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Espécies Florestais

Zimbros: um grupo de espécies rústicas a preservar em Portugal

As árvores e arbustos a que chamamos zimbros, todas elas do género Juniperus, são espécies pouco exigentes, que vingam onde outras plantas não conseguem crescer. Apesar desta característica, que permite encontrar zimbros um pouco por todo o mundo, algumas das sete espécies que existem em Portugal são raras. Conheça-as neste artigo em colaboração com Pedro Augusto Barcik.

Quando falamos de zimbros, estamos a referir-nos a um grupo de espécies do género Juniperus, com uma vasta área de distribuição: encontram-se um pouco por todo o mundo, inclusive em locais com condições adversas ao crescimento vegetal, como dunas, solos arenosos, encostas rochosas e áreas de montanha.

Quase tão vastas como o número de espécies, são as aplicações dos diferentes zimbros. São procurados para fins ornamentais, pelo aproveitamento da sua madeira ou pela versatilidade das bagas e folhas, usadas em áreas que vão da gastronomia à perfumaria.

O género Juniperus faz parte da família das cupressáceas (Cupressaceae), que inclui ciprestes (Cupressus spp.), falsos-ciprestes (Chamaecyparis spp.), tuias (Thuja spp.), criptomérias (Cryptomeria japonica) e sequoias (Sequoia sempervirens, Sequoiadendron giganteum e Metasequoia glyptostroboides), entre outras espécies.

Uma das características distintivas dos zimbros em relação à restante família são os seus frutos, em forma de pequenas pinhas arredondadas, com várias escamas carnudas que protegem as sementes. Chamados gálbulas ou gálbulos, estes falsos frutos são conhecidos como “bagas de zimbro”. As “bagas” passam por um processo de maturação que transforma a cor das suas escamas, dos verdes iniciais para vermelhos e alaranjados ou azuis, conforme a espécie.

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Gráfico Zimbro

A semelhança das pequenas pinhas dos zimbros às bagas carnudas é uma característica adaptativa que lhe traz vantagens de dispersão: os pássaros que se alimentam de frutos (aves frugívoras) engolem os gálbulos inteiros, digerem a parte carnuda e transportam as sementes que, devido à casca endurecida, não são danificadas no percurso pelo tubo digestivo. Há também outros animais que as consomem, transportam e devolvem à terra, ajudando estas espécies a ultrapassar barreiras naturais, inclusive o mar.

Há espécies de zimbros que têm flores femininas e masculinas numa mesma planta (monoicas) e outras em que cada planta tem apenas flores masculinas ou femininas (dioicas). Todas têm, no entanto, folhagem perene. Isto significa que vão perdendo as suas folhas aos poucos, mas mantêm a copa durante todo o ano (ao contrário das espécies caducifólias, que perdem todas as suas folhas nos meses de inverno).

Já o formato das folhas difere entre espécies: em alguns casos são pontiagudas (forma acicular) e noutros apresentam-se organizadas em escamas. Esta diferença ajuda a distinguir duas das três secções principais em que o género Juniper é tradicionalmente dividido: a secção Juniperus, que integra as espécies de folha acicular (como o zimbro-comum – Juniperus communis) e a secção Sabina, que agrupa as espécies com folhas em forma de escama, semelhantes às dos ciprestes (como a sabina-da-praia – Juniperus sabina). A terceira secção, denominada Caryocedrus, possui apenas a espécie Juniperus drupacea que não difere significativamente da primeira (Juniperus), sendo tratada como uma sua subsecção.

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Zimbro-comum (Juniperus communis)

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Sabina-da-praia (Juniperus sabina)

Na família das cupressáceas (Cupressaceae), o género Juniperus a que pertencem os zimbros é o que inclui o maior número de espécies, entre cerca de 50 a perto de 70, dependendo dos autores. Esta disparidade de números deve-se ao facto de a tecnologia de sequenciação de ADN providenciar dados que apontam para a existência de espécies cuja forma e características não se distinguem, mas que apresentam diferenças ao nível molecular (designam-se como espécies crípticas).

7 zimbros em Portugal: do território continental às ilhas da Madeira e Açores

Os zimbros distribuem-se principalmente no hemisfério norte e apenas uma espécie tem distribuição abaixo do equador, a Juniperus procera, nativa da África Oriental e Península Arábica. Em Portugal, ocorrem naturalmente sete espécies, nem todas conhecidas como zimbros: quatro no continente, duas na Madeira e uma nos Açores:

– Zimbro-comum (Juniperus communis), cedro-de-Espanha (J. oxycedrus), piorro (J. navicularis) e sabina-da-praia (J. turbinata subsp. turbinata) em Portugal continental;
– Cedro-da-Madeira (J. cedrus) e zimbreiro (J. turbinata subsp. canariensis) na Madeira.
– Cedro-das-ilhas (J. brevifolia) nos Açores.

1 – Zimbro-comum, zimbro-rasteiro ou zimbro-anão

O Juniperus communis, conhecido como zimbro-comum ou zimbro-anão, é a espécie mais comum de zimbro em todo o mundo e a que possui a maior distribuição de todas as coníferas europeias. Pode ser encontrado um pouco por todo o hemisfério norte – América do Norte, Europa e Ásia – e é não só a espécie de zimbro que ocorre mais a norte do planeta, mas também uma das espécies de coníferas que se encontra mais a norte.

É uma espécie típica de solos pobres, tolerante à seca e ao frio, assim como a solos arenosos, ácidos ou calcários. Pode crescer até aos 15 metros de altura, mas é frequentemente um arbusto. As folhas em forma de agulha (secção Juniperus) são rígidas e têm uma linha esbranquiçada de estomas na página superior. As sua “bagas”, inicialmente verdes, vão mudando de cor ao longo de dois a três anos, tornando-se azuis-escuras e, finalmente, pretas, quando maduras. Estes gálbulos têm propriedades medicinais e são usados tradicionalmente como condimento em pratos de caça e na aromatização e produção de bebidas, entre elas o gin. Deles e das folhas extrai-se óleo essencial.

O zimbro-anão ou zimbro-rasteiro ocorre naturalmente em áreas acima dos mil metros de altitude, na Serra da Estrela e do Gerês, sob a forma de arbusto rasteiro. O seu aspeto achatado está relacionado com as condições climáticas que tem de suportar: ventos fortes e temperaturas negativas, com ocorrência de neve. Nestas zonas montanhosas de Portugal continental podem ser encontradas duas espécies subarbustivas: Juniperus communis subsp. alpina e Juniperus comunis subsp. hemisphaerica.

Áreas em que é possível observar Juniperus communis em matagais rasteiros de alta montanha, entre os 890 e os 1990 metros de altitude.

Mapa adaptado de “Guia da Flora de Portugal Continental, Tomo I, Parte I”, de André Carapeto, Paulo Pereira e Miguel Porto, Ed. Imprensa Nacional.

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Juniperus communis
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Juniperus communis © Pedro Arsénio

2. Oxicedro, cedro-de-Espanha, zimbro-galego ou zimbro-bravo

O Juniperus oxycedrus é conhecido por vários nomes vulgares: oxicedro, cedro-de-Espanha, zimbro-galego ou zimbro-bravo. É um arbusto ou árvore pequena, que pode chegar aos 14 metros de altura, muito usada para fins ornamentais.

O oxicedro tem árvores masculinas e femininas (espécie dióica) e os seus falsos frutos vão ficando vermelhos-escuros ou acastanhados à medida que amadurecem. Deles – tal como das folhas – extrai-se um óleo com vastas aplicações cosméticas e medicinais.

Esta é uma espécie nativa da zona mediterrânica, Mar Negro e Médio Oriente. Cresce em zonas costeiras de áreas mais secas, mas pode ser também encontrada em zonas mais húmidas de floresta, em altitudes mais elevadas. Este zimbro é resistente ao frio, à secura e a solos pobres em nutrientes. Em Portugal continental é natural do interior norte e centro, principalmente na região Nordeste de Trás-os-Montes.

Áreas em que é possível observar Juniperus oxycedrus: matagais e bosques perenifólios, entre os 120 e os 700 metros de altitude.

Mapa adaptado de “Guia da Flora de Portugal Continental, Tomo I, Parte I”, de André Carapeto, Paulo Pereira e Miguel Porto, Ed. Imprensa Nacional.

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Juniperus oxycedrus
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3. Piorro ou zimbro-das-areias

O piorro, Juniperus navicularis, é uma espécie muito semelhante ao Juniperu oxycedrus, sendo até considerada como sua subespécie (Juniperus oxycedrus subsp. transtagana).

Normalmente é um arbusto, mas pode crescer como pequena árvore com até seis metros de altura. É uma espécie exclusiva das areias litorais do centro e sudoeste, encontrando-se a sua distribuição restrita à região em torno do estuário do Sado e da península de Setúbal, além de alguns núcleos isolados na zona de Lavos e no sudoeste e sul de Espanha. Ao contrário das anteriores espécies, esta é um endemismo ibérico, ou seja, só existe naturalmente nos territórios português e espanhol.

Sendo uma planta exclusiva de dunas, tem capacidade para suportar temperaturas elevadas, falta de água e solos pobres. Este habitat dunar está na origem do outro nome pelo qual também é conhecido: zimbro-das-areias.

Áreas em que é possível observar Juniperus navicularis: matagais, entre os 10 e os 80 metros de altitude.

Mapa adaptado de “Guia da Flora de Portugal Continental, Tomo I, Parte I”, de André Carapeto, Paulo Pereira e Miguel Porto, Ed. Imprensa Nacional.

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Juniperus navicularis
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Juniperus navicularis © Pedro Arsénio

4. Sabina-da-praia

A sabina-da-praia (J. turbinata subsp. turbinata) é um arbusto ou uma pequena árvore, que pode chegar aos oito metros de altura. Representante da secção Sabina, esta espécie é muito semelhante ao Juniperus phoenicea, pelo que tem sido considerada como sua subespécie: J. phoenicea subsp. turbinata. No entanto, estudos de ADN demonstraram que existem diferenças genéticas entre elas, o que apoia o reconhecimento da sabina-da-praia como uma nova espécie: J. turbinata.

A sua distribuição faz-se pela região mediterrânica e em Portugal ocorre de forma espontânea em matagais de dunas, arribas litorais e encostas rochosas no litoral a sul do Cabo Mondego. Na Mata Nacional dos Medos pode ser encontrada associada ao pinheiro-manso.

Áreas em que é possível observar Juniperus turbinata, até aos 290 metros de altitude.

Mapa adaptado de “Guia da Flora de Portugal Continental, Tomo I, Parte I”, de André Carapeto, Paulo Pereira e Miguel Porto, Ed. Imprensa Nacional.

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Juniperus turbinata
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Juniperus turbinata © Pedro Arsénio

5. Cedro-da-Madeira ou cedro-das-Canárias

O cedro-da-Madeira (Juniperus cedrus ou J. cedrus subsp. maderensis) ou cedro-das-Canárias só existe (é endémica) nas ilhas que lhes dão estes nomes comuns e encontra-se atualmente listado como Em Perigo (EN) na Lista Vermelha da IUCN – União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais.

Esta era uma espécie comum na floresta Laurissilva, principalmente em locais secos e rochosos, com altitudes acima dos 1800 metros, e têm existido esforços para a sua regeneração, embora sem muito sucesso, principalmente devido à pastagem por cabras.

Juniperus cedrus
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Juniperus cedrus

Este zimbro é normalmente um arbusto, mas que pode crescer como pequena árvore. As suas folhas são pequenas e em forma de agulha. As gálbulas têm uma cor acastanhada ou avermelhada quando maduras. Cada planta tem apenas flores masculinas ou femininas (espécie dióica).

6. Zimbreiro

A outra espécie de zimbro presente na Madeira é o zimbreiro (J. turbinata subsp. Canariensis).

Com folhas semelhantes a escamas (secção Sabina), o zimbreiro é também um arbusto da vegetação da Macaronésica, pelo que pode ser encontrado também nas Canárias. Na Madeira, aparece na série de vegetação do chamado matagal do marmulano (Sideroxylon mirmulans), em solos pouco profundos, expostos aos ventos húmidos.

Juniperus turbinata

Juniperus turbinata subsp. Canariensis.

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Zimbreiro fustigado pelo vento nas Canárias.

7. Cedro-das-ilhas ou cedro-do-mato

Nos Açores existe apenas uma espécie endémica, o cedro-das-ilhas ou cedro-do-mato (Juniperus brevifolia). É típica de zonas de matos costeiros ou de florestas de montanha, entre os 500 e os 1500 metros de altitude.

Por ser encontrado em zonas tão elevadas, o cedro-do-mato é uma das plantas das florestas-de-nuvens nativas, o nome dado às florestas húmidas naturais de altitude.

Hoje, no entanto, restam poucas das suas populações originais, o que levou à sua inclusão na Lista Vermelha da IUCN, como uma espécie Vulnerável (VU).

Apesar de raros, nas áreas de florestas altas mais húmidas, em que existe um encharcamento permanente do solo, formam-se comunidades típicas de zimbrais de cedro-das-ilhas com turfeiras. Encontram-se, por exemplo, na Ilha das Flores.

Este zimbro é uma árvore pequena, de copa alargada, tronco retorcido e folhas de pequena dimensão (cerca de 6 mm) agrupadas de forma compacta. Os falsos frutos passam de verdes a castanho-cobre quando maduros.

A sua madeira era muito apreciada, o que levou ao corte dos zimbros mais altos.

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Juniperus brevifolia, na ilha das Flores © Cristina Marques

Zimbros em habitats com interesse para a conservação

Várias espécies de zimbro estão integradas em habitats naturais de interesse comunitário para a conservação, constantes do Anexo I da Diretiva Habitats:

– são as espécies dominantes no habitat 2250* – Dunas litorais com Juniperus spp . Nestas zonas de dunas, podem ser encontradas comunidades arbustivas dominadas por sabina-da-praia (Juniperus turbinata subsp. turbinata) ou piorro (J. navicularis). Estes zimbrais litorais podem ocorrer desde a Figueira da Foz até à costa Sul do Algarve, tendo a sua área diminuído por pressão agrícola, florestal, turística e urbanística. Existem algumas áreas bem conservadas na costa de Peniche, Sintra e Tróia, Costa Vicentina e bacia do rio Sado.

– estão incluídos no habitat 5210 – Matagais arborescentes de Juniperus spp. Estas comunidades estão divididas em matagais arborescentes de Juniperus oxycedrus; zimbrais-carrascais de J. turbinata subsp. turbinata sobre solos calcários e matagais arborescentes de J. turbinata subsp. turbinata sobre silicatos. Os zimbrais de sabina-da-praia (J. turbinata) podem ocorrer ao longo da costa, em serras como a Boa Viagem e Monchique e ao longo do rio Guadiana e Douro. Os zimbrais arbustivos de oxicedro (Juniperus oxycedrus) podem ocorrer nos desfiladeiros estreitos e encaixados, cavados por cursos de água (chamados canhão dos rios). Neste caso, podem ocorrer nos canhões do rio Tejo (como é o caso da população existente nas Portas de Ródão), do rio Douro e de afluentes a montante do rio Tua.

– integram o habitat 9560* – Florestas endémicas de Juniperus spp. Estes bosques mistos com carvalhos (Quercus sp.) podem incluir Juniperis oxycedrus e J. turbinata. As áreas remanescentes são de pequena dimensão e localizadas em vales estreitos, encostas declivosas pouco acessíveis ou zonas agrícolas abandonadas. Os bosquetes com Juniperis oxycedrus, azinhais-zimbrais e sobreirais-zimbrais, podem ser encontrados no vale do Douro e afluentes a leste do Tua, no vale do Tejo e campina de Idanha. Os azinhais-sabinais de J. turbinata encontram-se no Barrocal algarvio não litoral.

Sabia que...

• O nome do género, Juniperus, deriva de características dos zimbros. A sua origem pode estar na expressão celta ieneprus (áspero, rude), devido às folhas aciculares de várias espécies que terminam em espinhos ou então no latim iunio (jovem) e parere (produzir), pois estas espécies produzem frutos novos enquanto os de anos anteriores amadurecem.

• Existem vários zimbros com interesse ornamental. Nos jardins são muito usados Juniperus x media e Juniperus squamata. Também o oxicedro (Juniperus oxycedrus) é outra espécie cultivada com interesse ornamental.

• Na altura da descoberta da ilha da Madeira, a vegetação era muito mais abundante. A madeira das suas florestas foi amplamente usada na construção e o cedro-da-madeira não foi exceção. Um alvará do rei D. João II, em 1493, restringe o seu corte. Pelas qualidades da sua madeira – aromática e de cor amarelado-dourada ou avermelhada – continuou a ser muito utilizado em carpintaria e em marcenaria nalguns edifícios históricos do Funchal, incluindo a Sé Catedral. Existem referências a bosquetes de cedro-da-Madeira nos finais do século XIX, mas em meados do século XX estavam praticamente desaparecidos.

• O zimbro tem uma história milenar de uso medicinal: pensava-se que era uma cura para todos os males. Os antigos egípcios, árabes e outros povos nativos das regiões onde o zimbro cresce naturalmente utilizavam as folhas e “bagas” em infusões, tinturas e extratos contra diversas doenças. Na obra História Natural, Plínio, o Velho, já mencionava o zimbro, enquanto Aristóteles alegava que a planta era propícia para uma boa saúde. Na época da peste negra, queimavam-se as “bagas” e folhas do zimbro para purificar o ar.

• Os óleos voláteis encontrados nas “bagas” e folhas atuam como irritantes, estimulando a filtração renal e excreção. Por isso, é utilizado como diurético para tratar condições que envolvem os rins e a bexiga. Quando são comidas cruas, as “bagas” estimulam o apetite, facilitam a digestão e servem como remédio tradicional contra o reumatismo e artrite.

*Artigo em colaboração

Pedro Augusto Barcik

Pedro Augusto Barcik é aluno da licenciatura em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais no ISA – Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa.

Atualmente faz parte da APEF – Associação Portuguesa de Estudantes Florestais e é o diretor da revista oficial da associação, a Quercínea.