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Luís Pereira

Da floresta ao sensor: novas funções do papel

O papel continua a ser central na escrita e na aprendizagem, mas esta visão já não é suficiente para o descrever como um material capaz de detetar, comunicar, conduzir, isolar, reagir… Além de ampliar as funções do papel, a inovação que desenvolvemos está a posicionar este material vindo da floresta como protagonista de uma inovação que responde a desafios concretos da sustentabilidade.

O papel pode ser hoje utilizado para detetar uma bactéria numa embalagem de alimentos frescos, comunicar sem qualquer chip eletrónico ou substituir uma esponja de plástico no interior de uma caixa de transporte. Estas não são experiências distantes num laboratório remoto: são produtos (ou soluções/tecnologias) desenvolvidos em Portugal, a partir de fibras de celulose provenientes da nossa floresta.

Na AlmaScience – laboratório colaborativo (CoLAB) dedicado a materiais funcionais à base de celulose e à eletrónica verde – trabalhamos todos os dias para expandir as utilizações da celulose e do papel. A nossa convicção é simples: a floresta não é apenas a origem do papel que conhecemos. É, cada vez mais, a origem de uma nova geração de materiais que vai responder a desafios concretos da próxima década, da segurança alimentar à descarbonização da indústria, passando pela substituição progressiva de plásticos de uso único.

O papel como matéria-prima do futuro

A celulose tem uma combinação de propriedades difícil de igualar: é abundante, renovável, biodegradável, leve e versátil. Em Portugal, soma-se a estas qualidades um fator decisivo: temos uma fileira florestal e papeleira madura, com conhecimento acumulado, infraestrutura industrial instalada e uma cadeia de valor que vai do viveiro à bobine de papel acabada.

Da floresta ao sensor: novas funções do papel

PapeRF, © AlmaScience

O que propomos, na AlmaScience, é dar o passo seguinte. Tradicionalmente, as funções do papel eram passivas: um suporte para escrever, embalar, proteger. A investigação que desenvolvemos transforma essa fibra num material ativo, capaz de detetar, comunicar, conduzir, isolar, reagir. Um papel que, sem deixar de ser papel, ganha novas funções, até agora reservadas a materiais sintéticos, frequentemente derivados do petróleo e de difícil reciclagem.

Da floresta à inovação: quatro novas funções do papel

O melhor modo de tornar esta inovação concreta é mostrar o que já existe.

  • A PaperWeight AI, primeiro spin-off da AlmaScience e primeiro spin-off de um CoLAB em Portugal, desenvolveu um sensor em papel que se coloca discretamente nas prateleiras em ambiente de retalho. Mede a presença e o movimento dos produtos em tempo real, dando aos retalhistas e às marcas uma visão até hoje inexistente sobre o que se passa entre o cliente e a prateleira – tudo isto a partir de um substrato de à base de celulose.
  • A PetriTag® é uma etiqueta de papel biodegradável que muda de cor na presença de bactérias. Aplicada a uma embalagem de alimentos frescos, permite ao distribuidor e ao consumidor saberem, de imediato, se o alimento se mantém seguro – sem eletrónica, sem apps, sem energia. É uma resposta direta ao desperdício alimentar e à segurança do consumidor.
PetriTag®

PetriTag®, © AlmaScience

  • A PapeRF é a nossa proposta para o universo das etiquetas de identificação por radiofrequência (RFID). São etiquetas impressas, sem o tradicional chip de silício, que se podem integrar diretamente em embalagens de cartão e papel. Esta é mais uma das novas funções do papel para uma logística mais inteligente, com menos plástico e menos “lixo eletrónico”.
  • A AERA segue uma outra abordagem: é uma espuma de fibras de celulose, leve e estruturalmente eficaz, pensada para substituir espumas de origem fóssil em embalagem e proteção. Sendo composta por materiais de origem natural, é reciclável e até biodegradável – uma virtude rara no mundo dos materiais compósitos.

Quatro inovações diferentes, quatro aplicações distintas. Mas todas partilham a mesma origem: a fibra de celulose que vem da floresta.

“Vida Útil Apropriada”: uma forma diferente de pensar os materiais

Há um conceito que orienta boa parte do que fazemos e que vale a pena partilhar com os leitores: o de “Vida Útil Apropriada. A ideia é que cada material deve durar exatamente o tempo necessário ao desempenho da sua função – nem mais, nem menos. E que, terminado esse tempo, deve poder regressar à natureza ou ao circuito produtivo sem deixar passivo ambiental.

Para quem cuida da floresta, este princípio tem leitura imediata. Valorizar a fibra de celulose significa também desenhá-la para um ciclo coerente: uma etiqueta de embalagem alimentar não precisa de durar décadas; um componente estrutural sim. Materiais à base de celulose permitem ajustar essa durabilidade com uma flexibilidade que poucos outros oferecem. E aliviam a pressão sobre recursos não renováveis, ao mesmo tempo que devolvem valor à fileira florestal.

A floresta é também um recurso tecnológico

A leitura que fazemos é a seguinte: a floresta portuguesa e a indústria que se desenvolve a partir dela são um recurso estratégico para a soberania europeia em materiais e tecnologia – não apenas em pasta e papel. À medida que a Europa procura reduzir a sua dependência de matérias-primas críticas e descarbonizar a sua economia, a celulose ganha um peso novo. Não substitui tudo, mas substitui muito mais do que se imagina.

O nosso trabalho, na AlmaScience, é fazer a ponte entre a investigação académica e a aplicação industrial – e fazê-lo em conjunto com associados da fileira, como a The Navigator Company, com quem partilhamos a convicção de que o papel tem ainda uma longa história pela frente.

O futuro do papel está a ser escrito agora. Gostaríamos de o escrever em conjunto com a fileira da floresta.

Julho de 2026

O Autor

Luís Pereira é o Diretor Técnico da AlmaScience, CoLAB dedicado a materiais funcionais à base de celulose e eletrónica verde. Tem dedicado o seu percurso a transformar a celulose num material ativo, capaz de detetar, comunicar e proteger, e a aproximar a investigação científica das necessidades reais da indústria.

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