diferentes regiões do planeta e alguns deles estão relacionados com a presença das florestas. Mas quais são, então, os contributos concretos das florestas para a regulação da qualidade e disponibilidade de água doce no planeta?

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As árvores transportam água doce do solo para a atmosfera

Quando existem árvores, parte da água da chuva e do nevoeiro é intercetada pelas copas, ficando aí retida e sendo depois devolvida à atmosfera por evaporação. A água que chega ao solo (diretamente ou através do gotejamento de folhas e ramos e escorrimento pelos troncos) pode acumular-se e evaporar, escorrer superficialmente, encaminhando-se para cursos de água, ou infiltrar-se no solo.

Parte desta água que se infiltra vai ser absorvida pelas raízes e transportada ao longo do sistema vascular das plantas até às folhas, onde vai ser transpirada de volta à atmosfera sob a forma de vapor. A água que é transpirada, juntamente com a que se evapora a partir de superfícies de água (rios, lagos, pântanos e semelhantes, assim como gelo e neve), vegetação (a água que é intercetada pelas folhas) e solo constitui a evapotranspiração.

Ciclo da Água

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A transpiração das plantas é um mecanismo biológico, em que estas absorvem do solo uma quantidade de água muito maior do que aquela que usam para fazer a fotossíntese, devolvendo a maioria à atmosfera através das suas folhas. A quantidade de água que as plantas terrestres movimentam desde o solo para a atmosfera é cerca de mil vezes superior à que absorvem. É assim, com o seu crescimento, que as florestas regulam a (re)circulação de água doce no planeta, repartindo a sua quantidade no solo e atmosfera e beneficiando a sua qualidade.

Por sua vez, o solo da floresta beneficia da presença de vegetação de várias formas. As raízes de plantas e árvores ajudam a sustentá-lo e a acumulação de folhas, galhos e outros materiais vegetais, que se vão decompondo e integrando na terra, criam uma matriz que facilita a infiltração e retenção da água da chuva. Como vimos, a que é retida pelas plantas retorna, na maioria, à atmosfera; a que se infiltra, grande parte em profundidade, chega aos lençóis freáticos e aos reservatórios de água subterrâneos. E assim, evita-se também que demasiada quantidade de água escorra superficialmente.

Embora seja essencial à fotossíntese, apenas uma fração da água absorvida pelas plantas é incorporada na sua biomassa. A maior parte retorna à atmosfera sob a forma de vapor através da transpiração, alimentando e perpetuando o ciclo hidrológico. A transpiração das plantas representa entre 80% e 90% da evapotranspiração terrestre e estima-se que recicle entre 54 mil e 70 mil quilómetros cúbicos (km3) de água por ano para a atmosfera. Considerando que o Mediterrâneo tem cerca de 4390 mil km3 de água, esta reciclagem da água é um dos importantes serviços de ecossistema da vegetação.

Florestas promovem a filtração e purificação da água doce

A absorção e subsequente transpiração da água pelas árvores permitem a sua purificação. Captada pelas raízes, a água chega até à copa através do xilema, um sistema de vasos (semelhante aos vasos sanguíneos dos animais) revestidos por tecido poroso. Estes poros de escala nanométrica permitem a passagem da água e da seiva, mas não a de moléculas de maior dimensão. Isto significa que as moléculas de água atravessam o xilema, enquanto poluentes como bactérias (como a E. coli, por exemplo), contaminantes como metais pesados ou nutrientes em excesso ficam retidos. Neste processo, a água devolvida à atmosfera fica liberta da maioria das partículas contaminantes (que se lhe haviam juntado durante a formação das nuvens e a queda da chuva). O xilema atua, assim, como um filtro purificador natural de água;

A presença de matéria orgânica melhora a infiltração de água no solo e depois nas suas camadas mais profundas. Neste percurso, a água também é filtrada, primeiro pelo próprio solo e depois pelas várias rochas por onde vai passando. Este processo permite remover resíduos e partículas de maior dimensão, assim como alguns químicos e minerais. Isto não significa, no entanto, que toda a água subterrânea seja potável, pois pode conter partículas minúsculas que não foram filtradas ou que entraram diretamente nos lençóis de água – químicos aplicados na agricultura ou vazamento de fossas sépticas, por exemplo.

– Ao reduzirem a quantidade e velocidade com que a água da chuva chega ao solo – através da interceção feita pelas copas -, as florestas diminuem a acumulação de água superficial e a sua escorrência. Por minimizarem a probabilidade das águas da chuva se transformarem em torrentes que se precipitam para rios ou lagos, previnem que, com elas, sejam arrastados sedimentos, poluentes e resíduos como pesticidas ou herbicidas que contaminam estes cursos de água. Em ambiente urbano, estes resíduos incluem ainda outros poluentes, como o petróleo acumulado nas estradas e os resíduos domésticos que, ao entrarem no sistema de esgotos pluviais (não tratados), vão desembocar nos mesmos rios e lagos onde pescamos, nadamos e de onde é captada a água que (depois de tratada) corre nas nossas torneiras.

A terra, sedimentos, poluentes e objetos (lixo) arrastados pela água da chuva para rios e lagos têm impactes críticos para a qualidade da água e para a vida nestes habitats. Por exemplo, filtros de cigarros e sacos de plástico ferem e sufocam peixes, anfíbios e aves; as bactérias e poluentes causam doenças a animais e plantas; os sedimentos turvam as águas, dificultando o crescimento das plantas aquáticas, e preenchem pequenos espaços (junto a rochas, por exemplo) onde vivem organismos aquáticos que constituem a base da cadeia alimentar; o excesso de nutrientes pode causar a multiplicação de algas, cuja decomposição diminui o oxigénio presente na água.

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Florestas redistribuem a água doce entre o solo e a atmosfera

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– A floresta contribui significativamente para a já referida evapotranspiração, que influencia a formação das nuvens e os padrões de precipitação a nível global ao mesmo tempo que contribui para a humidade do ar e arrefecimento da atmosfera a nível local. Este contributo da evapotranspiração é, por isso, determinante para a disponibilidade de água a nível local, mas também a nível global.

As florestas mantêm a sua transpiração ao longo do ano, ou seja, devolvem água à atmosfera mesmo depois de terminada a época das chuvas. Embora a humidade devolvida se altere em função de variados fatores (taxa de crescimento, temperatura, humidade do ar e do solo e disponibilidade de água, entre outros fatores), estima-se que, em média, um carvalho adulto de grandes dimensões possa transpirar 151 mil litros de água por ano, ou seja, cerca 414 litros de água por dia. Contudo, estes valores são muito variáveis, não só ao longo do ano (as plantas regulam o consumo de água de acordo com a sua disponibilidade), mas também de ano para ano, com valores de transpiração menores em anos de seca.

– Ao promoverem a infiltração da água para as camadas profundas, as florestas ajudam a manter reservas de águas subterrâneas, que são especialmente importantes em períodos de seca. São estas reservas que vão alimentar as nascentes de rios e lagos com água, entretanto, filtrada, e manter os fluxos que alimentam os seus caudais à superfície.

Contributos adicionais para a qualidade do solo e do ar

A par destes contributos, a relação entre floresta e água gera outros benefícios ambientais e socioeconómicos importantes.

Ao diminuírem a quantidade de água que cai na superfície do solo, as árvores permitem que o solo possa acomodar a água das chuvas seguintes (até ao limite do nível de saturação do solo), reduzindo-se a probabilidade e intensidade de cheias e enxurradas. Quando estes fenómenos ocorrem, as terras e sedimentos são arrastados até aos cursos de água – ribeiras, rios, lagos – e acabam por se acumular nos seus leitos. Para além de arrastar poluição, esta acumulação impede a água de seguir o seu curso e contribuiu para a inundação das margens e terrenos circundantes (principalmente preocupantes em zonas planas). A acumulação de materiais arrastados causa o assoreamento dos cursos de água, com consequências que podem ir desde a impossibilidade de navegação de um rio à perda de habitats;

As raízes das plantas e árvores ajudam a suster o solo, reduzindo a erosão, o que durante períodos de chuvas mais intensas, diminui a probabilidade de aluimentos, deslizamentos ou derrocadas. Esta ação é particularmente importante em zonas de grandes declives, onde a movimentação das lamas pode ter efeitos arrasadores, levando consigo ou cobrindo aldeias e vilas;

A floresta também beneficia a fertilidade do solo, pois ao impedir o arrastamento das terras e sedimentos, evita que os nutrientes presentes no solo e na manta morta sejam transportados. Estes nutrientes – que incluem compostos ricos em azotos e fosfatos – são essenciais à fertilidade das terras e ao alimento das mais diversas espécies, incluindo as florestais.

Finalmente, as áreas florestadas não só diminuem a temperatura do ar através da sombra e evapotranspiração, mas contribuem também para a qualidade do ar. As árvores libertam oxigénio e fixam dióxido de carbono, as suas folhas funcionam como barreiras para poeiras e outras partículas que circulam no ar e causam problemas respiratórios. Isto além de absorverem gases poluentes através dos poros das folhas (os estomas).

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As florestas influenciam a quantidade de água disponível para o abastecimento do solo, dos lençóis de água subterrâneos e das linhas água. As áreas florestais sob gestão ativa e sustentável são uma peça chave na melhoria da qualidade da água e no aumento da segurança hidrológica, assim como na diminuição da erosão, especialmente quando ocorrem fenómenos de precipitação extrema. Apoiada por uma extensão de floresta que cobre cerca de um terço da superfície terrestre, a (re)circulação da água é, neste sentido, um dos serviços do ecossistema mais importantes que a floresta proporciona.

Gestão dos recursos hídricos implica visão transversal

A forma como é ocupado o solo tem impacte na disponibilidade de água doce e embora a dimensão deste impacte varie em função de inúmeras variáveis, algumas delas estão diretamente relacionadas com a ação humana. É este o caso do ordenamento do território, do planeamento urbanístico, da gestão florestal e da gestão dos próprios recursos hídricos.

Como aponta o artigo “Sustentabilidade ecológica na gestão de recursos hídricos”, é necessária uma visão que permita equilibrar a gestão dos recursos hídricos, considerando as suas diferentes funções de provisão, regulação, suporte, culturais e sociais, especialmente num contexto de pressões crescentes:

– A procura de água doce para consumo humano e para produção agrícola e industrial (exemplos de consumo indireto) tem vindo a aumentar, impulsionada pelo crescimento da população;

– A conversão de áreas naturais e seminaturais, incluindo florestais, em áreas agrícolas e urbanas continua;

– A perda e degradação de ecossistemas e de biodiversidade criam desequilíbrios que afetam os recursos hídricos;

– Os efeitos das alterações climáticas intensificam-se, com mais e mais gravosos fenómenos meteorológicos extremos, desde secas prolongadas a tempestades e chuvas torrenciais.

“A gestão sustentável dos recursos hídricos tornou-se um dos principais problemas ambientais do século XXI, não só à escala de cada sociedade, mas também global. A natureza transversal do recurso (…) torna-o essencial para praticamente todas as atividades humanas e particularmente importante para a saúde pública e para o desenvolvimento social. As alterações climáticas vêm trazer ainda maior acuidade aos problemas da água, acentuando os desequilíbrios já precários entre disponibilidades e necessidades em muitas regiões do mundo e modificando, de forma em alguns casos irreversível, os ecossistemas hídricos”, sublinhou Francisco Nunes Correia, nas conclusões do artigo “Gestão da Água e Governança – um desafio para o século XXI”.