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Indicadores Económicos

Economia da floresta: quanto vale?

Com um volume de negócios de quase de 12,3 mil milhões de euros na indústria de base florestal e de mais de 1,2 mil milhões de euros nas empresas silvícolas em 2024, a economia da floresta tem um impacte muito significativo nas contas nacionais. De fora ficam valores não contabilizados e difíceis de mensurar, como o contributo para o turismo de natureza, a biodiversidade ou a produção de oxigénio, entre muitas outras atividades que contribuem para a economia da floresta.

A floresta é fonte de diversas atividades, matérias-primas e serviços. Como resultado, o seu contributo para a economia portuguesa é indiscutível. Embora não existam estatísticas oficiais que tracem o retrato completo da economia da floresta em todas as suas componentes, sabemos que as indústrias de base florestal – madeira, cortiça, mobiliário, e pasta, cartão e papel – somaram, em 2024, um volume de negócios de 12,28 mil milhões de euros. No mesmo ano, o volume de negócios das empresas dedicadas à silvicultura e exploração florestal ultrapassou 1,2 mil milhões de euros.

Estes números indicam que juntas, as indústrias de base florestal e as empresas da silvicultura geraram, em 2024, um volume de negócios de cerca de 13,54 mil milhões de euros, contribuindo, respetivamente, para 4,24% e 0,43% do Produto Interno Bruto nacional (PIB), ou seja, do valor de todos os bens e serviços finais produzidos em Portugal nesse ano.

De notar que, nos últimos anos e apesar de uma quebra em 2020, o volume de negócios das empresas do sector florestal tem contribuído com cerca de 10 mil milhões de euros (tendo chegado quase aos 15 mil milhões de euros em 2022) para a economia nacional, o que tem representado cerca de 5% PIB do país.

Juntas, as empresas que atuam nestas áreas foram responsáveis, em 2024, por quase 3,6 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), ou seja, do valor da atividade produtiva nacional menos os custos de produção. Mesmo com algumas variações desde 2015, ano em que o sector foi responsável por cerca de 2,2 mil milhões de euros de VAB, a atividade das industriais tem sido responsável por cerca de 90% deste total e a silvicultura pelos restantes 10%.

Isto significa também que o VAB do sector florestal foi responsável por 1,43% do VAB nacional total, um contributo ligeiramente inferior aos 1,51% de 2023, mas que permanece dentro do intervalo que se tem registado desde 2015, entre os 1,4% e os 1,6%.

Volume de negócios e Valor Acrescentado Bruto (VAB) gerado pelas empresas da indústria de base florestal e da silvicultura em Portugal (milhões de euros)

Contributo do volume de negócios das empresas da indústria de base florestal e da silvicultura no PIB nacional

Contributo do VAB das empresas da indústria de base florestal e da silvicultura no VAB nacional

Papel, mobiliário, madeira e cortiça: os pesos-pesados da economia da floresta

As indústrias de base florestal são uma componente robusta do sector e da indústria transformadora nacional. Os seus contributos para a criação de riqueza, produtividade e investimento são indispensáveis à economia da floresta e à saúde financeira de Portugal.

Com o seu volume de negócios de 12,28 mil milhões de euros, além de representarem 4,24% do PIB português de 2024, as indústrias florestais contribuíram para 9,8% do volume de negócios de toda a indústria transformadora nacional (que em 2024 se situou nos 125,441 mil milhões).

Estas indústrias representaram, nesse mesmo ano, um VAB de cerca de 3,2 mil milhões de euros (10,64% do VAB das indústrias portuguesas), em linha com o valor de 2023.

Em matéria de investimento, estas indústrias totalizaram, em 2024, mais de 774,6 milhões de euros em Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – valor correspondente a investimentos em ativos fixos usados por mais de um ano na produção de bens e serviços, como é o caso de software ou maquinaria.

Contas feitas, esta FBCF sectorial representou cerca de 11,6% do total investido pela indústria transformadora nacional em 2024, menos 100 milhões de euros relativamente a 2023. A descida deveu-se em particular ao sector da cortiça, que viu o seu investimento reduzir-se em mais de metade (de quase 90 milhões em 2023 para pouco mais de 42 milhões de euros em 2024) e ao sector do mobiliário, que também cortou o seu investimento em quase 50 milhões de euros.

Indústria da pasta e papel traz o maior contributo

O maior contributo da indústria de base florestal para a economia da floresta vem das produtoras de pasta e papel, que têm assumido a dianteira no que respeita aos principais indicadores.

Em 2024 este sector da pasta e papel foi responsável por 45,3% do volume de negócios total da indústria florestal, com transações de perto de 5,6 mil milhões de euros.

Seguiram-se, com volumes de negócio muito próximos entre si, a indústria da madeira, com quase 2,5 mil milhões de euros (20,1%), e do mobiliário (excluindo colchões), com quase 2,4 mil milhões de euros (19,6%). O contributo da cortiça ficou ligeiramente abaixo, com cerca de 1,9 mil milhões de euros (15,1%).

No que diz respeito ao VAB, a indústria da pasta e papel também assegurava o maior contributo: cerca de 1,27 mil milhões de euros em 2024, o que representava 39,7% dos mais de 3,2 mil milhões do VAB das indústrias de base florestal.

Este sector da pasta e papel registou um aumento de 140 milhões de euros de VAB face a 2023, contribuindo, juntamente com as empresas do mobiliário, para o crescimento do VAB destas indústrias da floresta. As indústrias da madeira e da cortiça tiveram uma trajetória descendente.

Também no que respeita ao investimento, as produtoras de pasta e papel tomam a dianteira e foram, aliás, as únicas a reforçar o seu FBCF. Em 2024, com 432,7 milhões de investimento, foram responsáveis por mais de metade (56%%) da FBCF da indústria de base florestal.

O sector da madeira investiu 186,9 milhões de euros (24,1%), o do mobiliário 122,8 milhões de euros (14,6%) e a indústria corticeira ficou-se pelos 42,3 milhões (5,5%).

Evolução do contributo das empresas industriais de base florestal, por indicador económico (milhões de euros)

NOTA: Foram consideradas as seguintes classes de “Indústrias transformadoras” –  Madeira: em “Indústrias da Madeira e da cortiça e suas obras, exceto mobiliário” considerou-se “Serração, aplainamento e impregnação da madeira”; “Fabricação de folheados e painéis à base de madeira”; “Parqueteria”; “Fabricação de outras obras de carpintaria para a construção”; “Fabricação de embalagens de madeira”; “Fabricação de outras obras de madeira”; “Fabricação de obras de cestaria e de espartaria”; Cortiça: em “Indústrias da Madeira e da cortiça e suas obras, exceto mobiliário” considerou-se “Indústria de preparação da cortiça”; “Fabricação de rolhas de cortiça”; “Fabricação de outros produtos de cortiça”; Pasta, papel e cartão: “Fabricação de pasta, de papel, de cartão e seus artigos”; Mobiliário exceto colchões: “Fabricação de mobiliário para escritório e comércio”; “Fabricação de mobiliário de cozinha”; “Fabricação de mobiliário para outros fins”.

Silvicultura: valor da produção acima dos 2,5 mil milhões de euros em 2023

As empresas dedicadas à silvicultura e exploração florestal contribuem, desde 2021, com volumes de negócios superiores aos mil milhões de euros para a economia da floresta, mas as estatísticas oficiais – as Contas da Floresta – apresentam montantes superiores, por contabilizarem outros tipo de valores, como, por exemplo, o relativo à madeira em crescimento nos povoamentos florestais.

Note-se que, em dezembro de 2025, o INE publicou a primeira edição das Contas da Floresta, que substituem as anteriores Contas Económicas da Silvicultura, mas que apresentam novas metodologias e fontes de informação, não sendo por isso comparáveis. Nesta primeira edição, que revê a série de dados entre 2015 e 2023, as Contas da Floresta revelam que, neste último ano, o valor total da produção da silvicultura e exploração florestal ultrapassou os 2,5 mil milhões de euros.

A “Produção de bens silvícolas”, onde se incluem a madeira, a cortiça e outros produtos não lenhosos silvestres, foi a vertente responsável pela maior parte do total: mais de 2 mil milhões de euros. A “Produção de Serviços Silvícolas e de Exploração Florestal” e as outras “Atividades Secundárias” contribuíram com cerca de 447 milhões de euros em 2023.

De acordo com o mesmo documento, o peso relativo do VAB das atividades silvícolas na economia nacional manteve-se em 0,5%. Este é um contributo semelhante ao registado em 2022 – o último ano com dados disponíveis para os Estados-membros da União Europeia – e que coloca Portugal em 6.º lugar no “pelotão” europeu no que diz respeito ao peso da silvicultura para as contas de cada país.

Apesar de estar longe de países, como a Finlândia, cujo peso relativo do VAB da silvicultura no VAB da economia ronda os 2%, a verdade é que Portugal supera outras nações da Europa com grandes áreas florestais, como França, Itália e Alemanha, que têm contributos do sector florestal inferiores a 0,2% do VAB.

Evolução dos indicadores centrais da silvicultura (milhões de euros)

Evolução do valor da produção da silvicultura, por área  (milhões de euros)

Fonte (comum aos dois gráficos): INE – Contas da Floresta (valores a preços correntes). Dados de 2023 provisórios.

Os mais de 2,5 mil milhões de euros resultantes da produção silvícola e exploração florestal em 2023 superam em quase 134 milhões de euros o montante do ano anterior (2,32 mil milhões de euros em 2022), sendo o maior valor alcançado desde 2015.

A maior “fatia” deste total vem do subsector Produção de Bens Silvícolas, para o qual contribuíram principalmente:

  • o crescimento líquido da madeira – que inclui o valor das árvores florestais vivas, das sementes florestais e dos povoamentos florestais, num total de 750 milhões de euros (30% do valor);
  • a madeira das árvores de espécies folhosas – que representaram 556 milhões de euros (22% do total);
  • os produtos não lenhosos silvestres – que equivaleram a 508,6 milhões de euros (20% do total), 226 milhões dos quais provenientes da cortiça.

Em 2023, as Contas da Floresta indicam que o investimento realizado pela atividade silvícola se situou nos 108 milhões de euros, invertendo a trajetória de descida verificada entre 2019 e 2022. O acréscimo de 2023 deveu-se ao aumento do investimento em máquinas e equipamento, que passou de 32,4 milhões de euros em 2022 para 45,3 milhões de euros em 2023. Outra parte substancial do investimento efetuado, num total superior a 40 milhões de euros (37,6% do total), foi feito em florestação e reflorestação.

O valor “invisível” da economia da floresta

A riqueza gerada diretamente pelas indústrias de base florestal e pela silvicultura é só uma pequena parte do valor da economia da floresta. Os números deixam de fora vários contributos, como por exemplo o dos frutos de casca rija e de outros produtos florestais não lenhosos – como a castanha, o pinhão, o mel ou as plantas aromáticas e medicinais – assim como o dos novos produtos criados a partir de fibras florestais nas biorrefinarias emergentes e o das atividades de caça e pesca em zonas florestais.

Para se ter uma ideia, só a cultura de frutos de casca rija equivaleu, em 2024, a mais de 101 milhões de euros de volume de negócios (em 2023 tinham representado 82 milhões de euros) e as atividades relacionadas com a caça e repovoamento cinegético ultrapassaram os 9,7 milhões (tinham ultrapassado também os 9 milhões em 2023), de acordo com dados do INE.

Fora destas contas da economia da floresta convencional ficam também os contributos mais difíceis de quantificar como o do oxigénio que respiramos, do carbono armazenado, da conservação da biodiversidade e paisagem, da preservação do solo e da água ou do valor da floresta como espaço de recreio, desporto e lazer.

É difícil estimar o valor destes serviços ambientais, embora eles sejam uma preocupação recorrente e histórica na silvicultura. Estas preocupações estiveram até na origem do Regime Florestal de 1901 que decretava, a propósito, “o revestimento florestal dos terrenos cuja arborização seja de utilidade pública, e conveniente ou necessária para o bom regime das águas e defesa das várzeas, para a valorização das planícies áridas e benefício do clima, ou para a fixação e conservação do solo, nas montanhas, e das areias, no litoral marítimo”.

Apesar da dificuldade em quantificar estes serviços dos ecossistemas florestais, vários trabalhos técnicos e académicos têm contribuído com projeções que estimam estes valores e o seu importante contributo para a economia da floresta. O professor de economia Américo Mendes, por exemplo, calculou que os serviços do ecossistema gerassem, em 2018, o equivalente a mais de 880 milhões de euros em Portugal.

O projeto ECOFOR.PT – Valorização Económica dos Bens e Serviços dos Ecossistemas Florestais de Portugal Continental estimou que, em 2019, bens e serviços não mercantis dos espaços florestais (como recreio, sequestro de gases com efeito de estufa, biodiversidade, recursos hídricos e solos) valiam 1,11 mil milhões de euros.