Conhecer

Faia: uma espécie florestal de montanha

A faia é uma espécie comum nas florestas europeias, sobretudo em zonas altas, e é plantada pelas múltiplas aplicações da sua madeira. Conheça esta espécie que, embora frequente no nosso território antes da última glaciação, se tornou rara ou mesmo extinta, e só voltou às zonas serranas do Norte e Centro pela mão humana, no século XIX.

A faia é uma espécie habitual nas florestas da Europa Central. É uma árvore característica de montanha, que esteve presente no nosso país, mas se extinguiu há milhares de anos, tendo sido reintroduzida pelos antigos Serviços Florestais durante a florestação da serra do Gerês e noutras serras do Norte e Centro, desde o século XIX.

Também conhecida como faia-europeia, a Fagus sylvatica pertence ao género Fagus, família das Fagáceas, que integra também os carvalhos e o castanheiro. O seu nome científico Fagus deriva do grego phagos, que significa comer (e designava também um tipo de carvalho), o que pode estar relacionado com os seus frutos e folhas jovens comestíveis.

A faia é uma espécie de folha caduca, com uma copa ampla e que pode crescer até aos 30 a 40 metros de altura. A sua casca tende a ser lisa e de tom cinza-claro. As folhas, entre o oval e o elíptico, são verde-claras quando jovens e a sua cor vai-se intensificando até ganharem um amarelo intenso no outono e, depois, um castanho-avermelhado antes de caírem.

Nesta espécie, uma mesma árvore tem flores femininas e masculinas (sendo, por isso, designada como uma espécie monoica). As flores masculinas, que aparecem entre abril e maio, estão agrupadas em pequenos cachos (chamados amentilhos) de cor amarelada, dispersos ao longo dos galhos. As flores femininas nascem em conjuntos de duas ou três, dentro de uma cúpula esverdeada e espinhosa.

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A partir de junho – julho surgem os frutos, um género de nozes castanhas lustrosas, normalmente organizadas em grupos de uma a três e protegidas por uma cúpula espinhosa que se abre em setembro – outubro, quando os frutos estão maduros.

A faia é uma árvore de crescimento lento, que pode viver entre 150 e 300 anos e só começa a produzir frutos por volta dos 40 a 50 anos de idade. Não frutifica todos os anos, mas sim em intervalos que podem ir de dois a oito anos. Estes anos de produção de fruto (chamados anos de safra) são habitualmente precedidos por anos de verões quentes.

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As flores masculinas, os frutos verdes e depois maduros, e as variações de tonalidade das folhas de faia

Natural pela Europa, a faia foi reintroduzida em Portugal

A área de distribuição natural da faia estende-se do sul da Escandinávia à Sicília e do norte de Espanha até ao nordeste da Turquia. Análises de registos de pólen indicam que a espécie se terá disseminado por estes territórios da Europa a partir de pequenas populações que sobreviveram ao último período glacial – a glaciação de Würms, que teve início há 110 mil anos e terminou há cerca de 12 mil, dando origem a uma nova era, o Neolítico. Pensa-se que a espécie estará atualmente a ocupar a sua área máxima de expansão pós-glacial.

Estes mesmos registos de pólen mostram que a faia esteve presente no nosso país antes desta Era do Gelo. No entanto, não terá sobrevivido às condições climáticas deste longo período e acabou por desaparecer. Terá voltado muito depois, reintroduzida pela atividade humana, no século XIX, no Gerês e noutras serras do Norte e do Centro do país, onde depois se regenerou naturalmente.

É possível que alguns faiais como os da Mata da Albergaria, na Serra do Gerês, possam ser nativos, mas não se tem a certeza. O que se sabe é que zonas serranas como a do Gerês e do Corno do Bico (Paredes de Coura) têm as condições de solo e clima necessárias para a ocorrência natural da faia. É por isso que estas zonas são consideradas como regiões de proveniência da faia em termos de legislação florestal, sendo a faia considerada uma espécie nativa em Portugal.

A faia é uma árvore típica de regiões mais húmidas e de verões frescos, preferindo climas temperados húmidos. Suporta bem o frio, mas não tolera a secura estival, embora não se dê bem com as geadas primaveris. Cresce melhor em solos profundos e de textura ligeira, mas adapta-se a outros tipos de solo, incluindo calcários, desde que não sejam compactos ou excessivamente encharcados.

É uma espécie muito tolerante à sombra e, enquanto jovem, pode coabitar com outras espécies (aproveitando a sua sombra), mas depois de adulta, torna-se a espécie dominante. As suas copas grandes, muito ramificadas e com folhas sobrepostas, fazem com que as florestas de faias sejam frescas, mas também sombrias e com pouca ou nenhuma vegetação no seu subcoberto – devido à falta de luz.

Distribuição natural da faia (Fagus sylvatica)

No outono, as folhas que caem alimentam o solo com matéria-orgânica, ajudando à frutificação de vários cogumelos como o tortulho-estival (Boletus aestivalis), a corneta-dos-mortos (Craterellus cornucopioides) ou o pé-de-carneiro (Hydnum repandum), todos eles comestíveis. São também habituais o coprino-debicado (Coprinus picaceus), os falos (Phallus impudicus) e a estrofária-hemisférica (Stropharia semiglobata), espécies não comestíveis.

Apesar de ser uma árvore de dimensão considerável, a faia tem raízes superficiais o que, juntamente com a grande produção de folhas, a torna uma boa espécie para proteção e conservação do solo.

A faia é uma das principais espécies florestais europeias, cobrindo cerca de 14 milhões de hectares de área florestal desde os países mediterrânicos atá aos escandinavos. De acordo com dados do relatório State of Europe’s Forest 2020 (SoEF 2020), a faia representava 11,9% do volume de madeira em crescimento na Europa, depois dos pinheiros (29,6%) e dos espruces (23%). A faia é a espécie dominante na Europa central, especialmente nas florestas da Áustria, Alemanha e Suíça, onde é usada predominantemente para o fornecimento de energia e na indústria de mobiliário.

Longa história de aplicação: da madeira de faia à sua casca associada à escrita

Com cerca de 250 usos conhecidos para a sua madeira, a faia é uma das espécies florestais europeias mais requisitadas. A madeira, de cor esbranquiçada, dura, de textura fina e sem nós, tem boas características para ser trabalhada e é usada em mobiliário, pavimentos, escadarias, instrumentos musicais, contraplacados, folheados de madeira e pasta. Devido ao seu elevado potencial energético, a madeira de faia é também usada para lenha e carvão.

Os frutos, que são ricos em gordura, constituem uma importante fonte de alimento para vários mamíferos e aves, que os escondem para criar reservas alimentares, mas esquecem-se de muitos destes esconderijos, favorecendo a dispersão das suas sementes. Estes frutos eram usados, no século XIX, para produzir óleo para cozinhar, de sabor semelhante ao óleo de avelãs, e também para iluminação.

No passado, as sementes eram moídas, e após extração dos taninos por imersão (dado o seu elevado nível de toxicidade), eram misturadas em farinhas para fabrico de pão e bolos, e também utilizadas como substituto do café. Embora contenham substâncias perigosas, como a fagina (trimethylamine) e o ácido oxálico, estas sementes podem ser consumidas em pequenas quantidades, depois de assadas.

Enquanto se mantêm tenras, as folhas jovens de faia também são comestíveis e podem ser usadas cruas em saladas. Servem ainda para fazer um licor tradicional Britânico, o Beech Leaf Noyau.

As folhas e a casca da faia foram usadas em remédios tradicionais, pelas suas propriedades antipiréticas, antissépticas, antitússicas, anti-inflamatórias e diuréticas, sendo que a casca da faia é também uma fonte de compostos bioativos com propriedades funcionais.

Por ser lisa, a casca da faia está também historicamente associada à escrita. Como conta o livro “Around the World in 80 Trees”, a casca da faia tem a capacidade de se expandir e acomodar o crescimento do tronco. Embora vá deixando cair pequenos fragmentos do exterior ao longo do tempo, esta capacidade de expansão permite que a casca se mantenha lisa, ao contrário do que acontece com outras espécies – com os carvalhos, por exemplo, cuja casca vai estalando à medida que o tronco cresce.

Ao manter-se lisa, foi usada como superfície para a escrita. O poeta romano Virgílio (que viveu entre 70 aC e 19 aC) admitiu ter inscrito grafitti em faias. Também os Saxões e os Teutónicos (povos germânicos) usavam madeira de faia para gravar runas (símbolos dos antigos povos do norte da Europa, esculpidos em madeira, ossos ou metais e usados como amuletos ou adivinhação) e outras inscrições. Muitos livros antigos cujas folhas eram de papel velino (um pergaminho fino, liso e acetinado, preparado a partir do couro de vitelo, usado em obras de luxo), tinham as suas capas de proteção feitas de placas de faia. As mesas de escrita medievais também eram normalmente feitas de faia e, antes de Gutenberg, nas primeiras experiências de impressão, as letras eram talhadas em casca de faia.

Ao longo do tempo, a palavra para faia ficou ligada à palavra escrita e aos livros. Por exemplo, em alemão, faia é Buche, livro é Buch e as letras do alfabeto são Buchstaben – literalmente, as marcas feitas em painéis de faias.

Sabia que…

  • Existem 94 florestas de faias que, por serem florestas antigas ou primárias, são reconhecidas como Património Mundial da UNESCO na Europa?

Estão distribuídas por 18 países europeus, cobrindo cerca de 100 mil hectares. Por não possuir estas florestas primárias de faia, Portugal não integra esta lista.

No nosso país, a maior mancha de faias encontra-se no bosque de São Lourenço, em plena Serra da Estrela, uma floresta plantada pelos antigos Serviços Florestais de Manteigas, no início do século XX. Existe um trilho pedestre que percorre esta mata, a Rota das Faias. Este trilho foi afetado pelos incêndios de 2022, mas o núcleo central do bosque, onde se encontra esta floresta de faias, resistiu.

© Cristina Marques

  • A faia é amplamente usada como espécie ornamental?

As copas densas das faias, com uma arquitetura harmoniosa na primavera e no verão, e a variação de cor das suas folhas, são atrativos para a sua plantação em parques e jardins, como o Parque da Pena em Sintra, a Mata Nacional do Buçaco, no Jardim botânico da UTAD ou no Parque de Serralves, no Porto. Algumas variedades da espécie apresentam  outras características que a tornam ainda mais atraente, desde ramos pendentes e retorcidos a tons vermelhos e dourados nas folhas. São exemplo as cultivares de folhas vermelho-escuras (Fagus sylvatica cv. Atropurpurea), de folhas recortadas (Fagus sylvatica cv. Asplenifolia) e de ramos pendentes (Fagus sylvatica cv. Pendula).

  • Existe a superstição de que as faias repelem relâmpagos?

É uma superstição que pode ter uma explicação científica: a casca das faias fica facilmente molhada pela chuva, o que permite que a corrente elétrica de um relâmpago flua pelo exterior da árvore sem lhe causar danos. Outras espécies de árvores com cascas mais rugosas, que ficam secas, levam a que a corrente elétrica flua para o interior da árvore, mais húmido, conduzindo a água a uma ebulição explosiva. A explicação pode ser menos rebuscada e estar relacionada com o simples facto de haver outras espécies que são mais solitárias e têm exemplares mais isolados, o que os torna em alvos mais prováveis de serem atingidos.

  • A faia está associada ao sagrado, com diferentes simbolismos?

À medida que as faias crescem, as suas copas densas e imponentes criam um ambiente de penumbra. Os troncos robustos e direitos, que se podem elevar até aos 40 metros de altura, recriam as colunas de uma catedral natural, estando a faia associada à ideia de proteção e de generosidade. É conhecida como a rainha dos bosques, sendo respeitada como árvore sagrada. Para os Celtas, a faia estava ainda associada à sabedoria e ao conhecimento, constituindo, junto com o carvalho, a bétula e a oliveira, os quatro pilares do ano solar celta.