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Curiosidades

Folhas de outono: porque mudam de cor?

Adeus verdes. Olá amarelos, castanhos e avermelhados. Assim são as folhas de outono, que todos os anos trazem uma nova palete às florestas, bosques, parques e jardins. Descubra o que motiva a mudança e porque são estas – e não outras - as cores do outono.

Com a chegada do outono, a Natureza muda de “cara”. O verde que impera metade do ano dá lugar a tons mais amarelados que, à luz do sol, quase parecem dourados. Em algumas espécies florestais, as folhas ganham cores vermelhas e depois tons castanhos, até que se desprendem, formando pequenos tapetes de folhas de outono. É o ciclo das estações, a preparar o frio do Inverno, em que os ramos ficam despidos de folhas.

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1ª imagem: Alameda das Tílias no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, com fileiras paralelas de Tilia × europaea L. (tília-comum, tília-europeia) ©JBUC; 2ª imagem: Ginkgo biloba, Braga; 3ª imagem: Bosque de faias (Fagus sylvatica) de São Lourenço, Serra da Estrela.

A mudança de cor nas folhas das árvores encanta miúdos e graúdos, mas deixa no ar a pergunta “afinal, porque é que as folhas de outono mudam de cor?”. A explicação é simples e está diretamente relacionada com dois fatores: os pigmentos naturais existentes nas folhas e as mudanças trazidas por esta estação do ano, com dias mais curtos, frios e menor intensidade solar.

Mas, para explicar a mudança de outono, é preciso perceber primeiro o que acontece no resto do ano. Ou seja, perceber porque é que as folhas das árvores são habitualmente verdes. Tal é explicado pela presença da clorofila, o pigmento natural mais abundante nas plantas, que lhes dá a cor verde.

Para produzir clorofila, as plantas precisam de luz solar. Com as mudanças na temperatura e na duração dos dias de outono, a produção deste pigmento natural diminui e o verde desaparece.

Apesar de serem o principal grupo de pigmentos das plantas, as clorofilas não são as únicas moléculas a “pintar” as folhas das árvores. Além destas, existem outros pigmentos naturais, como os carotenoides, também estes bastante comuns na natureza. Os carotenoides são os responsáveis pelos tons amarelos e acastanhados, embora existam nas folhas o ano todo. Na primavera e verão, a abundância da clorofila – e de verde – impede-os de sobressair. Mas tudo é diferente nas folhas de outono, assim que o teor de clorofila começa a diminuir. É como se estivéssemos perante uma parede amarela que por cima foi pintada de verde: quando raspamos a tinta verde – ou, para as plantas, quando chega o outono –, é que conseguimos notar o amarelo.

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A clorofila presente nas folhas – mais precisamente a clorofila-a – é uma das moléculas mais importantes para a vida no planeta, pois é essencial para que as plantas possam absorver e transformar a luz solar em energia, cumprindo uma das etapas da fotossíntese .

À esquerda: Bidoeiros, também chamados de vidoeiros ou bétulas (Betula pubescens); À direita: Faias (Fagus sylvatica), ambas na Serra da Estrela.

À medida que os dias de outono passam e a presença de clorofila diminui, as folhas vão ganhando diferentes tons, numa espécie de degradé do verde ao castanho. As diferentes proporções entre clorofilas e carotenoides ditam esta variada palete de cores possíveis – mesmo entre folhas da mesma árvore.

Outro dos pigmentos naturais também presentes nas folhas de algumas plantas são as antocianinas, responsáveis pelos tons vermelhos e até roxos que algumas árvores apresentam.

As antocianinas não existem em todas as plantas e, mesmo naquelas em que se concentram, não são produzidas durante o ano todo. A sua produção nas células da folha depende de um conjunto complexo de fatores, como a decomposição dos açúcares, a proteção da luz solar em excesso e a captação dos últimos nutrientes antes da queda das folhas (no outono).

Quando este pigmento está presente, dá origem a tons vermelhos únicos, como acontece na faia-de-folhas-púrpuras (Fagus sylvatica L.’Purpurea’), no carvalho vermelho americano (Quercus rubra) e nalgumas espécies de ácer/bordo – cuja folha vermelha é usada como símbolo na bandeira do Canadá – como o bordo japonês (Acer palmatum) ou o ácer vermelho (Acer rubrum).

Porque é que estas são as cores das folhas de outono – e não outras?

No seu projeto “A Química das Coisas”, a Universidade de Aveiro explica com mais pormenor porque é que as folhas de outono mudam de cor e porque é que cada um dos pigmentos está associado a estas cores específicas: verde, amarelo, laranja e vermelho. Tudo está relacionado com um processo químico e com a teoria das cores: “as moléculas de clorofila absorvem a luz do sol na região do vermelho e do azul e, portanto, a luz refletida pelas folhas tem falta destes dois tons e vemo-la apenas como verde”.

Para compreender ainda melhor, é importante perceber que a luz do sol é essencialmente uma luz branca, que resulta da conjugação de todas as cores primárias e que é absorvida e refletida pelos diferentes objetos que nos rodeiam. As cores com que vemos os objetos vão depender da radiação que é absorvida, sendo que os olhos e o cérebro humanos só percebem as cores refletidas. Lembre-se que a perceção humana da cor resulta da combinação de três espectros base que as células dos nossos olhos (chamadas cones) são capazes de detetar: os vermelhos, os azuis e os verdes.

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Fonte: a partir de Wikipedia

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© Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (plátano, Platanus x hispânica Mill)

Estes pigmentos naturais não existem apenas nas folhas das árvores. A clorofila está presente na relva e em certas algas, por exemplo. Os caratenoides são responsáveis pela cor laranja das cenouras ou pelo amarelo da gema de ovo. E as antocianinas dão cor a uvas, framboesas e beringelas.

Nem todas as folhas mudam de cor

A mudança de cor das folhas de outono e a queda que se segue acontecem nas árvores de folha caduca (caducifólias), que tipicamente são naturais de climas temperados, onde as variações entre estações do ano são evidentes. Em Portugal, entre as que mais se destacam pela sua beleza estão, por exemplo, o castanheiro (Castanea sativa), o plátano bastardo (Acer pseudoplatanus) e as bétulas (Betula sp.).

Outras espécies desenvolveram diferentes estratégias evolutivas para sobreviver ao inverno, como é o caso das árvores de folha perene, que dispõe de outro tipo de adaptações e proteções – formato da folha, secreção de substâncias cerosas e anticongelantes, entre outros – para manter a folhagem verde e bem presa aos ramos, mesmo em invernos gelados. Como exemplos comuns no nosso país temos os pinheiros (Pinus spp.), a alfarrobeira (Ceratonia síliqua), a azinheira (Quercus ilex) ou o teixo (Taxus baccata).

A mudança de cor das folhas das espécies caducifólias – e a consequente queda – representa, assim, uma mudança fisiológica, em que a árvore antecipa o período mais difícil de inverno, durante o qual terá menos energia para fazer a fotossíntese e em que começa a poupar recursos essenciais.

Refira-se que as moléculas de clorofila são altamente eficazes na captação e conversão da energia solar em energia química – muito mais do que qualquer solução desenvolvida pela ciência e tecnologia –, como assinalou o investigador Fernando Nogueira, num estudo que desvendou o papel principal da clorofila. Neste sentido, as plantas são eficientes “bio fábricas”: absorvem luz, dióxido de carbono e água para criar os compostos orgânicos de que dependemos e libertar oxigénio.

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Pinheiros (Pinus spp.), Marão