Comentário

Raquel Martinho

As árvores fora da floresta também contam uma história de sustentabilidade

Muito para além da floresta, existe um património vivo que merece ser reconhecido, valorizado e cuidado.

Quando falamos de gestão florestal sustentável, é natural que o nosso pensamento se concentre na floresta. Afinal, é nela que encontramos um dos maiores patrimónios naturais do planeta e um aliado indispensável na preservação da biodiversidade, na mitigação das alterações climáticas e no desenvolvimento das comunidades.

Ao longo das últimas décadas, a gestão florestal sustentável afirmou-se como um dos pilares da conservação dos recursos naturais, demonstrando que é possível conciliar proteção ambiental, desenvolvimento económico e responsabilidade social. É uma abordagem que tem permitido preservar o património florestal e assegurar que as gerações futuras possam continuar a beneficiar dos bens e serviços que a floresta proporciona.

Mas a sustentabilidade da paisagem portuguesa não começa nem termina onde a floresta está delimitada. Existe um património arbóreo que cresce para além desses limites e que acompanha diariamente a vida das pessoas. Está nas cidades, vilas e aldeias, nos jardins e parques, ao longo das linhas de água, nos espaços agrícolas e em inúmeras paisagens que fazem parte da nossa identidade coletiva. Está nas árvores fora da floresta.

Embora não integrem áreas classificadas como floresta ou espaço florestal, as árvores em zonas urbanas ou agrícolas – integradas em jardins, parques, margens de cursos de água (galerias ripícolas), corredores verdes, alamedas, cortinas de abrigo, pequenos bosques (bosquetes) e outras formações – desempenham um papel essencial na qualidade de vida das comunidades, na biodiversidade, na adaptação às alterações climáticas e na valorização do território.

Durante muito tempo, as árvores localizadas fora da floresta permaneceram fora do universo da certificação. Não por serem menos importantes, mas porque faltava um referencial capaz de reconhecer a especificidade da sua gestão e o contributo que dão ao território. Foi precisamente para responder a essa realidade que surgiu a certificação PEFC – Programme for Endorsement of Forest Certification para as “Árvores Fora da Floresta” (Trees Outside Forests – TOF). Trata-se de uma abordagem inovadora que alarga o alcance da gestão sustentável e reconhece internacionalmente um património que sempre existiu, mas que ainda não estava contemplado no sistema de certificação.

Mais do que criar um novo referencial técnico, esta certificação traduz uma visão mais integrada da sustentabilidade, onde cada árvore é valorizada pelo contributo que traz às pessoas, às comunidades e ao ambiente. É um reconhecimento de que o futuro dos territórios depende da forma como cuidamos de todo o património natural e não apenas das áreas tradicionalmente identificadas como floresta.

As árvores fora da floresta também contam uma história de sustentabilidade

© PEFC Portugal

Portugal assume, neste contexto, uma posição de relevo. Ao tornar-se o terceiro membro do PEFC a obter o reconhecimento internacional para a certificação das “Árvores Fora da Floresta”, afirma-se como um dos países pioneiros nesta nova abordagem à gestão sustentável, reforçando o seu compromisso com uma liderança ambiental consciente, responsável e voltada para o futuro.

Certificar as “Árvores Fora da Floresta”: uma visão integrada da sustentabilidade

Ao alargar a certificação às “Árvores Fora da Floresta”, o PEFC não veio apenas responder a uma necessidade técnica. Veio propor uma nova forma de olhar para o território, porque a sustentabilidade não resulta de espaços isolados, mas da relação entre todos os elementos que compõem a paisagem.

A floresta, os campos agrícolas, os espaços urbanos e as suas comunidades fazem parte do mesmo sistema e dependem uns dos outros para criar territórios mais equilibrados, resilientes e preparados para responder aos desafios ambientais e sociais do presente e do futuro.

Mais do que elementos da paisagem, as árvores fora da floresta constituem um património natural que proporciona benefícios ambientais, sociais e económicos indispensáveis. Melhoram a qualidade do ar, ajudam a regular a temperatura, favorecem a infiltração da água no solo, capturam carbono, favorecem a biodiversidade e reforçam a resiliência dos ecossistemas perante as alterações climáticas.

Um valor que vai muito além da dimensão ambiental

À medida que as cidades crescem e o contacto com a natureza se torna mais escasso, estas árvores assumem um papel determinante na qualidade de vida das pessoas. Criam espaços de encontro e convivência, proporcionam sombra e conforto térmico, incentivam a atividade física, reduzem o stress e promovem a saúde e o bem-estar.

Nos meios rurais, continuam a fazer parte da identidade da paisagem, da memória coletiva e da relação histórica entre as comunidades e o território. São uma presença constante na vida das pessoas e um elo que reforça a ligação entre a natureza e quem dela depende diariamente.

Valorizar este património é reconhecer o seu verdadeiro contributo para o território, incentivar a sua gestão sustentável e reforçar a ligação entre as pessoas e a natureza, lembrando-nos de que só cuidamos verdadeiramente daquilo que conhecemos, compreendemos e sentimos como nosso.

A certificação PEFC para “Árvores Fora da Floresta” representa, por isso, uma oportunidade para proprietários, organizações e municípios demonstrarem, através de um sistema independente e reconhecido internacionalmente, o seu compromisso com uma gestão responsável deste património arbóreo.

Para os municípios, em particular, esta certificação constitui uma oportunidade para assumir um papel de liderança na valorização dos espaços verdes, na promoção da qualidade de vida dos cidadãos e na implementação de políticas ambientais capazes de inspirar outras entidades e comunidades. Mais do que certificar árvores, podem demonstrar, pelo exemplo, como a gestão sustentável contribui para territórios mais saudáveis, resilientes e preparados para o futuro.

Num momento em que os desafios ambientais exigem respostas cada vez mais integradas, a certificação representa uma oportunidade para construir uma visão comum do território, onde cada árvore tem o seu valor e cada gesto de gestão responsável contribui para um futuro mais resiliente.

A sustentabilidade não conhece fronteiras. Começa na floresta, prolonga-se por todo o território e ganha verdadeiro significado quando une natureza, pessoas e comunidades numa mesma visão de futuro. Cuidar da floresta é cuidar do futuro. Cuidar das árvores fora da floresta é cuidar do território onde esse futuro acontece.

Setembro 2026

3 questões sobre a certificação PEFC “Árvores Fora da Floresta”

1. Que norma permite certificar as árvores que estão fora da floresta?

A certificação PEFC “Árvores Fora da Floresta” é feita ao abrigo da norma NP4406, que define, no seu Anexo C, os requisitos adicionais aplicáveis aos certificados que incluem Árvores Fora da Floresta (TOF). A norma permite, assim, estender a certificação PEFC a árvores presentes em contextos urbanos e agrícolas, para além das áreas tradicionalmente classificadas como floresta.

2. Que tipo de árvores ou conjuntos arbóreos fora da floresta são elegíveis para esta certificação?

Em contexto urbano são elegíveis árvores isoladas ou em formações lineares (alamedas, cortinas de abrigo, galerias ripícolas, corredores verdes) ou árvores presentes em jardins, parques e outras infraestruturas verdes.

Em contexto agrícola são elegíveis árvores em formações lineares (alamedas, cortinas de abrigo, galerias ripícolas) com menos de 20 metros de largura e 25 metros de comprimento, árvores dispersas com cobertura arbórea menor que 10%, bosquetes com área menor do que meio hectare com cobertura arbórea igual ou superior a 5% (se for só estrato arbóreo) ou com cobertura arbórea e arbustiva igual ou superior a 10%.

3. Quem pode obter esta certificação?

Municípios, proprietários, organizações e entidades gestoras responsáveis pelas árvores que se encontram fora da floresta podem obter a certificação, adaptando o seu sistema de gestão aos requisitos da norma NP4406 e submetendo-o a auditoria por um organismo de certificação acreditado.

O Autor

Licenciada em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA), Raquel Martinho integrou o PEFC Portugal em 2019, onde é responsável pelo Sistema Português de Certificação Florestal (SPCF), desenvolvendo atividades nas vertentes da Gestão Florestal Sustentável (GFS), da Cadeia de Custódia (CdC) e das Marcas PEFC (nomeadamente, revisões normativas e do SPCF, formação, apoio técnico e gestão de base de dados, sendo o ponto focal de contacto com as entidades intervenientes no sistema de certificação para a divulgação associada aos processos de certificação).

Foi, durante mais de uma década, auditora coordenadora de um organismo de certificação de abrangência nacional e internacional, possuindo vasta experiência de auditoria CdC e GFS junto das indústrias de base florestal, das entidades prestadoras de serviços e das entidades gestoras de áreas florestais.

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