Notícias e Agenda

03.09.2026

Checklist de líquenes em Portugal: 2012 espécies reconhecidas

Checklist de líquenes em Portugal: 2012 espécies reconhecidas

Com mais de duas mil espécies de líquenes e fungos liquenícolas, Portugal apresenta uma riqueza notável destes organismos que desempenham um papel essencial nos diversos ecossistemas, incluindo os florestais. A primeira checklist de líquenes em Portugal continental foi publicada em julho de 2026.

Um trabalho pioneiro permitiu publicar a primeira checklist de líquenes em Portugal continental, a partir do levantamento, análise, síntese e validação de registos obtidos em mais de dois séculos de conhecimento científico.

A iniciativa foi coordenada pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC), em colaboração com o Instituto Superior de Agronomia, a Universidade de Vigo e o BIOPOLIS/CIBIO.

A listagem final reconhece, atualmente, 2012 espécies de líquenes em Portugal continental, naquele que é o levantamento mais completo destes organismos em território nacional. Estes resultados permitem também atestar a diversidade expressiva de líquenes existentes no território.

Diversidade e localização das espécies de líquenes em Portugal

No artigo completo, publicado na revista científica Journal of Fungi, “Checklist of Lichens and Lichenicolous Fungi from Mainland Portugal”, a equipa científica reforça que Portugal continental apresenta uma elevada riqueza de líquenes, face à dimensão territorial do país. A diversidade resulta da conjunção de fatores associados à localização biogeográfica de Portugal e à variedade de climas, geologias e habitats existentes no país.

As espécies constantes da checklist reforçam as condições vantajosas de Portugal continental. “Foi curioso verificar que, para 29 espécies com origem noutros continentes, a única localização conhecida na Europa continental se encontra em Portugal”, destaca ao Florestas.pt a coordenadora do trabalho científico, Palmira Carvalho, do MUHNAC, naquela que “é uma indicação de que Portugal representa elevada diversidade de microclimas e do potencial florístico do nosso país”. A especialista é curadora da coleção de líquenes do herbário LISU do Museu de História Natural e da Ciência e desenvolve a sua atividade científica nas áreas da conservação da biodiversidade, taxonomia, ecologia e sistemática de líquenes.

Para 388 espécies de líquenes em Portugal, apenas foram encontradas citações únicas, o que pode ser um indício de ocorrências raras ou pouco inventariadas. “Em qualquer dos casos, estas são as espécies que devem merecer atenção prioritária em estudos futuros”, aponta a coordenadora.

Do lado oposto a esta espécies referenciadas uma única vez, existem outras que concentram registos. São disso exemplo as espécies de líquenes como Collema furfuraceumFlavoparmelia caperataRamalina farinaceaLobaria pulmonaria e Evernia prunastri, as mais referenciadas nos registos históricos, cada uma delas com mais de 350 ocorrências. Estremadura, Minho e Algarve são as regiões que concentram o maior número de referências de líquenes em todo o território continental.

O estudo identifica também as 13 áreas com maior diversidade de espécies de líquenes em Portugal continental, incluindo territórios que coincidem com áreas protegidas do Parque Nacional Peneda-Gerês e Parques Naturais de Montesinho, Serra da Estrela, Sintra-Cascais, Arrábida e Serra de São Mamede.

A listagem permite ainda a georreferenciação das espécies (atribuição de coordenadas geográficas) com base na descrição original de localização. No total, 74% dos registos têm uma coordenada atribuída.

A importância dos líquenes nos ecossistemas florestais

Resultantes da associação simbiótica entre diferentes organismos (pelo menos dois fungos e uma alga e/ou cianobactéria, que é uma bactéria que obtém energia através da fotossíntese), os líquenes desempenham um papel essencial nos diversos ecossistemas onde se encontram.

Nos ecossistemas florestais, por exemplo, os líquenes são uma componente significativa da biodiversidade , podem servir como bioindicadores de qualidade (do ar, saúde do ecossistema e alterações climáticas) e contribuem para avaliar o estado conservação das florestas, uma vez que a sua presença no território dá respostas importantes sobre a continuidade do habitat, a idade da floresta e as práticas de gestão.

Tal como reforça Palmira Carvalho, a extrema sensibilidade dos líquenes a alterações no ambiente (nomeadamente à qualidade do ar, humidade relativa e estrutura da floresta) torna-os “excelentes bioindicadores”, sendo que “a presença, ausência ou diversidade de líquenes numa floresta diz-nos muito sobre a saúde desse ecossistema”. Em paralelo, os líquenes “contribuem para a formação e estabilização dos solos, participam nos ciclos de nutrientes e servem de alimento e habitat para outros organismos”, acrescenta a especialista.

Dada esta importância dos líquenes, a sua proteção torna-se um tema crítico. “É importante referir que os líquenes não crescem em viveiros ou estufas e que, para os proteger, temos de proteger os habitats onde se desenvolvem”, aponta Palmira Carvalho, sendo que “uma má gestão – seja florestal ou do solo – compromete comunidades [de líquenes] que demoram muito tempo a formar-se e que, uma vez perdidas, são difíceis de recuperar”.

Analisar e atualizar mais de 200 anos de registos

A listagem obtida resulta de um trabalho moroso, ao longo de diversos anos, de análise de 43718 registos bibliográficos provenientes de 381 publicações editadas entre 1788 e 2021, num cruzamento entre investigação histórica, trabalho bibliográfico e revisão taxonómica.

No entanto, apesar do elevado número de registos e de uma tradição liquenológica de mais de três séculos em Portugal, nunca havia sido produzida uma checklist crítica atualizada.

A ausência histórica de um levantamento desta natureza deve-se, sobretudo, “à escassez de taxonomistas na área da liquenologia”, explica Palmira Carvalho, uma questão essencial para trabalhar numa checklist atualizada. Para chegar às mais de duas mil espécies em Portugal continental, por exemplo, o grupo de trabalho precisou de analisar mais de quatro mil nomes científicos, “de modo a determinar se esses nomes são os atualmente aceites, ou são sinónimos”.

O volume de informação histórica, a necessidade de normalização dos nomes científicos e dados de ocorrência, assim como essa atualização taxonómica dos nomes das espécies foram dificuldades de fundo para o projeto. Palmira Carvalho recorda alguns destes desafios, desde a necessidade de “localizar publicações originais dispersas”, já que uma parte significativa dos registos históricos não está digitalizada; o trabalho de “rever e uniformizar toda a informação de acordo com as normas atuais de nomenclatura científica para que os registos pudessem ser comparados e tratados de forma coerente”; e a revisão de cada registo “à luz do conhecimento taxonómico atual para chegar a uma lista final que reflita o estado da ciência hoje, e não uma simples soma acrítica de nomes históricos”.

Linhas futuras na investigação sobre líquenes em Portugal

Este trabalho não é uma listagem definitiva dos líquenes nacionais. Deve ser encarado como um ponto de partida, um documento em constante atualização que serve como ferramenta de referência normalizada para a futura investigação na área da liquenologia, do património natural e da conservação, tanto em Portugal, como na região mediterrânica.

Tal como reforçado no artigo científico, “os líquenes representam cerca de um quinto de todas as espécies fúngicas descritas e as listas completas sobre este grupo permitem documentar padrões de distribuição, validar nomenclatura e detetar alterações espaciais ou temporais associadas a fatores ambientais ou antropogénicos”.

A propósito, Palmira Carvalho explica a importância de manter a checklist atualizada no futuro, para que continue pertinente como ferramenta de apoio à gestão. Além disso, como o estudo não inclui registos de publicações mais recentes, o “levantamento tem de continuar a ser feito”, acrescenta. Trabalhos futuros podem passar também por avaliar a raridade ou o endemismo das espécies e analisar com mais detalhes os 388 singletons (espécies referenciadas só uma vez em toda a bibliografia analisada).

“Finalmente, é preciso lembrar que não existe uma lista vermelha dos líquenes em Portugal, tal como acontece com os briófitos, com as plantas vasculares e tantos outros grupos de organismos. Por isso, a ideia é continuar os estudos de inventariação da flora liquénica portuguesa, atualizar este trabalho e expandi-lo, contribuindo assim para uma maior valorização da biodiversidade e dos valores naturais do nosso país”, conclui a coordenadora do estudo.