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Produtos Florestais não lenhosos

O mel de melada do Parque Natural de Montesinho

Ao contrário do mel proveniente do néctar das flores, o mel de melada tem origem na seiva das plantas. No Parque Natural de Montesinho, a bolota de carvalho-negral é a principal fonte deste mel de melada, que Ana Tomás está empenhada em conhecer e valorizar, promovendo, através dele, a proteção deste território.

Apesar da tendência de despovoamento do interior de Portugal, persiste no extremo Nordeste – nos concelhos de Bragança e Vinhais, onde se localiza o Parque Natural de Montesinho – um conjunto de pessoas que escolheu permanecer, trabalhar e contribuir para a proteção deste território. Ali, a apicultura continua a despertar interesse e o mel de melada poderia contribuir para valorizar um produto local e a região que o origina.

O Parque Natural de Montesinho distingue-se pela sua paisagem diversificada, onde coexistem terras agrícolas, sistemas agrossilvopastoris (com culturas agrícolas, árvores e animais) e extensos carvalhais de carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que são habitats protegidos e constituem a maior e mais bem conservada mancha desta espécie na Europa.

Estes carvalhais, historicamente geridos como sistemas silvopastoris (com o subcoberto a ser usado para alimentar pequenos ruminantes – cabras ou ovelhas – em regime permanente ou em percursos de transumância), permitem uma elevada multifuncionalidade e é neles que tem origem um conjunto de produtos florestais não lenhosos com importância significativa na economia local: bolotas, cogumelos e plantas medicinais são exemplos destes produtos de origem silvestre, tal como o mel de néctar e o mel de melada.

A produção de mel está entre as atividades rurais com crescente atratividade. O aumento do número de apicultores e de colmeias na região comprova-a e o reconhecimento da sua relevância levou mesmo à criação de um apoio de fomento à atividade por parte da Câmara Municipal de Vinhais.

Carvalho-negral em Montesinho

© Bota um cibo

Para a produtora Ana Tomás, este dinamismo evidencia também o papel que a apicultura pode desempenhar na manutenção do tecido rural e na valorização dos recursos naturais locais.

Ana Tomás, investigadora e cofundadora da “Bota um cibo”

Ana Tomás, investigadora e fundadora da Bota um cibo

Bota um Cibo, marca de méis em Vinhais

© Bota um cibo

“Enquanto apicultores, reconhecemos a mais-valia que esta atividade representa e sentimos a responsabilidade de contribuir para a valorização e preservação do território onde trabalhamos”, diz Ana Tomás, Engenheira Florestal de formação e cofundadora da “Bota um cibo”, uma marca de produtos de montanha, que criou em Vinhais, juntamente com o seu companheiro, Antero Sousa. Mel, favo de mel e castanhas da variedade Longal são os produtos que comercializam.

“Interessa-nos compreender de que forma a estrutura paisagística influencia o mel que produzimos e como podemos tirar melhor partido deste recurso de forma sustentável e equilibrada”, refere Ana Tomás que, ao longo do seu percurso profissional, desenvolveu funções como técnica florestal, bolseira de investigação e programadora, complementadas pela sua própria atividade agrícola. Esta combinação de experiências permite-lhe articular o olhar da agricultora, da técnica e da investigadora, com uma abordagem transdisciplinar das diversas matérias que é enriquecedora para o sector agroflorestal.

Além da criação da marca “Bota um cibo”, Ana Tomás trabalha na área da modelação e do desenvolvimento de ferramentas em contexto agroflorestal e tem contribuído para projetos de investigação. Foi neste contexto que participou, com Antero Sousa, no projeto nacional “ACORNDEW – Potenciar a sustentabilidade do carvalho-negral do Parque Natural de Montesinho através da inovação: valorização da bolota e da melada”. Como parceiros deste projeto, aprofundaram conhecimentos e desenvolveram competências específicas sobre o mel de melada.

A qualidade do mel de Montesinho e sua relação com a paisagem

O mel produzido no Parque Natural de Montesinho já é reconhecido como Produto com Denominação de Origem Protegida (DOP) e reflete a íntima relação entre a riqueza floral da região e a qualidade do produto final. Trata-se de um mel escuro, espesso e multifloral, com características típicas de um mel de montanha.

Castanheiro é fonte de mel floral em Montesinho

© Bota um cibo

As colmeias que o produzem distribuem-se ao longo de um gradiente de altitude que vai dos 800 metros, na aldeia da Prada, ao alto da Serra da Coroa, a cerca de 1000 metros, no concelho de Vinhais.

Nesta área – e no território envolvente que é visitado pelas abelhas – encontram-se pequenas formações de arçã ou rosmaninho-maior (Lavandula pedunculata) e há manchas de urzes (Erica spp. e Calluna spp.) nas cotas mais elevadas, onde a silva (Rubus spp.) também é abundante e os soutos de castanheiros (Castanea sativa) são uma importante ocupação. Estas espécies constituem as principais fontes de néctar.

Contudo, existe um outro recurso de enorme relevância: o mel de melada, essencialmente associado ao carvalho-negral.

Mel de néctar e mel de melada: duas origens distintas

Ao contrário do mel que resulta do néctar recolhido das flores, o mel de melada não tem origem floral.

Tradicionalmente, a melada resulta de exsudações provocadas por pequenos insetos (afídeos), que perfuram a casca das plantas para se alimentarem da sua seiva e excretam um líquido açucarado que as abelhas recolhem.

No entanto, as observações de campo feitas no âmbito do projeto ACORNDEW sugerem que esta não é a única, nem possivelmente a principal, origem da melada na região.

“Durante o verão, encontramos frequentemente exsudações que saem diretamente das bolotas do carvalho-negral e que escorrem pelas folhas. Estes melaços são intensamente visitados pelas abelhas”, conta Ana Tomás. Estas observações colocam a hipótese de que a produção de melada possa ser feita sem mediação de insetos, um fenómeno já observado em áreas próximas de Espanha, mas ainda pouco documentado e insuficientemente compreendido.

bolotas libertam "melada"
Abelhas colhem melada da seiva das bolotas

© Bota um cibo

O trabalho realizado ainda não permitiu confirmar esta hipótese, mas forneceu indicações relevantes sobre a direção a seguir. Assim, apesar da produção generalizada de mel de melada de carvalho-negral ser uma realidade na Península Ibérica, persistem incertezas científicas que justificam investigação adicional sobre a origem da melada, os processos envolvidos e os fatores que condicionam a sua produtividade.

A clarificação destas questões é importante também noutra perspetiva: “poderá permitir identificar características específicas que reforcem a autenticidade e a origem territorial do mel do Parque Nacional de Montesinho, uma necessidade urgente neste sector que é fortemente marcado por práticas que dificultam a garantia de uma verdadeira origem dos produtos”, reforça a investigadora.

Valorizar o mel de melada e, através dele, o território e a sua identidade

No Parque Natural de Montesinho, o potencial do mel de melada é particularmente elevado, dada a extensão e relativa continuidade de algumas das manchas de carvalho-negral, e a sua produtividade sobretudo nos meses de julho e agosto.

Contudo, também implica desafios: os apiários instalados em zonas com forte dominância de carvalho-negral podem ficar limitados pela escassez de outras fontes de alimento significativas, sobretudo em anos de fraca produção de melada. Além disso, a divulgação destes méis diferenciados requer esforço adicional de comunicação, já que o conceito de mel de melada ainda é pouco conhecido pelo consumidor.

Colmeias em Montesinho para mel e mel de melada

© Bota um cibo

Apesar dos desafios, não restam dúvidas a Ana Tomás de que vale a pena apostar no conhecimento e nas ferramentas que possam ajudar a gerar um mel de elevada qualidade, com identidade própria e diferenciadora; e de que ao divulgar e valorizar esse mel os produtores não estarão apenas a promover um produto diferenciador, mas a reforçar a ligação entre apicultura, a conservação do território e a identidade local.

“Ao aprofundarmos o conhecimento sobre a origem e as particularidades desta melada, contribuímos para garantir autenticidade, melhorar a valorização económica e fortalecer práticas sustentáveis num sector que enfrenta desafios crescentes. Investir na ciência, na diferenciação e na comunicação do nosso mel é, acima de tudo, investir na continuidade de um património natural e cultural que importa preservar”, conclui.

Muitas espécies florestais, quer folhosas quer resinosas, são importantes produtoras de melada. Em Portugal, os carvalhos (Quercus spp.) – nomeadamente a azinheira (Quercus rotundifolia) e o carvalho-negral (Quercus pyrenaica) – são conhecidos pela produção abundante de meladas, embora a sua quantidade se reduza pronunciadamente em determinados anos. Pinheiros e abetos são também conhecidos na Europa central e mediterrânica como importantes produtores de melada. Estes méis têm procura crescente pelo seu elevado teor em minerais e riqueza em atividade antioxidante.

Como se distingue um mel de melada?

A legislação europeia define critérios físico-químicos que diferenciam o mel de melada do mel de néctar. Entre os mais relevantes destacam-se o teor mínimo total de frutose e glucose inferior ao do mel de néctar e a condutividade elétrica elevada. A cor tendencialmente mais escura, a atividade enzimática elevada, o pH mais elevado, o teor mineral mais alto e a humidade relativamente baixa são outros parâmetros a ter em conta.

Mel de melada é habitualmente mais escuro

© Bota um cibo

Os estudos realizados anteriormente indicam ainda que o mel de melada tende a apresentar menor volume de grãos de pólen e maior presença de esporos de fungos ambientais, frequentemente depositados nas exsudações de melada, parâmetros que reforçam o seu valor como indicador de autenticidade.

“Para nós, produtores, estas características representam uma oportunidade para valorizar e certificar, com maior precisão, a ligação entre o mel e o território de Montesinho, especialmente num mercado onde o consumidor encontra frequentemente produtos fraudulentos, adulterados e descaracterizados – com xaropes adicionados ou com misturas de méis de quatro ou cinco países diferentes por exemplo”, reforça Ana Tomás, concluindo que “a defesa da origem do mel produzido localmente e sem misturas é essencial para preservar a sua qualidade e assegurar a confiança do consumidor”.