Conhecer

Personalidades

José Moreira da Silva: uma vida a proteger, gerir e pensar a floresta

José Moreira da Silva, engenheiro silvicultor, foi um visionário da gestão florestal sustentável, revolucionou a prevenção de incêndios e dignificou o primeiro Parque Nacional português, mantendo-se sempre atento às pessoas e ao território. Conheça o percurso desta figura marcante, em colaboração com Isabel Moreira da Silva.

Poucos nomes percorrem com tanta coerência a história recente da floresta portuguesa como o de José Moreira da Silva, um homem sempre atento às pessoas – aos trabalhadores e às comunidades próximas da floresta – que se destacou pela capacidade de inovar, pela coragem das suas convicções e por uma visão da gestão florestal que antecipou em décadas os princípios do desenvolvimento sustentável.

Engenheiro silvicultor, gestor de território e figura de referência numa geração que moldou a política florestal nacional, viveu num período de grandes transformações no sector florestal em Portugal, que abarcou a reorganização dos serviços do Estado e a afirmação de novas ideias sobre sustentabilidade e gestão integrada do território.

José Moreira da Silva

José Joaquim Ribeiro Moreira da Silva nasceu no Porto, em 1923, numa família ligada à produção e comércio de plantas.

A dívida do negócio do avô Moreira da Silva

A divisa da casa comercial do avô, Alfredo Moreira da Silva

O seu avô, Alfredo Moreira da Silva, era jardineiro no antigo Jardim Botânico do Porto e, depois, no Horto Marques Loureiro, considerado “o viveiro com a coleção de plantas, de estufa e de exterior mais extraordinária constituída até à data no país.” Em 1895 estabeleceu-se por conta própria e mais tarde criou o Horto Moreira da Silva e Filhos, com um espaço dedicado à experimentação e inovação.

Foi neste ambiente que cresceu José Moreira da Silva, em contacto com plantas e árvores e rodeado por uma cultura de rigor e exigência que viria a marcar toda a sua vida profissional. Ainda assim, inicialmente a sua preferência ia para a eletrotecnia. Acabou, contudo, por ingressar no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, onde se licenciou em Silvicultura, em 1947.

José Moreira da Silva: 40 anos ao serviço da floresta portuguesa

Começou por trabalhar no Horto da família, mas integrou, em 1951, a então Direcção Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, iniciando uma ligação aos Serviços Florestais que manteve até à reforma, em 1993. Ao longo desses mais de 40 anos, devem-se-lhe, entre outras inovações, a criação das primeiras reservas de caça e pesca, das áreas de reprodução de caça (de perdizes, corços e veados) e dos viveiros de plantas.

Entre 1951 e 1968, foi adjunto dos chefes de Circunscrição Florestal do Porto. Trabalhou na esquematização da rede viária dos baldios existentes nos perímetros florestais da região, elaborou projetos de gestão e exploração florestal, geriu o sistema de comercialização de madeira e aprofundou, fora de Portugal, conhecimentos de silvicultura e sistemas de prevenção, alarme e defesa contra incêndios. Em 1968, foi promovido a Técnico da Direção de Caça e Pesca.

De 1975 a 1980, dirigiu o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Num dos períodos mais desafiantes da história deste Parque, distinguiu-se pela sua visão multidisciplinar e pelos esforços para compatibilizar tradição e modernidade, assim como residentes, visitantes e conservação.

Nos anos 80, introduziu em Portugal o fogo controlado para a gestão do território, com o apoio da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e da Estação Florestal Nacional (EFN). Em 1985, foi nomeado Chefe da Circunscrição Florestal do Porto.

Em 1991, lançou as bases de uma associação florestal para representar o Norte minifundiário. A então Associação Florestal do Norte e Centro de Portugal – Forestis – nasceu no ano seguinte e teve Moreira da Silva como Presidente de Direção até 1998.

Ao longo da carreira, foi ainda consultor de vários projetos de espaços verdes urbanos, que considerava imprescindíveis: “Os seus benefícios são tantos, quer físicos pelo retemperar das forças, quer psíquicos pelo descanso dos nervos, quer educacionais pelo culto da Natureza, que é impossível considerar os espaços verdes de uma cidade como um luxo caro ou tampouco menosprezá-los. Antes pelo contrário, devem merecer a melhor atenção do urbanista que os prevê e dos poderes públicos que o executam e conservam”.

José Moreira da Silva deixou-nos em 2007, com um legado que ultrapassa a sua vida.

Moreira da Silva geriu o Parque Nacional Peneda Geres

“Toda a floresta de produção tem de proteger, assim como toda a floresta de proteção tem de produzir. Se isso não ocorrer estamos mal e a sacrificar o futuro.”

Diretor do Parque Nacional da Peneda-Gerês em tempos difíceis

A primeira menção à criação de um Parque Nacional no Gerês remonta a 1937, ao Relatório Final de Curso de Engenharia Silvícola de Francisco Mimoso Flores, “A Protecção da Natureza — Directrizes Actuais”. Nele, o autor defendeu que “As encostas cobertas de carvalhos seculares de rara beleza e hoje únicos no País deviam ser consideradas como zonas de protecção integral”.

Durante uma estadia nos EUA, Francisco Flores conheceu os trabalhos de Sir Arthur Tansley (que introduziu o conceito de ecossistema) e, pouco depois, foi o autor do primeiro texto importante relativo à proteção da natureza em Portugal. Em 1948, com a criação da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), Flores e outros engenheiros florestais, como Caldeira Cabral e Baeta Neves, continuam a advogar a criação do primeiro Parque Nacional.

Outras vozes se juntaram – como Tude de Sousa, o primeiro Administrador Florestal do Gerês – e, com o apoio de várias figuras de Estado, Lagrifa Mendes conseguiu inaugurar o Parque a 11 de outubro de 1970 (embora a constituição oficial date de 8 de maio de 1971). Foi ele o primeiro diretor do primeiro e único Parque Nacional em Portugal, criando as diretrizes de um modelo de gestão autónomo e inovador, que introduziu, por exemplo, a ideia de diferentes níveis de proteção, como a de “parque” para a zona sem atividade humana e de “pré-parque” para a zona habitada. O objetivo era a integração harmoniosa dos residentes, dos visitantes e da conservação dos recursos naturais.

A revolução de Abril de 1974 levou ao afastamento de Lagrifa Mendes, pela sua ligação ao Estado Novo (faleceu pouco depois). Em 1975, Moreira da Silva, amigo próximo de Lagrifa, com quem tinha colaborado na criação do PNPG, deu seguimento à sua obra.

José Moreira da Silva no Gerês

©Jorge Barros

José Moreira da Silva em Pitões das Júnias, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, em 1980

Os primeiros anos de direção do Parque aconteceram numa fase política e social particularmente difícil em Portugal, em que foi necessário restabelecer a ordem pública e renovar a ligação às comunidades locais. Enfrentou tensões, contestação local e riscos em áreas sensíveis, mas respondeu com diálogo, firmeza e presença no terreno.

Até 1980, foi “encarregado de direção” do Parque Nacional da Peneda-Gerês, mas a sua nomeação como Diretor foi anulada pelo novo governo então eleito, apesar do reconhecimento público pelo trabalho de dignificação e gestão do Parque.

Moreira da Silva acreditava que “gerir a floresta é a melhor forma de a proteger; proteger a floresta é a melhor forma de a gerir”. Procurou sempre que o Parque fosse visto com respeito por quem lá entrava, que os residentes se sentissem honrados e que os cientistas ali fossem para estudar a riqueza natural. “Olhem para o Parque Nacional como uma instituição de utilidade pública e como um património cuja salvaguarda e desenvolvimento pertence a todos nós.”

O pioneiro que viu no fogo uma ferramenta de gestão

Na década de 1950, o panorama dos incêndios começou a alterar-se em Portugal, em resultado do êxodo rural, do abandono das atividades agropastoris e do consequente aumento das áreas de matos e floresta, também resultante de iniciativas de arborização pública e privada. Esta expansão propiciou o aumento dos incêndios e, com eles, multiplicaram-se os estudos, as propostas e as iniciativas de defesa contra o fogo.

Em 1965, José Moreira da Silva foi um dos autores do estudo “Princípios Básicos de Luta contra Incêndios na Floresta Particular Portuguesa”. Dele constavam as bases de um sistema de defesa contra incêndios para os Serviços Florestais e um modelo de desenvolvimento para as zonas de propriedades privadas onde o despovoamento e a acumulação de biomassa produziam incêndios cada vez maiores. Entre outra medidas, propôs:

  • Criar zonas de intervenção nas áreas privadas de minifúndio – polígonos florestais – com dimensão para viabilizar a silvicultura e as infraestruturas (acessos, por exemplo);
  • Realizar o planeamento florestal e de infraestruturas a um nível sub-regional (50 mil hectares);
  • Criar sistemas de prevenção e combate a incêndios com agentes profissionalizados.
José Moreira da Silva formou brigadas de prevenção e combate a incêndios

 Brigadas de prevenção e combate

A estratégia foi parcialmente adotada pela Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, sobretudo na região Norte, com a constituição de brigadas de prevenção e combate, equipadas com ferramentas manuais. Mais tarde, criaram-se também brigadas helitransportadas.

No início dos anos 1970, surgira a primeira referência moderna à expressão “fogo controlado”, no Plano Diretor do PNPG (1971-1972), elaborado sob a orientação de Lagrifa Mendes, mas as convulsões políticas impediram a sua implementação. Quando Moreira da Silva assumiu a gestão do Parque, defendeu a aplicação técnica do fogo. Tendo conhecido os trabalhos do californiano Edwin Komarek – o “pai” do fogo controlado –, convidou-o a visitar o Gerês (1975) e dão início a uma série de experiências, depois sistematizadas com o contributo de investigadores da UTAD.

Testes de fogo técnico para prevenir incêndios

© Eric Rigolot

Quando Moreira da Silva regressou à Circunscrição Florestal do Porto, criou um plano de fogo controlado para a região minhota (acompanhado cientificamente pela UTAD e pela EFN) e formou novas equipas técnicas. Este trabalho despertou interesse no estrangeiro, especialmente em França, de onde veio um convite, em 1997, para publicar o seu testemunho sobre a história do fogo controlado em Portugal. O texto Historique des feux contrôlés au Portugal, divulgado na revista Forêt méditerranéenne e reeditado em português no livro “José Moreira da Silva, um pioneiro da ação florestal”, resume o seu pensamento e ação.

Na década de 1990, a capacidade operacional dos Serviços Florestais começou a degradar-se e, até ao seu desmantelamento, em 1996, estes programas reduziram-se. A área tratada com fogo controlado diminuiu, a vegetação combustível aumentou e seguiram-se anos de grandes incêndios, como os de 2003 e 2005, que reforçaram a necessidade de gerir combustíveis em larga escala.

Para Moreira da Silva, o fogo não era visto apenas como “um agente de destruição”, mas também uma ferramenta de gestão do território, para reduzir a carga de combustível vegetal, diminuindo o risco de grandes incêndios – uma abordagem que se mantém na estratégia de prevenção e confirma a sua visão estratégica. Como o próprio referiu: “O fogo controlado não é a panaceia universal que vem resolver o grave problema dos incêndios florestais. É uma ferramenta extraordinariamente útil e barata, de relativamente fácil aplicação, embora muito condicionada pela meteorologia”.

Moreira da Silva: fogo como ferramenta de prevenção

© José Moreira da Silva

A gestão conjunta como conceito fundador da Forestis

Ainda na Circunscrição Florestal do Porto, é desafiado pelo então presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, Luís Braga da Cruz, a envolver-se no projeto pioneiro que deu origem a uma associação florestal no Norte minifundiário – a Forestis. A Assembleia Constituinte realizou-se em 1991 e a Associação foi formalmente constituída em 1992.

José Moreira da Silva foi eleito Presidente da Direção da Forestis, cargo que ocupou desde a fundação até 1998, demonstrando que a agregação de proprietários florestais permitia alcançar uma escala de gestão fundamental para a sustentabilidade económica e ambiental do sector florestal português, caracterizado pelo minifúndio.

José Moreira da Silva criou a Forestis para agrupar a gestão florestal

Defendeu dissociar a propriedade da sua gestão, tornando-a rentável e compensadora para o proprietário e para a comunidade. Sendo o espaço florestal um bem de usufruto nacional, os proprietários deveriam ser pagos pelos serviços de ecossistemas resultantes da sua gestão. Na mesma lógica, as associações de proprietários deveriam receber uma quota anual associada à sua área de gestão.

Para Moreira da Silva, uma “floresta pulverizada em pequeníssimas parcelas, impossível de gerir, com baixas e desmobilizadoras produções, está entregue ao fogo que sistematicamente a destrói” e o associativismo dava ainda aos proprietários “capacidade de diálogo e negociação com o Governo, a Administração Pública e os seus parceiros, a montante e jusante da sua atividade”.

O legado e reconhecimento de José Moreira da Silva

Reconhecido como um dos grandes vultos do sector e um pioneiro da ação florestal, o contributo de Moreira da Silva permanece, não apenas nas políticas e instituições que ajudou a construir, mas na forma como influenciou o pensamento sobre a floresta: com uma visão integrada, sustentável e humanizada do território, que permanece mais atual do que nunca.

Os contributos duradouros que nos deixou vão da estratégia e política florestal à inovação técnica e criação de novas estruturas, como ilustram estes exemplos:

  • Política e estratégia: participou no anteprojeto da Lei de Bases da Política Florestal, que abriu caminho à Lei n.º 33/96 de 17 de agosto; coordenou o Livro Verde sobre a “Cooperação Ensino Superior-Empresa – Sector Florestal” sobre a importância do “cluster” florestal nacional;
  • Novas estruturas: criou as primeiras estufas florestais para produção intensiva e automatizada de plantas; participou na criação da AIFM – Association Internationale des Forêt Méditerranéenne, da qual foi vice-Presidente entre 1996 e 2003.
  • Inovação técnica: introduziu e desenvolveu em Portugal a técnica de mudas de plantas paperpot; utilizou a casca de pinheiro e eucalipto, em vez da turfa, como substrato de plantas, criando uma mistura mais económica e eficiente que valorizou um subproduto florestal; criou materiais resistentes (e equipas especializadas) para combater a doença da tinta dos castanheiros.
José Moreira da Silva com Francisco Castro Rego

© Luís Corte-Real

Francisco Castro Rego caracteriza Moreira da Silva como “um espírito inovador, uma figura ímpar, um homem do Porto, um homem da cultura e um grande florestal de Portugal.”

O seu trabalho mereceu também inúmeros reconhecimentos, como o Grau de Comendador de Mérito Agrícola pelo legado que deixou no PNPG, o título de Grande-Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial, a Medalha de Honra da Agricultura e a Medalha de Valor Florestal dos Serviços Florestais, entre outros.

Em 2009, em sua homenagem, foi criado o Prémio Nacional José Ribeiro Moreira da Silva, para distinguir “a excelência no ensino das ciências florestais e a dedicação dos alunos e futuros técnicos”. Nunca foi atribuído.

A constituição da Associação Eng.º Silvicultor José Moreira da Silva e a edição de um livro dedicado a este “pioneiro da ação florestal” preservam o seu legado e reconhecimento.

Em colaboração com Isabel Moreira da Silva

Formada em Engenharia Florestal, Isabel Moreira da Silva é Técnica Superior da Divisão de Gestão do Programa de Fogos Rurais do ICNF – Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.

Anteriormente, foi técnica superior no Parque Nacional Peneda-Gerês e passou por inúmeras instituições do sector florestal: Circunscrição Florestal do Porto, Delegação Florestal de Entre Douro e Minho, Direção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho, Circunscrição Florestal do Norte – Direção Geral dos Recursos Florestais, Direção de Unidade da Defesa da Floresta da Autoridade Florestal Nacional e Divisão de Proteção Florestal e Valorização de Áreas Públicas do ICNF.

É Presidente da Direção da Associação Eng.º Silvicultor José Moreira da Silva, constituída para preservar e divulgar o seu contributo técnico-científico. Foi esta associação que publicou o livro “José Moreira da Silva – Um pioneiro da ação florestal”, que Isabel Moreira da Silva, sua filha, coordenou.

O Florestas.pt agradece à Associação Engº Silvicultor José Moreira da Silva a cedência das imagens do seu arquivo fotográfico. Foto de topo de Jorge Barros.