Comentário

Bruna Oliveira

De “faixa perdida” a infraestrutura ecológica

O restauro das linhas de água e da vegetação que as envolve é uma forma promissora de criar corredores de conservação em plantações florestais, promovendo descontinuidades que protegem a produção, reduzem riscos, melhoram habitats e apoiam novas formas de financiamento. É isso que está a fazer o projeto CCforBio, com trabalhos de campo a decorrer na Mata Nacional das Dunas de Quiaios: desenvolver conhecimento científico e métricas mensuráveis que justificam os benefícios de transformar uma “faixa perdida” numa infraestrutura ecológica.

Durante muito tempo, as linhas de água e a vegetação ribeirinha (galerias ripícolas) que atravessam plantações florestais foram tratadas como “faixas perdidas”: demasiado húmidas para a produção, demasiado estreitas para serem prioridade, muitas vezes deixadas à sua sorte até serem dominadas por espécies exóticas invasoras. Hoje sabemos que esse olhar é curto.

Transformar estas faixas perdidas em corredores de conservação dentro de florestas de produção – ao longo de linhas de água, linhas de escoamento, áreas de maior sensibilidade ecológica ou interfaces urbano‑florestais – pode ser considerado “tecnologia de ponta” para a gestão florestal no século XXI, mesmo quando o trabalho parece simples: remover espécies invasoras, melhorar o solo, reintroduzir flora nativa e gerir a estrutura da vegetação de forma resiliente. Em vez de linhas residuais, passamos a ter uma infraestrutura ecológica que protege o coração produtivo da floresta.

Um corredor de conservação não é apenas uma faixa de vegetação bonita; é uma história em movimento. Do lado da vegetação, um corredor bem desenhado aumenta a diversidade de espécies, introduz estratos arbustivos e arbóreos mais variados e cria gradientes de humidade e sombra que reduzem o stress em períodos de seca. Do lado da fauna, oferece refúgio, alimento e rotas de deslocação para aves, mamíferos e invertebrados.

Gestão florestal 2.0: mosaicos e métricas

Se há algo que a nova geração de incêndios e de tempestades nos ensinou é que a floresta portuguesa não pode continuar a ser uma monocultura de riscos. Precisamos de mosaicos: em vez de extensos blocos contínuos altamente inflamáveis, criar padrões de combustibilidade variada, alternando espécies, idades, usos do solo e densidades. Os corredores de conservação são peças centrais nesta lógica.

Ao introduzirem linhas de maior humidade, vegetação menos inflamável e descontinuidades na estrutura do combustível, estas infraestruturas ecológicas podem reduzir a intensidade e a propagação do fogo, proteger as linhas de água e criar zonas de menor severidade que fazem a diferença numa noite de vento forte. Ao mesmo tempo, quando bem integrados no plano de gestão, não retiram produtividade ao sistema – em vez disso, estabilizam-no, reduzindo perdas potenciais em eventos extremos.

Para que deixem de ser apenas boas intenções em relatórios, é preciso assumir as métricas. Hoje, já conseguimos quantificar os custos diretos de instalação e manutenção, os benefícios em madeira e outros produtos lenhosos, o sequestro de carbono, a redução do risco de incêndio, a regulação hidrológica, o recreio e o valor paisagístico associados a corredores instalados em plantações florestais.

Estes números alimentam análises de custo‑benefício que ajudam proprietários, associações florestais, indústria transformadora e decisores públicos a perceber que a conservação pode ser parte da solução económica e não um obstáculo.

De “faixa perdida” a infraestrutura ecológica

Ilustração da gestão da paisagem em mosaico

Da Lei do Restauro à floresta do dia a dia

Em 2024, a União Europeia aprovou o chamado Regulamento do Restauro da Natureza (Regulamento UE 2024/1991), que define metas vinculativas para restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas até 2030 e todos os ecossistemas degradados até 2050. Entre as prioridades estão precisamente os ecossistemas florestais, os rios, as galerias ripícolas, a conectividade e a melhoria dos serviços de ecossistema – em síntese, tudo aquilo que um corredor de conservação bem desenhado pode ajudar a concretizar.

Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia está a preparar um sistema de créditos de natureza, complementar aos mercados de carbono, para certificar resultados positivos em biodiversidade e serviços de ecossistema. Num cenário em que estes instrumentos ganham corpo, os corredores de conservação em plantações florestais podem tornar‑se ativos estratégicos: não apenas por reduzirem o risco e melhorarem a resiliência, mas também por poderem gerar rendimento adicional para proprietários e empresas que investem na sua criação e manutenção.

Em projetos recentes desenvolvidos em pinhais costeiros e noutras paisagens de produção, temos mostrado que é possível combinar inventários de carbono, indicadores de qualidade de habitat fluvial, métricas de biodiversidade e análise económica dos corredores – exatamente o tipo de informação que será necessária para esquemas credíveis de créditos de natureza em contexto florestal.

Uma oportunidade para a fileira do pinho (e não só)

Da experiência em campo emergem propostas muito concretas para a fileira do pinho e para outras fileiras florestais que querem conciliar competitividade, segurança de aprovisionamento e sustentabilidade. Entre os exemplos de medidas onde a teoria já encontrou aplicação prática, refiram-se:

  • Integrar corredores de conservação ao longo de linhas de água e de outro tipo de infraestrutura ecológica nos planos de gestão;
  • Valorizar a biomassa de invasoras como matéria‑prima numa lógica de economia circular;
  • Usar monitorização remota e indicadores padronizados para reportar ganhos em biodiversidade, carbono e qualidade de habitat.

Como investigadora, interessa‑me menos “provar” que a conservação é importante – isso já sabemos – e mais demonstrar, com dados, que ela pode reforçar a viabilidade económica das paisagens de produção.

Quando um corredor é visto como infraestrutura ecológica que protege o coração produtivo da floresta, reduz riscos, abre portas a novos fluxos de financiamento e alinha a gestão quotidiana com as metas europeias de restauro. Deixa de ser um luxo. Passa a ser bom senso e oportunidade.

Fora da caixa, mas com os pés no terreno

Talvez o aspeto mais “fora da caixa” dos corredores de conservação em plantações florestais não esteja na tecnologia, mas na forma como nos “obrigam” a aproximar mundos que raramente se sentam à mesma mesa: investigadores, proprietários, associações florestais, indústria, gestores de áreas protegidas, comunidades locais. O corredor não é apenas um objeto ecológico: é um processo social.

As decisões sobre onde e como intervir ganham qualidade quando são discutidas com quem conhece o povoamento por dentro, sabe onde a água corre primeiro, onde o fogo costuma entrar, onde a máquina consegue (ou não) passar.

A ciência traz modelos, sensores e mapas; os atores locais trazem memória, prioridades e constrangimentos. É neste cruzamento que se tornam possíveis soluções tecnicamente robustas, socialmente justas e economicamente viáveis.

E se começarmos por criar uma infraestrutura ecológica na próxima linha de água?

Quando pensamos em restauro ecológico, é fácil imaginar grandes planos nacionais, metas europeias, regulamentos e estratégias. Tudo isso é indispensável, mas a verdade é que a transformação começa muitas vezes num gesto simples: olhar de forma diferente para a próxima linha de água que encontrarmos numa floresta de produção.

Se essa galeria ripícola estiver invadida, degradada, invisível na prática da gestão, ali pode estar o embrião de um corredor de conservação capaz de ligar florestas, clima e pessoas. Em vários pontos do país, projetos de restauro em plantações florestais estão a mostrar que é possível recuperar estas faixas e transformá‑las em corredores ecológicos que servem simultaneamente biodiversidade, sequestro de carbono e redução do risco de incêndio.

Se há algo que a floresta portuguesa nos pede neste momento é coragem para experimentar novos caminhos, sem perder o rigor técnico nem a viabilidade económica. Os corredores de conservação em florestas de produção não são uma solução mágica, mas são uma das formas mais promissoras de transformar a crise climática e ecológica numa oportunidade para reinventar a gestão florestal – mais diversa, mais justa e mais resiliente.

Agosto de 2026

Consulte informação de apoio:

O que são corredores de conservação?

São faixas de território geridas para proteger ou recuperar funções ecológicas, como a circulação de espécies animais, a proteção de linhas de água, a criação de habitats, a redução da erosão e o aumento da resiliência da paisagem.

O que são galerias ripícolas?

São faixas de vegetação bem-adaptada às margens de rios, ribeiras, lagoas e outras linhas de água. São importantes porque, entre outros benefícios, protegem as margens, ajudando a travar inundações, fixam o solo, reduzindo a erosão, e servem de habitat para muitas espécies.

O que é gestão em mosaico?

É uma forma de organizar a paisagem, alternando diferentes usos do solo, culturas, espécies – espécies com diferentes características e idades – e densidades de vegetação, para criar paisagens diversificadas e promover descontinuidades. Esta heterogeneidade reflete-se na redução de riscos (porque cada área tem diferentes comportamentos e suscetibilidades), minorando, por exemplo, o risco de incêndio e de ataque de pragas, e aumentando a resiliência do território.

O que são créditos de natureza?

São instrumentos financeiros (ainda em desenvolvimento na União Europeia em 2026) que procuram atestar ganhos mensuráveis para a natureza, resultantes de intervenções como restauro ecológico, criação de corredores de conservação ou recuperação de habitats. Estes ganhos podem refletir-se, por exemplo, na melhoria da qualidade da água, na proteção do solo, no aumento da polinização ou na conservação de espécies e habitats. De forma semelhante aos créditos de carbono, os créditos de natureza funcionam como certificados que podem ser adquiridos por empresas, governos e investidores interessados em financiar ações com resultados positivos para os serviços dos ecossistemas e a biodiversidade. O objetivo é criar uma fonte adicional de rendimento para quem investe na gestão responsável e sustentável de áreas florestais e naturais, valorizando recursos e serviços que beneficiam toda a sociedade.

O Autor

Bruna Oliveira é investigadora no CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro. Doutorada em Tecnologia do Ambiente pela Wageningen University, nos Países Baixos, os seus interesses de investigação centram-se em temas como a medição e modelação dos fluxos de carbono e de água em ecossistemas em recuperação, no restauro de ecossistemas com recurso a materiais orgânicos e na deteção remota para gestão da paisagem. 

Bruna Oliveira é a coordenadora do projeto CCforBio – “Corredores ecológicos em plantações florestais: benefícios para a biodiversidade, produção de madeira e sequestro de carbono” (2024 – 2027), que foi distinguido com o Prémio Floresta é Sustentabilidade, na categoria Inovação, em 2026. Refira-se que o projeto CCforBio está a ser desenvolvido numa área de pinhal, na Mata Nacional das Dunas de Quiaios, e integra todas as etapas de um plano de restauro, desde a elaboração de um plano de intervenção até à implementação, monitorização e análise custo-benefício. Apoiado em informação científica, conta com o envolvimento das partes interessadas, incluindo órgãos oficiais e agentes locais.

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