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Dinâmica Rural

Quais são os princípios orientadores da agricultura regenerativa?

A agricultura regenerativa procura conciliar a produção de alimentos e a regeneração do ecossistema produtivo, mas não tem uma receita única para alcançar esse objetivo. As práticas a aplicar têm de se adaptar às condições naturais – clima, relevo, solo – e aos objetivos de cada exploração agrícola ou sistema agroflorestal. Ainda assim, existem alguns princípios orientadores da agricultura regenerativa que são referidos com frequência.

A Royal Agricultural Society of England (RASE) destaca cinco princípios orientadores, que são também focados por outras organizações, como os Climate Farmers:

 

1. Reduzir as perturbações do solo

Lavrar, gradar e realizar outras mobilizações da terra altera fisicamente a estrutura do solo. A agricultura regenerativa procura, por isso, reduzir intervenções desnecessárias, através de opções como a mobilização mínima ou a sementeira direta, sempre que sejam adequadas à cultura e ao terreno.

Esta redução não significa deixar de utilizar máquinas agrícolas, já que a mecanização continua a poder ser necessária para semear, tratar e colher. O objetivo é reduzir o número e a intensidade das passagens e evitar condições que favoreçam a compactação do solo – por exemplo, a circulação de equipamento pesado em solos excessivamente húmidos. Abordagens intermédias, como a mobilização do solo apenas nas faixas onde serão depositadas as sementes, são igualmente válidas.

No entanto, uma menor mobilização do solo não é sinónimo de um aumento de produção. Uma meta-análise publicada na revista Nature, baseada em mais de 5450 observações recolhidas em 610 estudos, concluiu que a sementeira direta, quando aplicada isoladamente, não é sinónimo de intensificação sustentável da produção.

 

2. Manter o solo coberto

Um solo sem cobertura fica mais exposto à chuva e ao vento, assim como aos respetivos efeitos erosivos, às temperaturas elevadas e à propagação de espécies indesejadas. A cobertura protege o solo e pode ser feita por plantas vivas, mas também por palha, restos de culturas ou outra matéria vegetal morta.

O principal objetivo de manter o solo coberto é protegê-lo do impacto direto da chuva e reduzir a erosão. A cobertura também ajuda a limitar a evaporação da água e as oscilações de temperatura do solo. Os benefícios podem ampliar-se à formação de matéria orgânica e à retenção da água no solo.

Uma meta-análise global publicada em 2025, baseada em 225 estudos sobre culturas de cobertura, identificou, em média, melhorias na porosidade, na estabilidade dos agregados do solo e na infiltração da água. No entanto, os resultados variaram em função do clima, do tipo de solo e das práticas de gestão adotadas.

 

Quais são os princípios orientadores da agricultura regenerativa?

 

3. Manter raízes vivas por mais tempo

Se a parte visível das plantas protege a superfície do solo, as raízes ativas no subsolo sustentam processos biológicos igualmente importantes.

Em torno das raízes encontra-se a rizosfera, uma pequena zona de intensa atividade biológica. Nesta área, as raízes libertam compostos que alimentam e influenciam as comunidades de microrganismos presentes no solo e estas, por sua vez, estão envolvidas em vários processos naturais, como é o caso da (re)ciclagem de nutrientes, da formação de agregados no solo e da sua estabilidade.

Por exemplo, manter raízes vivas e ativas durante períodos prolongados, através da utilização de culturas de cobertura entre duas culturas principais, pode prolongar estas interações benéficas com os microrganismos do solo.

 

4. Aumentar a diversidade de espécies ou culturas

Diversificar pode significar o recurso a diferentes famílias de culturas consociadas, a rotação de culturas, a pastagens temporárias, a culturas de cobertura ou a combinações destas abordagens com a integração de espécies agrícolas, arbóreas e florestais.

O objetivo é evitar que todo o sistema dependa das mesmas espécies e utilize os recursos sempre da mesma forma. A diversidade de plantas (sistemas radiculares, necessidades nutricionais e relações ecológicas distintos) contribui para ampliar as funções ecológicas e promover a utilização mais eficiente dos recursos no ecossistema produtivo.

Nas culturas de cobertura, podem combinar-se espécies destinadas à alimentação animal com outras que contribuam para a saúde do solo. É o caso das leguminosas, que favorecem a fixação biológica de azoto e ajudam a melhorar a fertilidade do sistema.

 

Quais são os princípios orientadores da agricultura regenerativa?

 

5. Integrar animais

O último dos princípios orientadores da agricultura regenerativa é a integração de animais. Esta abordagem procura reaproximar a produção vegetal e a pecuária, dois sistemas que, em muitas explorações modernas, passaram a funcionar separadamente, mas que podem gerar sinergias importantes.

Os animais podem, por exemplo, alimentar-se de culturas de cobertura, pastagens temporárias ou até de resíduos das culturas alimentares, convertendo biomassa vegetal em produtos de origem animal e devolvendo parte dos nutrientes ao solo através do estrume.

Este ciclo pode reduzir a necessidade de alguns inputs externos (como fertilizantes) e valorizar recursos que, de outro modo, teriam menor aproveitamento. Em sistemas integrados, culturas alimentares, florestais e animais podem ainda alternar no mesmo terreno ao longo do tempo, contribuindo para diversificar a produção e os fluxos de nutrientes.

A presença de animais não é uma condição obrigatória da agricultura regenerativa e os seus benefícios dependem da forma como os sistemas são geridos. Uma carga animal excessiva ou o pastoreio em solos muito húmidos podem provocar compactação e degradação do solo. Da mesma forma, as plantas jovens ou mais vulneráveis podem necessitar de proteção contra a passagem do gado (pisoteio) ou o consumo pelos animais, sobretudo durante a fase de instalação.

 

Princípios orientadores da agricultura regenerativa a aplicar caso a caso

 

Importa sublinhar que estes cinco princípios orientadores da agricultura regenerativa não constituem uma receita com resultados garantidos, nem devem ser entendidos como um conjunto de práticas adequadas a qualquer agroecossistema.

A aplicação dos princípios orientadores da agricultura regenerativa deve ser equacionada caso a caso, em diferentes combinações, e acompanhada através de indicadores que permitam medir os progressos alcançados, nomeadamente ao nível da saúde do solo e da produtividade.

Em função do contexto e da conjugação de princípios adotada, estas abordagens podem contribuir para reduzir a dependência de fatores de produção externos (como fertilizantes e pesticidas sintéticos), melhorar algumas funções do solo, aumentar a resiliência das explorações e reforçar o seu contributo para a mitigação das alterações climáticas.

Dados obtidos em estudos sobre a conjugação de agricultura e pastoreio, por exemplo, sugerem que, se todas as terras agrícolas fossem convertidas em sistemas de agricultura regenerativa, o seu potencial de sequestro de carbono seria superior ao total das emissões anuais de CO2. A nível europeu, a adoção de sistemas de agricultura regenerativa poderia, num cenário prospetivo e sujeito a incerteza, mitigar mais de 1,3 vezes as emissões do sector agrícola europeu.

Num contexto de alterações climáticas, degradação dos solos e crescente procura por sistemas alimentares resilientes, o principal desafio não será definir um conjunto de práticas agrícolas regenerativas universais, mas desenvolver métodos credíveis para avaliar as abordagens que, em diferentes contextos, conseguem ser mais eficazes a regenerar os recursos naturais dos quais depende a própria produção agrícola.

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