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Árvores Monumentais

Quinta de S. Francisco: conservação e educação ambiental

A poucos quilómetros de Aveiro, há 14 hectares com uma diversidade botânica pouco comum. Falamos da Quinta de S. Francisco, onde convivem perto de 500 espécies de árvores, arbustos e pequenas plantas, que são habitat para muitos animais. Esta montra de biodiversidade contribui para fazer desta propriedade um espaço privilegiado para a educação ambiental e florestal.

A Quinta de S. Francisco não é oficialmente um jardim botânico, mas a presença de espécies dos mais variados locais do mundo faz deste espaço verde uma montra de biodiversidade, com perfil para apoiar a educação ambiental e florestal.

Situada em Eixo, num vale profundo e abrigado (conhecido localmente como Vale de Soão) a cerca de 10 quilómetros de Aveiro, a Quinta é atravessada por uma linha de água que, além de beneficiar o crescimento de bosques ribeirinhos, alimenta tanques e um lago, contribuindo para um ambiente refrescante, mesmo durante o Verão.

Esta localização corresponde à área de transição entre os bioclimas temperado (do Norte de Portugal) e mediterrânico (que caracteriza o Sul), o que promove a boa adaptação de espécies destas duas regiões e permite o crescimento de outras, incluindo de algumas das florestas boreais e tropicais.

Embora tenha estas condições naturais favoráveis à adaptação de espécies muito distintas, a diversidade de verdes que cobrem a Quinta de S. Francisco deve-se, sobretudo, à intervenção humana. Foi o antigo proprietário, Jaime de Magalhães Lima (1859-1936) que, há mais de um século, decidiu criar este refúgio de natureza. Depois de muitos anos de vida agitada – dedicada ao pensamento, à escrita e à política – quis rodear-se de exemplares de espécies que o deslumbravam. Admirador do pensamento de S. Francisco de Assis, foi ele quem rebatizou a antiga Quinta do Vale do Soão em sua homenagem.

É a Jaime de Magalhães Lima que se deve a presença de grande parte das quase 500 espécies de plantas que podem observar-se na Quinta de S. Francisco, tanto nativas, como exóticas, muitas delas vindas de longe. Esta biodiversidade florística contribui para a existência de habitats com características muito diferenciadas, que são, por sua vez, um convite para numerosas espécies animais, que ali encontram alimento, abrigo e, nalguns casos, a tranquilidade necessária para se reproduzirem.

Maiores árvores de Aveiro ficam na Quinta de S. Francisco

A Quinta de S. Francisco é gerida com um conjunto de medidas que privilegiam a conservação da biodiversidade e das muitas árvores monumentais e centenárias que ali se encontram.

Uma montra de biodiversidade para a educação ambiental

É neste enquadramento que decorrem atividades de educação ambiental e florestal.

As ações pedagógicas programadas estão abertas ao público em geral, mas são especialmente vocacionadas para grupos – de pelo menos 10 pessoas – e direcionadas a crianças e jovens, nomeadamente de estabelecimentos de ensino e a outras instituições de educação e formação (escuteiros, por exemplo, que até podem acampar). A participação requer agendamento e confirmação prévios.

Entre outras iniciativas, é possível optar por um peddy paper, pela observação de aves, por visitas guiadas, ou caminhadas por diferentes trilhos e até experimentar a plantação de árvores. Algumas atividades são temporárias ou sazonais. Além das atividades ao ar livre, há também um espaço de exposições e um laboratório para explorar outras vertentes da floresta, como a estrutura microscópica das fibras das árvores e plantas ou a biodiversidade que se esconde numa amostra de solo.

Espaço de educação ambiental na Quinta de S. Francisco
Quinta de S. Francisco: visitas de escolas

As atividades decorrem no âmbito do projeto Floresta do Saber, uma iniciativa lançada em 2021, pela mão do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, da The Navigator Company e da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi graças a este projeto que o RAIZ se tornou Membro da Rede de Associações e Clubes UNESCO.

O objetivo é complementar os currículos escolares, dando a conhecer em sala e em imersão na natureza, ao ar livre, toda a cadeia de valor da floresta e os serviços de ecossistema que ela nos proporciona, assim como a sua importância para a sustentabilidade e a bioeconomia de base florestal.

Refira-se que a Quinta de S. Francisco é um espaço privado, que pertence à The Navigator Company e acolhe o RAIZ, um dos maiores centros de investigação e desenvolvimento do sector florestal em Portugal, com cerca de uma centena de cientistas e técnicos, que trabalham em colaboração com outras entidades do Sistema Científico e Tecnológico português, como o Instituto Superior de Agronomia (ISA), da Universidade de Lisboa, a Universidade de Aveiro e a Universidade de Coimbra.

9 pontos de interesse a não perder na Quinta de S. Francisco

Uma visita de grupo à Quinta de São Francisco permite descobrir elementos inéditos ou pouco comuns em espaços florestais portugueses. Dependendo da época do ano, alguns destes pontos de interesse podem alterar-se, ao ritmo das quatro estações. Entre eles, há pelo menos nove pontos de interesse que merecem ser descobertos.

1 – A maior coleção de eucaliptos centenários da Europa

Entre 1880 e 1920 foram plantadas cerca de 90 espécies de eucaliptos (Eucalyptus spp.) na Quinta de S. Francisco. Numa altura em que este género botânico era ainda pouco conhecido em Portugal, Jaime de Magalhães Lima estava fascinado pela beleza, grandiosidade e diversidade destas espécies e quis rodear-se de vários exemplares.

Sem saber, estava a plantar aquele que é o maior arboreto de eucaliptos centenários da Europa.  A maioria das árvores tem mais de 100 anos, mas na década de 1980 foram plantadas novas espécies. Ao todo, existem mais de 170 espécies e variedades de eucalipto.

Além de muitos eucaliptos centenários, há alguns notáveis pela sua raridade e dimensão.

Entre os mais raros na sua região de distribuição natural (e em Portugal) está o Eucalyptus risdonii, uma pequena árvore nativa da Tasmânia, onde tem estatuto de proteção. As suas folhas contêm um perfume refrescante, que lembra hortelã-pimenta.

Entre os mais impressionantes pela sua dimensão está um Eucalyptus botryoides (na foto), verdadeiramente monumental, com perto de 50 metros de altura. É o maior da sua espécie no nosso país e a árvore centenária mais alta da Quinta de S. Francisco.

Quinta de S. Francisco tem a maior coleção de eucaliptos centenários da Europa

2 – As árvores mais altas do concelho de Aveiro

Sequoia com cerca de 40 metros na Quinta de S. Francisco

As árvores mais altas da Quinta de S. Francisco são também as mais altas do concelho de Aveiro. Além do já referido Eucalyptus botryoides, salientam-se:

– A maior árvore de Aveiro, um eucalipto (Eucalyptus grandis), plantado em 1984 no vale da Quinta. Tem cerca de 52 metros de altura (altura próxima da que tem o Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa);

– Uma sequoia (Sequoia sempervirens), a espécie de maior dimensão do planeta, que tem aqui quase 40 metros de altura (na foto). Encontra-se num dos núcleos de bambu;

– Várias espécies de eucalipto, como o Eucalyptus smithii, Eucalyptus ovata e Eucalyptus eugenioides, que têm os exemplares de maior dimensão no nosso país: 48, 46 e 40 metros de altura, respetivamente. No caso das duas últimas espécies, serão muito provavelmente os maiores exemplares no mundo.

– No extremo noroeste da Quinta de S. Francisco encontra-se uma corímbia (Corymbia calophylla), com mais de 35 metros de altura, que é o maior exemplar da sua espécie em Portugal;

– Um pinheiro-manso (Pinus pinea) com mais de 30 metros de altura, mais do que é habitual nesta espécie.

– Um medronheiro (Arbutos unedo) com porte de árvore, embora a espécie tenha normalmente porte arbustivo. Fica junto da antiga casa de Jaime de Magalhães Lima e possui 16 metros de altura.

3 – Espécies de árvores vindas de lugares longínquos

Ao longo dos 14 hectares da Quinta de S. Francisco, encontram-se centenas de espécies dos mais variados locais do mundo e de vários tipos de florestas. Além da variedade de eucaliptos, todos originários do outro lado do globo (da Austrália, Indonésia, Timor-Leste, Papua Nova Guiné e Filipinas) há muitas outras para observar:

– Da Austrália, a grevília ou carvalho-sedoso (Grevillea robusta), típico de florestas subtropicais e húmidas; o metrosidero (Metrosideros excelsa) que também existe naturalmente na Nova Zelândia e é inconfundível pelas suas flores vermelhas, que lembram escovilhões.

– Do Japão e China, a criptoméria (Cryptomeria japonica), típica de florestas húmidas de clima ameno (a espécie exótica mais comum nos Açores) e o bordo ou ácer-do-Japão (Acer palmatum), natural dos bosques húmidos (também na Coreia do Sul).

– Das terras altas da Europa e Sibéria, o bidoeiro (Betula pubescens), que cresce em zonas húmidas e elevadas, em florestas temperadas e boreais.

– Da América do Norte, o carvalho-americano (Quercus rubra), o tulipeiro-da-virgínia (Liriodendron tulipifera), o cipreste-de-Monterey (Cupressus macrocarpa) que vemos na foto e o ácer-prateado (Acer saccharinum), cuja seiva é a fonte do xarope de ácer.

– Da América do Sul, a tipuana (Tipuana tipu) e o jacarandá (Jacaranda mimosifolia), que brilham também nas ruas de muitas cidades, como Lisboa.

Árvores de vários locais do mundo na Quinta de S. Francisco

4 – Duas grandes manchas de bambu

Existem duas grandes áreas com bambu (Phyllostachys bambusoides), que podem ser observadas junto da vala (linha de água) que atravessa a Quinta. Este bambu teve, muito provavelmente, origem no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e foi trazido para aqui no final do século XIX.

Da família da relva, dos cereais e das canas (Poaceae), os bambus são o grupo de plantas lenhosas que se caracterizam pelo crescimento mais rápido do planeta. Em apenas alguns dias chegam a ultrapassar os 10 a 12 metros de altura e podem crescer mais de um metro a cada 24 horas.

Desenvolvem-se melhor em ambientes onde o ar tem humidade elevada, normalmente próximo de cursos de água.

Os bambus da Quinta de S. Francisco, perto de Aveiro

5 – Espécies nativas que ilustram a diversidade da floresta portuguesa

Apesar da presença de centenas de espécies exóticas, a maioria da flora da Quinta de S. Francisco é constituída por plantas autóctones.

Gilbardeiras: arbustos nativos a crescer na Quinta de S. Francisco

Gilbardeira

Nas árvores, salientam-se pinheiros-mansos, pinheiros-bravos (Pinus pinaster) e diversas espécies de carvalhos (Quercus spp.), estas últimas com vários exemplares centenários. No bosque ribeirinho (ou ripícola), encontram-se salgueiros (Salix spp.), amieiros (Alnus spp.), freixos (Fraxinus angustifolia), ulmeiros (Ulmus minor) e sabugueiros (Sambucus nigra).

Entre os arbustos, há espécies como a gilbardeira (Ruscus aculeatus), que é particularmente abundante na encosta norte do vale, graças a medidas de gestão que privilegiam a sua conservação, já que esta é uma das espécies constantes do Anexo V da Diretiva Habitats. Existem ainda folhados (Viburnum tinus), loureiros (Laurus nobilis), buxos (Buxus sempervirens) e medronheiros (Arbutus unedo), todos com exemplares notáveis de grande dimensão.

A maioria da flora herbácea é constituída pelo feto-ordinário (Pteridium aquilinum), a hera (Hedera hibernica), as silvas (Rubus spp.) e tantas outras nativas que crescem sob as árvores mais altas, mas o local onde se observa maior diversidade de plantas herbáceas são os terrenos baixos que ladeiam a linha de água: um prado com grande diversidade paisagística e florística. Também várias espécies de fetos enfeitam os taludes deste canal, como acontece com o feto-real (Osmunda regalis), o feto-negro (Asplenium adiantum-nigrum), o feto-fêmea (Athyrium filix-femina) e o Blechnum spicant.

6 – O maior inseto do país: vaca-loura

Apesar do nome, a vaca-loura (Lucanus cervus) é um inseto: uma carocha, escaravelho ou besouro, que é o maior inseto português e um dos maiores da Europa. Os machos adultos têm cerca de oito centímetros de comprimento. Quase metade desta dimensão deve-se às grandes mandíbulas, que lembram os cornos das vacas ou as hastes dos veados. Nos machos, as mandíbulas são encarniçadas. As fêmeas são mais pequenas e têm mandíbulas pretas, também muito mais pequenas.

Os adultos avistam-se mais facilmente no fim da Primavera e início do Verão, pois é normalmente entre maio e julho que os machos se enfrentam para conquistar as fêmeas. A luta decorre nas copas das árvores e é também nas fendas dos troncos das árvores mais velhas que procuram seiva para se alimentarem. Podem observar-se sobretudo em espécies de folha caduca, como os carvalhos (nativos e exóticos) e castanheiros (Castanea sativa), e nalgumas espécies típicas das margens de rios e ribeiros (espécies ripícolas).

Esta é uma espécie protegida pelo Anexo II da Diretiva Habitats e pelo Anexo III da Convenção de Berna. Em Portugal, existe sobretudo nas Regiões Centro e Norte. Na Quinta de S. Francisco, a sua presença tem vindo a aumentar graças à presença de árvores centenárias e ao trabalho de recuperação e preservação do bosque ripícola.

A vaca-loura é um dos insetos observáveis na Quinta de S. Francisco, mas muitos outros podem ser vistos, desde as inúmeras espécies de polinizadores (abelhas, borboletas, vespas e moscas), passando pelos seus predadores, como é o caso de uma das maiores libélulas europeias – o imperador-azul (Anax imperator).

Interior_8_Quinta de S. Francisco

7 – 70 espécies de aves, entre visitantes, residentes e nidificantes

Estão identificadas mais de 70 espécies de aves na Quinta de S. Francisco, 10 das quais rapinas, como a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) e o gavião (Accipiter nisus), ambas residentes.

Os eucaliptos e carvalhos de grande dimensão estão entre os locais favoritos para instalação dos seus ninhos, enquanto o vale ribeirinho e o bosque de árvores de folha caduca servem de habitat a muitos outros pássaros, como o guarda-rios (Alcedo atthis), a estrelinha-real (Regulus ignicapillus) e diversas espécies de chapins (Parus spp.).

O melro (Turdus merula), o estorninho-preto (Sturnus unicolor) e o gaio (Garrulus glandarius) também nidificam na Quinta, enquanto outras, como o andorinhão-preto (Apus apus), a cegonha (Ciconia ciconia) e o falcão-peregrino (Falco peregrinus) são vistos de passagem, à procura de alimento ou a circular nos céus.

Quinta de S. Francisco: habitat para rapinas

Um açor (Accipiter gentilis) jovem

As aves que sobrevoam a Quinta de São Francisco, perto de Aveiro

Bando de milhafres-reais (Milvus milvus)

8 – Anfíbios e répteis, incluindo espécies que só existem na Península Ibérica

Os bosques bem preservados e a presença de água em abundância, quer corrente, quer parada, formam habitats convidativos para anfíbios e répteis.

Nos anfíbios destaca-se o sapo-comum (Bufo bufo) e o tritão-de-ventre-laranja (Triturus boscai) enquanto nos répteis, o mais raro é o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi). Esta última espécie é um endemismo ibérico (só existe na Península Ibérica). Também pode ser encontrada a maior cobra da Europa, a cobra-rateira (Malpolon monspessulanus), que tem neste habitat roedores em abundância.

Apesar de não serem incomuns, alguns destes animais não são fáceis de observar e o mesmo se passa com os mamíferos que também já foram vistos na Quinta de S. Francisco, entre os quais estão raposas (Vulpes vulpes), esquilos-vermelhos (Sciurus vulgaris) e ouriços-cacheiros (Erinaceus europaeus). Já os vestígios das atividades do texugo (Meles meles) são mais fáceis de encontrar. Embora este seja um animal noturno, as suas escavações são abundantes por toda a Quinta.

Quinta de S. Francisco: fauna inclui endemismos

Lagarto-de-água

9 – Um anel de fada com mais de 100 cogumelos

Na mitologia irlandesa eram vistos como portais de passagem para o mundo das fadas e elfos, mas estes círculos de cogumelos, apesar de fascinantes de observar, não têm nada de sobrenatural.

Quinta de S. Francisco: Anel de fada

Os cogumelos (fungos) têm uma parte escondida no subsolo (semelhante a raízes, mas que são filamentos muito finos, chamados hifas), que se vão dividindo a espalhando numa rede subterrânea (o micélio). Esta rede vai-se ampliando e, por vezes, o seu crescimento forma este círculo. Quando surge a frutificação (parte que vemos à superfície, a que chamamos cogumelos), o que observamos é este intrigante anel, conhecido por anel de fada ou círculo de fadas.

Na Quinta de S. Francisco existem vários anéis de fada, mas há um particularmente interessante: começa a tornar-se visível no final do Outono (mantendo-se pelo Inverno) e reúne mais de 100 cogumelos, todos ligados à mesma rede subterrânea.

Conhecem-se cerca de 50 espécies de cogumelos que podem formar estes círculos, sendo normalmente espécies que crescem sobre zonas húmidas e ricas em matéria orgânica em decomposição (espécies saprófitas). Neste caso, é o funil-de-nuvem (Clitocybe nebularis), uma das cerca de 50 espécies de cogumelos que se podem encontrar na Quinta de S. Francisco.