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História da floresta em Portugal, por João Paulo Ezequiel

Após a expansão natural das áreas verdes que sucedeu o último período glaciar, a história da floresta em Portugal é marcada por flutuações na dimensão da área florestal e por vagas de introdução de espécies vindas de fora. Saiba, com João Paulo Ezequiel, como mudou a nossa floresta ao longo do tempo e o que motivou estas transformações.

O fim do último período glaciar, há 12 mil anos, deu origem ao período holocénico e, com o recuo do gelo, a história da floresta em Portugal e na Península Ibérica caracterizou-se por uma longa e progressiva expansão. Esta floresta pós-glacial holocénica diversificou-se em dois grandes tipos de biomas climáticos:

  • Temperado no Norte e Centro litorais, de maior influência atlântica, onde cresceram plantas como o azevinho, o azereiro e a bétula;
  • Mediterrânico no Sul, com maior influência climática continental e mediterrânica, suportando plantas como a murta, o zambujeiro e o medronheiro.

Uma das tipologias de floresta que mais se desenvolveu foi a chamada fagosilva, onde predominavam espécies da família das fagáceas (Fagaceae), à qual pertencem os carvalhos (Quercus spp.). Foram eles que dominaram nesta fase da história da floresta em Portugal, com carvalhais, sobreirais e azinhais a crescer por todo o país, embora coexistissem com bosques de outras espécies, como os pinheiros, as bétulas e os zimbros.

O auge desta expansão deu-se entre há 8500 e 5500 anos antes do presente, desde a recuperação do período glaciar até ao Neolítico.

carvalhos destacaram-se na fase inicial da história da floresta em Portugal

Neste período, a presença humana começou a alterar a paisagem. Essa transformação reforçou-se à medida que as comunidades se fixaram e começaram a fazer queimadas para desbastar as zonas arborizadas, abrindo clareiras para a agricultura e a pastorícia.

Espécies exóticas com lugar na história da floresta em Portugal

A alteração das zonas florestais intensificou-se há cerca de 4 mil anos, com a chegada dos povos vindos do Mediterrâneo. Primeiro os Fenícios, depois os Gregos, os Cartagineses e, mais tarde, os Romanos trouxeram novas tecnologias e espécies que já tinham sido domesticadas no Crescente Fértil – o berço da agricultura.

Estas primeiras espécies estrangeiras eram, sobretudo, plantas com valor alimentar: árvores de fruto, ervas comestíveis, leguminosas e cereais, incluindo figueiras, macieiras, vinha, cenouras, coentros, melões, favas, ervilhas, trigo e centeio, entre muitas outras a que os botânicos chamam arqueófitos, distinguindo estas plantas muito antigas das espécies exóticas introduzidas mais recentemente.

Exóticas introduzidas ao longo da história da floresta em Portugal

Várias árvores que consideramos nativas, como a oliveira, o castanheiro, a amendoeira e a alfarrobeira foram introduzidas pelos povos que contactaram com os portugueses. Acabaram por ter um lugar relevante na história da floresta em Portugal.

Neste contexto, um dos impérios com maior influência na Península Ibérica foi o Romano, que trouxe à região um novo dinamismo. Com o aumento populacional e a construção de novas cidades e redes viárias, aumentaram também as atividades agrícolas e de mineração, que intensificaram a necessidade de madeira. Esta foi, assim, uma fase de pronunciada redução da floresta em Portugal.

Entre os séculos V e VIII, com as invasões bárbaras, há alguma recuperação da área florestal, nomeadamente das florestas de bétula e pinheiro em serras e montados, até porque estes povos tinham uma relação mais próxima com a floresta.

Contudo, entre 711 e 716, a história da floresta em Portugal volta a inverter-se, com a invasão muçulmana da Península Ibérica. As novas técnicas de regadio e as plantas que trouxeram (trigo-rijo, arroz, laranja-amarga, entre outras), juntamente com o aumento da transumância (deslocação sazonal de rebanhos entre zonas baixas no verão e zonas altas no inverno), levaram a um novo aumento da área agrícola às custas da floresta.

Adicionalmente, os muçulmanos dedicaram-se à construção naval, sobretudo no Sul, com maior consumo das espécies florestais mais comuns nesta zona, como o sobreiro e o pinheiro-manso.

Reconquista e Descobertas acentuam carência de madeira

A Reconquista de Portugal voltou a imprimir dinamismo ao território: com o crescimento populacional, a fundação de novas cidades e o aumento da área agrícola, iniciou-se um novo período de declínio na história da floresta em Portugal, com a devastação a chegar ao Norte e o desaparecimento quase total das florestas que, até então, permaneciam intocadas.

Entre os séculos X e XIII, a carência de materiais lenhosos tornou-se notória, como comprovam as importações de madeira da Flandres e a plantação de alguns pinhais litorais – como o Pinhal de Leiria – que, apesar de terem outras funções, ajudaram a suprir as necessidades de madeira.

Neste período medieval começaram a evidenciar-se outras transformações, nomeadamente na estrutura dos solos e das espécies. Entre as causas, destacam-se as queimadas muito extensas que, além de desarborizarem serras inteiras, tiveram outras consequências:

  • Redução e, em alguns casos, desaparecimento de árvores caducifólias nativas, que foram gradualmente substituídas por espécies de árvores de folha perene e esclerófila (mais adaptada ao calor e à secura), assim como por matos pirófitos (mais tolerantes aos regimes do fogo).
  • Aumento da pobreza dos solos, que se tornaram mais delgados e menos férteis.

O período que se seguiu não foi melhor para a floresta em Portugal. Com os Descobrimentos, a necessidade de madeira foi-se intensificando à medida que mais e maiores navios foram construídos. No século XVI, Portugal tinha a maior marinha do mundo e os navios com maior capacidade de carga, exigindo mais madeira quando esta já era escassa.

Pico de consumo de madeira nos Descobrimentos

Para se ter uma ideia, João Paulo Ezequiel dá o exemplo da nau Madre de Deus, que fazia a carreira das Índias: construída em Lisboa em 1589, tinha 50 metros de comprimento, sete conveses de altura e capacidade para 1600 toneladas. A construção de uma nau desta dimensão podia implicar entre duas mil a quatro mil árvores. Castanheiro, sobreiro, azinheira e vários outros carvalhos eram usados, pela sua solidez, para a parte estrutural destes navios, enquanto as madeiras mais flexíveis, como o pinheiro-bravo e o pinheiro-de-casquinha, eram procuradas para mastros, vergas e outras peças mais expostas à força dos ventos.

Embora os Descobrimentos tenham permitido acesso às madeiras de outros territórios – da Madeira, África Ocidental, Índia e Brasil –, as reservas nacionais continuaram a esgotar-se. A procura era de tal forma elevada que levou à promulgação da Lei das Árvores, em 1565. Mesmo assim, entre 1636 e 1845, a floresta reduziu-se à sua área mínima: apenas 4% do território continental (atualmente ronda os 36%).

Apesar desta redução intensa marcar a história da floresta em Portugal durante os Descobrimentos, a expansão marítima trouxe inúmeras espécies novas (neófitos, em oposição aos referidos arqueófitos): cravinho, gengibre, batata, abóbora, tomate, milho, feijão e laranja-doce são exemplos de plantas que ainda hoje se mantêm na alimentação dos portugueses. Também novas espécies florestais foram introduzidas: cedro-do-Buçaco, bordo-negundo, carvalho-americano, abeto-de-Douglas, eucalipto e criptoméria são exemplos.

Pelas aplicações das suas madeiras, o eucalipto e a criptoméria continuaram a ser muito plantadas, contribuindo para o crescimento da floresta que temos no século XXI: o eucalipto principalmente no território continental e a criptoméria nos Açores.

A atividade humana – uso do fogo, agricultura e pecuária – levou à redução da floresta nativa, mas as novas espécies trazidas de fora também moldaram a nossa paisagem. E sempre que houve crescimento económico e populacional, a floresta reduziu-se, quer pelo maior consumo de madeira, quer pela ampliação das áreas agrícolas. A construção naval contribuiu para esta destruição do coberto florestal. Na fase final dos Descobrimentos, a floresta estava reduzida a 4% do território.

Sobre o Formador

João Paulo Ezequiel é curador da Quinta de São Francisco, em Eixo, Aveiro, um espaço que alberga o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel e onde é responsável pela gestão, conservação e divulgação desta Quinta e do seu arboreto único a nível europeu. É também coordenador técnico-científico do projeto educativo Floresta do Saber.

Doutorado em Biologia pela Universidade de Aveiro (UA), na área da Fotofisiologia, é autor de mais de 40 publicações científicas em ecofisiologia, botânica e divulgação científica.

Anteriormente, foi colaborador do Real Jardín Botánico de Madrid (Flora Ibérica) e do Herbário da UA, onde participou em projetos como o Plano de Requalificação da Mata Nacional do Buçaco e a candidatura do Arquipélago das Berlengas a Reserva da Biosfera da UNESCO.