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Curiosidades

A riqueza das amendoeiras em flor e da tradição da amêndoa

No sul de Portugal, a paisagem começa a cobrir-se de branco e rosa pálido em finais de janeiro. Em poucas semanas, os campos ganham estas tonalidades também a norte. São as amendoeiras em flor, um espetáculo natural que antecipa a primavera e o despontar de uma das sementes de longa tradição na cultura e gastronomia portuguesas: a amêndoa.

Conta-se que uma princesa nórdica, casada com um rei mouro, adoeceu de tristeza porque no Algarve, onde viviam, lhe faltava o manto branco de neve da sua terra. Mas esta tristeza desvaneceu-se quando se deparou com a beleza dos campos cobertos de branco, não pela neve, mas pelas pétalas das amendoeiras em flor que nasciam em pleno inverno.

A lenda mourisca das amendoeiras em flor é apenas uma das muitas histórias que cruzam esta espécie, que romanos, visigodos e muçulmanos já cultivavam na Península Ibérica. Com a Reconquista Cristã, esta cultura continuou a ser feita por leoneses, castelhanos e aragoneses (espanhóis), que consideraram a amendoeira tão viril que lhe deram um nome masculino, Almendro. Já os portugueses, encantados pelas amendoeiras em flor e “seduzidos pela cor branca florida, ou rosada, a compararam à delicadeza feminina, chamando-lhe amendoeira”, conta o professor e historiador Adriano Vasco Rodrigues, em “Amendoeira: sua história e influência cultural”.

Não é, por isso, de estranhar que a amêndoa integre a dieta mediterrânica desde tempo remotos e que, em especial nas regiões onde a amendoeira tem maior presença, se multipliquem as suas aplicações gastronómicas e perdurem mitos e tradições em torno da amêndoa e da amendoeira, cujo florescer antecipado é símbolo de fertilidade e de renascimento em diferentes culturas, assim como inspiração para inúmeros artistas.

Porque ficam as amendoeiras em flor antes das outras espécies? Tal como outras espécies de árvores de fruto, a amendoeira precisa de acumular um número mínimo de horas de frio (com temperaturas entre os zero e o 7,2 graus) para quebrar a dormência e florir. Embora com variações entre diferentes amendoeiras, elas precisam de acumular entre 100 a 500 horas de frio antes de conseguirem florir. Outras espécies necessitam de mais tempo de frio. As pereiras, por exemplo, precisam de 500 a 1500 horas.

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Tela “Almond Blossom”, Vincent Van Gogh, 1890, Museu Van Gogh, Holanda

Por exemplo, na antiga Frigia (hoje Turquia), Cibele era adorada como deusa mãe da Terra, da vida, da morte e ressurreição, e a amêndoa representava o seu órgão feminino – da amêndoa tinha surgido a vida. Simbolismo parecido tinha na mitologia grega e está patente também no cristianismo, onde os ramos de amendoeira surgem associados à virgem Maria e à imaculada conceção.

Nas artes, Van Gogh foi um dos grandes mestres que se inspirou na beleza precoce das amendoeiras em flor. Entre 1888 e 1890, pintou um conjunto de telas com diferentes perspetivas da árvore, ramos e flores. Também para ele, as amendoeiras em flor simbilizaram nascimento – o do seu sobrinho nascido em janeiro de 1890, a quem ofereceu “Almond Blossom”. Atualmente, o conjunto de telas está exposto na Holanda, no Museu Van Gogh.

Ainda hoje, a amêndoa continua a simbolizar fertilidade e vida, e é usada em especial em cerimónias tradicionais de batismo e matrimónio, pela Europa e Médio Oriente. São principalmente as amêndoas cobertas de açúcar, conhecidas em vários países como amêndoas da Jordânia, as mais comuns em rituais de casamento: em Itália, por exemplo, oferecem-se cinco amêndoas aos convidados e cada uma simboliza um desejo dos noivos: longevidade, fertilidade, saúde, felicidade e riqueza. Na Grécia, servem-se aos convidados numa bandeja de prata, sempre em número ímpar, numa representação da indivisibilidade e da nova vida em união.

Amendoeiras em flor e especialidades de amêndoa são atrações no Algarve, Alto Douro e Trás-os-Montes

Em Portugal, esta riqueza cultural e gastronómica é particularmente visível no Algarve e no norte de Portugal – Alto Douro e Trás-os-Montes – as duas regiões com maior tradição na cultura da amêndoa.

No norte, alguns ainda se recordarão das “partidelas de amêndoas”, o nome dado aos serões em que os vizinhos se juntavam, sentados em roda, a partir amêndoas enquanto conviviam, cantavam e contavam adivinhas. E quando alguém encontrava duas amêndoas na mesma casca, comia uma e dava a outra a uma pessoa do seu agrado. Os dois enlaçavam os dedos mindinhos, diziam “no raminho de bem querer, compadres até morrer” e passavam a tratar-se por compadres.

Se hoje serão mais escassos os serões comunitários dedicados às “partidelas de amêndoas”, mais comuns são os atrativos criados pelas amendoeiras em flor e pela gastronomia – em especial doçaria – em que a amêndoa tem “papel principal”.

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A norte, a Rota das Amendoeiras em Flor é apenas um exemplo das iniciativas pensadas para dar a conhecer este espetáculo natural e convida a percorrer as diversas festividades (adiadas em 2021 devido às limitações de circulação derivadas da pandemia) que acontecem no final do inverno nos concelhos de Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro, Torre de Moncorvo e Vila Nova de Foz Côa – este último reivindica para si o título de “Capital da Amendoeira”.

Por todas estas terras, o convite estende-se à gastronomia. Em Trás-os-Montes, vale a pena provar a “Amêndoa do Douro DOP”, com Denominação de Origem Protegida, e em Moncorvo, é obrigatória a Amêndoa Coberta de Moncorvo, que passou a ter Indicação Geográfica Protegida (IGP) em 2018, um reconhecimento que abarca as amêndoas doces peladas, torradas e cobertas com uma pasta de açúcar, que se saboreiam em três versões: “brancas ou comuns, morenas ou de chocolate e peladinhas”.

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Há muito que a tradição das amêndoas cobertas faz parte do património de Moncorvo e a obra “Ilustração Transmontana”, de 1908, já documentava a atividade das “cobrideiras”, nome dado às produtoras destas especialidades. Antes ainda, em 1886, a amêndoa coberta de Moncorvo tinha cruzado fronteiras e representava Portugal na Exposição Universal de Paris. Hoje, as Amêndoas Cobertas de Moncorvo figuram ainda entre as “7 Maravilhas Doces de Portugal”.

Desta mesma lista faz parte outra receita com amêndoa, a das “Cristas de Galo”, também conhecidas como Pastéis de Vila Real, Pastéis de Toucinho ou Viuvinhas que, conta a história, foram inventadas pelas monjas do Convento de Santa Clara. Outra especialidade é a Chouriça Doce de Vinhais, também com IGP, um exemplo de como a amêndoa também pode ser integrada num enchido de carne fumado.

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A sul, à origem conventual junta-se a herança mourisca, revelada nos doces finos – massa de amêndoa, recheada com doce de ovos e moldada em forma de frutos e animais -, que se pensa serem de influência árabe, dada a sua semelhança a alguns doces que se encontram no norte da África.

A qualidade da amêndoa algarvia é há muito reconhecida, o que a levou a atravessar fronteiras logo nos século XVI e XVII. Foi então que começou a ser exportada, principalmente para Inglaterra, mas a sua reputação era conhecida em vários outros destinos e consta que no mercado belga era diferenciada e cotada a preços superiores.

Na pastelaria algarvia mais requintada, incluem-se outros doces com amêndoa e longa história, como o Morgado de amêndoas típico de Portimão e Silves, o Maçapão e os Dom Rodrigo, com a particularidade de o primeiro ser” usualmente enfeitado com motivos regionais e flor de amendoeira”. Este bolo é há muito apreciado e já a infanta D. Maria de Portugal (século XV), quando casou com Alexandre Farnese, levou consigo uma compilação de receitas, das quais constava a massa de “Alcofa”, nome dado à massa com que é confecionado o Morgado de amêndoas.

Também no Algarve, as amendoeiras em flor têm sido motivo de celebração, com alguns concelhos da região – como Castro Marim e Loulé por exemplo – a animar-se com diferentes eventos que integram desde as artes à gastronomia, passando pelo teatro e a música. Estas festividades costumam realizar-se logo no início de fevereiro, já com amendoeiras em flor.