Comentário

Carlos Duarte

Parques públicos de madeiras: um seguro de vida para o sector florestal

A depressão Kristin fustigou territórios que já apresentavam elevada fragilidade estrutural. Os danos em habitações, infraestruturas de comunicações e redes elétricas são preocupantes, mas a destruição do tecido económico florestal é um dano de longo prazo que pode ser irreversível se não agirmos com celeridade e visão estratégica. Subitamente temos um mercado inundado de madeira, que colapsa sob o peso da própria oferta. Os parques públicos de madeiras fazem parte da solução.

No sector florestal português, a depressão Kristin confronta-nos com uma abundância súbita e catastrófica de recursos lenhosos que, se não for gerida com pinças regulatórias e visão de Estado, ameaça colapsar o mercado, destruir o rendimento dos produtores florestais e hipotecar a resiliência do território face ao risco de incêndios. 

O cenário que encontramos, particularmente nas regiões Coimbra, Leiria e Santarém, após um mês da depressão Kristin é constrangedor. Milhões de árvores derrubadas representam não só um prejuízo imediato para os proprietários, mas uma ameaça latente à segurança do país. 

A estabilidade de uma árvore depende do equilíbrio entre forças aerodinâmicas (rajadas, turbulência, efeito “vela” da copa) e resistências estruturais (madeira, arquitetura do fuste) e do solo (coesão, drenagem, profundidade efetiva). Quando o solo perde resistência por excesso de água, o sistema radicular “segura” menos e o risco sobe. 

Mas há mais fatores técnicos que amplificam o problema: exposição do povoamento, idade, densidade, histórico de intervenções (desbastes, cortes seletivos), heterogeneidade de espécies e qualidade/ continuidade das faixas de gestão. Tudo isto influencia a vulnerabilidade. Ou seja: o fenómeno é meteorológico, mas o dano final é também resultado de decisões (ou ausência delas) na gestão do território. 

A tempestade não termina com o vento porque o que fica no terreno desencadeia uma cadeia de impactos: 

  • Perda de valor e degradação da madeira 

Madeira derrubada é madeira em contagem decrescente. A exposição ao solo húmido, a fissuração por impacto, o aumento de humidade e a colonização por fungos e insetos conduzem rapidamente à desclassificação da madeira de serração para madeira de menor valor e, depois, para material sem mercado. O tempo de resposta é crítico: a cada semana sem extração e armazenamento adequados, o risco de perda de valor aumenta. 

  • Risco sanitário 

Material lenhoso no chão cria condições favoráveis à instalação e multiplicação de agentes bióticos. Mesmo sem entrar em detalhes de pragas específicas, o princípio técnico é claro: mais material debilitado e disponível = maior pressão sanitária sobre povoamentos vizinhos e sobre a regeneração.  

A urgência de criar parques públicos de madeiras
  • Custos operacionais e bloqueios logísticos 

A remoção e extração após tempestades é mais cara e mais perigosa: há árvores tensionadas, instabilidade de taludes, redes viárias degradadas e necessidade de maquinaria especializada. Quando os acessos falham, falha a capacidade de resposta e o “atraso” transforma-se em perda económica e risco acrescido. 

  • Risco de incêndio e abandono 

Madeira derrubada e ramos no terreno significam aumento de carga combustível e continuidade horizontal, elevando a probabilidade de ignição e de propagação. E quando a desvalorização da madeira retira rendimento ao proprietário, diminui também a capacidade de financiar limpeza, recuperação e replantação. O resultado é previsível: mais abandono, mais risco e menos resiliência. 

Parques públicos de madeiras: mercado, logística e segurança  

É neste contexto que a criação de parques de retenção de material lenhoso deve ser entendida como uma medida de interesse público, com efeitos imediatos em três frentes: mercado, logística e segurança do território. 

Na prática, estes parques são áreas preparadas para receção, triagem, acondicionamento e expedição faseada de madeira proveniente de eventos extremos. O objetivo não é “armazenar por armazenar”, mas sim gerir o pico de oferta para evitar o colapso de preços, acelerar a remoção do material do terreno e garantir qualidade mínima para abastecimento industrial. 

O que um parque de retenção resolve, tecnicamente: 

1. Estabiliza o mercado e protege rendimento

Após grandes ocorrências, há um “choque” de oferta: muita madeira entra ao mesmo tempo num mercado que não tem capacidade de absorção imediata. Sem um mecanismo de regulação, a consequência é a queda rápida de preços, penalizando proprietários e operadores e reduzindo o incentivo à limpeza. O parque permite escoamento faseado, preservando valor e dando previsibilidade. 

2. Acelera limpeza e reduz combustível antes da época crítica

Quando o proprietário tem um destino logístico claro e condições de receção garantidas, a limpeza deixa de ser “um problema individual” e passa a ser uma resposta organizada. Menos madeira no chão significa menos risco de incêndio, menos obstáculos em caminhos e melhor capacidade de intervenção. 

3. Reduz perdas por degradação e melhora controlo sanitário 

Com triagem e acondicionamento adequados, a madeira mantém mais tempo a sua aptidão industrial. E, sobretudo, o parque pode integrar procedimentos mínimos de inspeção, separação por tipologia/estado, e regras de circulação que diminuem a probabilidade de disseminação de agentes bióticos. 

Como desenhar bem estes parques públicos de madeiras para não serem “mais um problema”?

Para funcionarem, os parques exigem critérios técnicos e operacionais claros: 

  • Localização estratégica: proximidade às áreas afetadas e aos principais eixos logísticos, minimizando distâncias e custos. 
  • Condições de solo e drenagem: plataformas estabilizadas, gestão de águas pluviais e prevenção de erosão e contaminação. 
  • Segurança e proteção contra incêndio: faixas de gestão de combustível, compartimentação, pontos de água e regras operacionais. 
  • Gestão de qualidade e rastreabilidade: receção com registo (origem, tipologia, volume), triagem, classificação e encaminhamento por canais (serração, trituração, energia, etc.). 
  • Biossegurança: protocolos simples de inspeção e movimentação, para reduzir risco sanitário. 
  • Modelo de operação transparente: regras de acesso para proprietários e operadores, custos claramente definidos e ligação efetiva à indústria compradora. 

Isto é importante: um parque de retenção não pode ser improvisado. Tem de ser planeado como infraestrutura temporária com governança sólida, para evitar externalidades (ambientais, sanitárias ou de segurança). 

Há uma razão estrutural para a criação de parques públicos de madeiras ser urgente em Portugal: a floresta é maioritariamente privada e extremamente fragmentada. Em eventos extremos, pedir resposta “proprietário a proprietário” é, na prática, pedir falhanço. É necessário um instrumento com escala, coordenação e financiamento. 

O Estado deve assumir três responsabilidades-chave: 

1. Financiar e viabilizar parques públicos de madeiras (ou de gestão pública em parceria), porque a estabilização do território e a redução do risco de incêndio são benefícios coletivos. 

2. Criar um quadro de coordenação entre produção, indústria e comércio, para garantir escoamento faseado e regras previsíveis. 

3. Apoiar explicitamente a remoção do material sem valor comercial, onde o mercado não paga a operação, mas o risco público permanece (combustível, bloqueios, sanidade). 

Num país onde 90% da propriedade florestal é privada e extremamente fragmentada (11,5 milhões de parcelas para 6 milhões de hectares), as Organizações de Proprietários Florestais (OPF) são o braço operacional que permite dar escala à gestão. Mas a escala precisa de logística, e a logística de parques públicos financiados.  

Nos tempos que correm, é incompreensível que o licenciamento de uma ação de reflorestação demore anos a fio. Se o Governo considera a floresta um sector estratégico até 2050, tem de ser consequente hoje.  

Mais do que nunca, urge alavancar um sistema “Simplex para as Florestas”. Precisamos de avançar um modelo com menos burocracia administrativa e reforçar o apoio técnico no terreno através das Organizações de Proprietários Florestais (OPF). 

Forestis representa hoje mais de 19 500 proprietários através das suas 37 associações. A nossa mensagem é clara e as propostas estão em cima da mesa: a crise provocada no sector florestal pela Kristin tem agora de ser encarada como uma oportunidade para implementarmos modelos de gestão com escala, que criem emprego em territórios de baixa densidade e protejam cabalmente os nossos recursos naturais. 

O Estado detém apenas 2% da propriedade florestal; o futuro da paisagem portuguesa depende, portanto, da viabilidade económica dos privados. Sejamos céleres na resposta, antes que o próximo verão chegue para nos cobrar a fatura da inação. 

Março de 2026

O Autor

Licenciado em Agronomia pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA), Carlos Duarte é, em 2026, Presidente da Direção da Forestis – Associação Florestal de Portugal, da Litoral Rural e do Órgão de Gestão da Litoral Rural, sendo ainda Diretor do IDARN – Instituto para o Desenvolvimento Agrário da Região Norte, Presidente da Assembleia Geral da Mútua de Bastos Norte e consultor. 

Entre os vários cargos que ocupou anteriormente, refira-se que foi Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Agricultura e das Pescas no XVI Governo Constitucional, Deputado da Assembleia da República, Membro da Comissão Diretiva do ON2/QREN e Diretor Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho. 

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