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Um clima em mudança: aumento da temperatura e fenómenos extremos, por Ricardo Trigo

Praticamente ninguém sabe dizer qual foi a temperatura que tivemos há 10 ou há 20 anos, mas muitos sabemos que, num dado ano, houve uma onda de calor, um incêndio ou inundação fora do comum. Temos tendência a memorizar apenas os fenómenos extremos, refere Ricardo Trigo, mas estas anomalias são um sinal claro do aquecimento da temperatura promovido pela ação humana.

A temperatura média do planeta, associada às atividades humanas, está a aumentar há mais de 50 anos, mas são os fenómenos extremos que tornam mais evidentes os efeitos das alterações climáticas para as pessoas, a saúde pública, os ecossistemas e as infraestruturas.

A década mais quente registada desde 1850 verificou-se nos últimos 10 anos (2015 – 2025) e 2023, 2024, 2025 estiveram já acima da anomalia de 1,5 oC, o limite de segurança assumido no Acordo de Paris.

Este número esconde diferenças importantes, porque a média não se distribui uniformemente pelos diferentes subsistemas da Terra: os continentes aquecem mais rapidamente do que os oceanos, a Europa aquece acima da média mundial e regiões como a Península Ibérica estão particularmente expostas a fenómenos extremos, principalmente de calor e seca, associados a incêndios, mas também de precipitação intensa.

Um seminário com Ricardo Trigo sobre aquecimento e extremos climáticos

“Verificamos que a Europa está a aquecer a uma taxa superior à do resto do planeta, o que significa que é preciso ter cuidado com aqueles valores que sumarizam de uma forma muito sintética, mas pouco esclarecida, 1,5 ou 2 oC de aquecimento. Estes números dizem muito, mas na verdade dizem muito pouco, porque a Europa já aqueceu mais de 2 oC e Portugal também.”

Compreender os extremos climáticos e a sua dependência do aumento da temperatura é essencial para reduzir emissões de gases com efeito de estufa e preparar sociedades mais resilientes. Em Portugal, isto também significa olhar para o calor, a seca, o fogo e a chuva intensa como riscos interligados, que exigem respostas integradas e baseadas em ciência.

Fenómenos extremos: o que muda quando a temperatura sobe?

À medida que a distribuição das temperaturas se desloca para valores mais elevados, acontecimentos que antes eram raros tornam-se mais frequentes. Ao mesmo tempo, começam a surgir episódios que praticamente não existiam no clima observado durante o século XX, como as anomalias de temperatura muito elevada, antes excecionais, e hoje mais prováveis.

Extremos climáticos: o que muda quando a temperatura sobe?

A onda de calor de 2003 na Europa Ocidental foi um marco: provocou cerca 50 mil mortes excesso na Europa. Desde então, que melhoraram os sistemas de saúde, os lares, a previsão meteorológica e os planos de prevenção, o que ajudou a reduzir a mortalidade associada a estes fenómenos extremos que, entretanto, se repetiram.

Mais recentemente, a sucessão de verões muito quentes na Europa em 2018, 2021, 2022 e 2023 confirmam que as ondas de calor intensas já não são acontecimentos isolados e que, no futuro, alguns destes verões poderão tornar-se relativamente banais, enquanto novos fenómenos extremos de calor mais severos poderão ocorrer.

Em paralelo, a pluviosidade extrema mais frequente também está diretamente relacionada com o aumento da temperatura.

Secas, calor e incêndios: quando os extremos se combinam

Na Península Ibérica e na bacia do Mediterrâneo, os incêndios de grande dimensão e intensidade são um dos efeitos mais preocupantes das alterações climáticas. Na sua origem estão, normalmente, causas compostas: secas prolongadas favorecem ondas de calor e a combinação de seca, calor, vegetação abundante sob stress hídrico (facilmente combustível), ignições e vento favorecem focos e propagação.

Portugal conhece bem esta realidade. Em 2003, a área ardida atingiu valores considerados excecionais, num verão marcado por calor extremo. Em 2005, uma grande seca voltou a criar condições críticas. Em 2017, os incêndios de junho e outubro mostraram de forma dramática como diferentes mecanismos podem convergir: seca prolongada, vegetação extremamente seca, ventos muito fortes associados ao furacão Ofélia e um número elevado de ignições, atípico para aquela altura do ano.

O caso de outubro de 2017 é particularmente importante porque mostra a natureza composta destes fenómenos extremos. Foi a combinação de vários fatores que levou a uma situação excecional de perigosidade.

Quando os extremos se combinam: seca, calor e incêndios

As secas estão a tornar-se mais preocupantes. Porquê?

Durante muito tempo, as secas foram vistas  como períodos de falta de precipitação. Hoje, essa leitura é insuficiente. Num clima mais quente, a evapotranspiração (evaporação e transpiração) das plantas aumenta e a água perde-se mais rapidamente dos solos e das superfícies. Por isso, o impacte de um período sem chuva será tanto mais grave consoante as temperaturas forem mais elevadas.

Na Península Ibérica, as principais secas das últimas décadas caracterizam-se precisamente por combinarem falta de precipitação com temperatura mais alta. Secas como as de 2005 e 2012 surgem entre as mais relevantes em séries históricas longas, e os cenários climáticos apontam para uma tendência de aumento da duração média das secas no Mediterrâneo ao longo do século XXI.

Secas tornam-se mais preocupantes. Saiba porquê com Ricardo Trigo

Mesmo em cenários intermédios de emissões, a duração média das secas poderá aumentar de forma significativa até ao final do século, prologando-se por vários meses em grande parte da região mediterrânica. Em resultado aumenta o stress da vegetação e o risco de incêndios rurais.

As condições meteorológicas não são uma causa isolada dos incêndios. É preciso haver combustível e ignições. Em Portugal, há um dado positivo: o número médio fornecido pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas indica que as ignições diminuíram de forma expressiva, em especial depois de 2017. Esta redução está associada a maior prevenção, melhor antecipação dos dias críticos, maior capacidade de vigilância e maior consciência pública. Embora o risco climático esteja a aumentar, a ação humana a estes níveis continua a ser decisiva.

Precipitação extrema: uma atmosfera mais quente transporta mais humidade

Os fenómenos extremos não se limitam ao verão ou às ondas de calor. Nos últimos anos, Portugal tem sido afetado por episódios de precipitação muito intensa, frequentemente associados a sequências de tempestades e rios atmosféricos.

“Já havia, há 100 anos, rios atmosféricos e ciclones intensos”, refere Ricardo Trigo, explicando que, contudo, uma atmosfera mais quente consegue transportar mais vapor de água. Isto não significa necessariamente que existam mais tempestades ou mais rios atmosféricos do que no passado, mas significa que os mesmos sistemas meteorológicos podem transportar mais humidade e produzir precipitação mais intensa. Com 2 oC adicionais sobre os continentes, os sistemas transportam agora mais 20% de água.

Estamos todos cientes do que aconteceu em Portugal no mês de janeiro e fevereiro de 2026, com uma sequência de ciclones muito intensa que provocaram ventos catastróficos no centro do país e inundações a Norte e a Sul, refere, advertindo que este não é um fenómeno novo: “Há apenas três anos tivemos inundações em todo o país e também foram provocados, em grande medida, por uma sequência de tempestades muito intensas associados aos famosos rios atmosféricos”.

Os dados confirmam o aumento destes fenómenos extemos de pluviosidade: a série histórica da precipitação diária máxima anual, relativa a Lisboa, mostra que episódios com valores muito elevados de chuva em 24 horas se tornaram mais frequentes nas últimas décadas.

Chuvas extremas também decorrem do aumento da temperatura

Os rios atmosféricos são corredores aéreos estreitos que transportam a humidade e podem deslocar grandes quantidades de vapor de água desde as regiões tropicais até às latitudes médias. Quando encontram condições favoráveis, podem provocar chuva persistente e/ou muito intensa.

Junho de 2026

Sobre o Formador

Ricardo Machado Trigo é Professor Associado no Departamento de Ciências da Terra e Energia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), especialista em alterações climáticas, dinâmica da atmosfera e extremos climáticos.

Licenciou-se na FCUL (1992), completou Mestrado em Ciências Geofísicas (especialização em Meteorologia, 1966) na mesma instituição e doutorou-se em Climatologia (2000) na Universidade de East-Anglia, no Reino Unido.

Foi diretor do Laboratório Associado Instituto Dom Luiz entre 2019 e 2022. A sua investigação incide no estudo da variabilidade da circulação atmosférica e no modo como condiciona o clima regional. Tem estudado, em particular, os mecanismos associados aos extremos climáticos que mais afetam os climas mediterrânicos no contexto das alterações climáticas, nomeadamente as ondas de calor e secas (que favorecem incêndios), mas também a ocorrência de fortes ciclones (tropicais e extratropicais) que podem provocar cheias e ventos intensos.