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Espécies Florestais

Freixo: entre floresta, água, diversidade e tradição

Espécie nativa em Portugal e presença habitual nas margens de rios e ribeiras, o freixo (Fraxinus angustifolia) é uma árvore resistente e multifuncional. Das folhas usadas como alimento para o gado aos usos medicinais tradicionais, o freixo tem múltiplas aplicações e ilustra a profunda ligação entre a floresta, a água, a biodiversidade e a cultura popular.

O freixo mais comum em Portugal é o Fraxinus angustifolia, também conhecido como freixo-comum ou freixo-de-folhas-estreitas. Trata-se de uma espécie autóctone, que pode ser encontrada no território continental português, em particular nos bosques e florestas que crescem espontaneamente nas margens dos cursos de água.

O freixo pertence à família Oleaceae, a mesma da oliveira e do zambujeiro (Olea europaea), dos adernos (Phillyrea spp.), dos ligustros ou alfenheiros (Ligustrum spp.), do jasmim (Jasminum officinale) e do pau-branco (Picconia spp.).

O seu nome científico, Fraxinus angustifolia, deriva do grego phraxo, que significa fechado ou separado, provavelmente por a espécie ter sido utilizada nas sebes que delimitam terrenos e pastagens, e do latim angustus e folium, estreito e folha, termos associados ao seu nome comum freixo-de-folhas-estreitas.

Resistente e robusto, o freixo-comum é uma árvore de crescimento rápido, especialmente quando se encontra perto de cursos de água, e de grande longevidade, podendo viver cerca de 200 anos. De porte baixo a médio, pode atingir entre 15 e 25 metros de altura. Possui uma copa ampla, arredondada ou oval, geralmente densa, com poucas ramificações secundárias.

Os freixos são espécies típicas das florestas ribeirinhas, mas podem ser encontrados também em bosques frescos e sombrios, no fundo de vales, na margem de pastagens permanentes seminaturais (como os lameiros, que possuem um alto teor de humidade) ou de planícies inundáveis. A sua valorização como espécie ornamental permite encontrá-los igualmente ao longo da berma das estradas e em jardins urbanos.

Freixo: entre floresta, água, diversidade e tradição

Como reconhecer o freixo?

Nesta árvore caducifólia, as folhas são opostas (nascendo em pares, do mesmo nó, uma em frente à outra) e compostas, ou seja, têm um caule com pequenas folhas, de nome folíolos. Cada folha tem entre 3 e 13 ou 15 folíolos imparipinulados (dispostos aos pares, um de cada lado do eixo, com um folíolo na ponta do ramo), cuja forma lembra uma lança (lanceolados ou ovados). Os folíolos saem diretamente do ramo (são sésseis, sem pecíolo) e glabros (sem pelos nem penugem), com a margem delicadamente serrada.

As folhas do freixo (Fraxinus Angustifolia)

Os gomos que dão origem às folhas são castanhos e as folhas surgem habitualmente após a floração, que ocorre entre janeiro e março. Quando chega o frio do inverno, caem ainda verdes, contribuindo para a atividade biológica do solo.

As flores são nuas, sem pétalas, agrupando-se em cachos de tons levemente arroxeado. Podem ser unissexuadas ou bissexuadas (hermafroditas). No caso das unissexuadas, um freixo pode ter simultaneamente flores femininas e masculinas (monóico) que se autofecundam, enquanto outro pode ter apenas flores de um dos sexos (dióico) que dependem do vento para a polinização cruzada e a fecundação. No caso das bissexuadas, cada flor de freixo é hermafrodita, congregando órgãos femininos e masculinos.

O fruto é uma sâmara, cuja forma (elíptica oblonga) lembra uma asa, com dois a cinco centímetros de comprimento. Esta asa leve e impermeável ajuda à dispersão da sua semente única pelo vento e também pela água, onde flutua sem apodrecer. As sâmaras aparecem agrupadas em cachos pendentes, de cor verde-clara (mais clara do que as folhas). Atingem a maturação em setembro e vão ficando acastanhadas à medida que amadurecem.

A casca (ritidoma) do freixo é acinzentada e rugosa.  O tronco vai escurecendo com a idade e vão-se abrindo sulcos verticais.

As jovens folhas do freixo nativo em Portugal

As jovens folhas

Os gomos que dão origem às folhas do freixo

Os gomos que dão origem às folhas

Fruto do freixo, com semente única

As sâmaras, com a sua semente única

Qual é a área de distribuição natural do freixo nativo?

A área de distribuição natural do nosso freixo nativo vai da Europa Central e do Sul ao Sudoeste da Ásia, na zona do Cáucaso, incluindo o Noroeste de África. Esta é uma espécie de florestas temperadas que, em Portugal, ocorre de forma espontânea em praticamente todo o país.

Na zona norte da sua área de distribuição, inclusive em Portugal, ocorre conjuntamente com o freixo-europeu (Fraxinus excelsior), com o qual pode cruzar-se (hibridizar).

Em Portugal, embora mais raras, podem ainda encontrar-se (e plantar-se) duas espécies exóticas de freixo oriundas da América: Fraxinus americana, conhecido como freixo-americano ou branco, e Fraxinus pennsylvanica, chamado de freixo-verde. Também é possível ver, em especial em parques e jardins, o freixo-de-flores ou freixo-do-maná (Fraxinus ornus) que, embora seja natural do sul europeu e da Ásia ocidental, não é nativo em Portugal.

Tendo em conta a vasta área de distribuição do Fraxinus angustifolia, considera-se que existem três subespécies geográficas:

  • Freixo-de-folhas-estreitas (Fraxinus angustifolia subsp. angustifolia), natural da Península Ibérica, sudoeste da Europa e noroeste de África;
  • Freixo-do-Cáucaso (Fraxinus angustifolia subsp. oxycarpa), abundante na Europa central, Balcãs e região do Mar Negro;
  • Freixo-da-Síria (Fraxinus angustifolia subsp. syriaca), que ocorre desde o sudeste da Anatólia, Médio Oriente, até ao Irão.

Distribuição natural do Fraxinus angustifolia

Área de distribuição natural do Fraxinus angustifolia

Exportado como árvore ornamental, o freixo está naturalizado no sul da Austrália, onde é conhecido como freixo-do-deserto. Nos estados do Sul, pode formar monoculturas densas em zonas ribeirinhas e ao longo de linhas de drenagem, impedindo a regeneração de espécies nativas.

Um contributo para ecossistemas ribeirinhos diversos e funcionais

Resistente e adaptável, o freixo é uma espécie pioneira. Desenvolve-se melhor em solos profundos, frescos e húmidos, com níveis freáticos mais próximos da superfície, mas adapta-se bem a quase todos os tipos de solo. Embora seja uma espécie tendencialmente higrófila – adaptada às condições de humidade –, é sensível ao encharcamento prolongado e tolera alguma secura (sendo também resistente à poluição atmosférica).

Raramente forma povoamentos puros e pode ser encontrada como espécie dominante ou secundária em florestas mistas de folhosas, juntamente com outras espécies ribeirinhas, como os salgueiros (Salix spp.), ulmeiros (Ulmus spp.), amieiros (Alnus spp.) e choupos (Populus spp.), mas também com carvalhos (Quercus spp.), bordos (Acer spp.) e tílias (Tilia spp.), formando ecossistemas ricos em diversidade de espécies.

Além de serem habitats para muitas espécies animais, estes ecossistemas ribeirinhos, onde o freixo se integra naturalmente, desempenham importantes funções ecológicas, incluindo a fixação e manutenção das margens dos cursos de água (prevenindo a erosão) e a regularização e retenção das águas em períodos de grande intensidade de chuva ou picos de cheia.

Freixo: uma espécie típica das florestas ribeirinhas

Pela importância ecológica do teixo, existem três habitats classificados e protegidos em Portugal: 91B0 – Freixiais termófilos de Fraxinus angustifolia, 91E0 – Florestas aluviais de Alnus glutinosa e Fraxinus excelsior e 91F0 – Florestas mistas de Quercus robur, Ulmus laevis, ulmus minor, Fraxinus angustifólia ou Fraxinus angustifolia das margens dos grandes rios (Ulmenion minoris).

Usos diversos, da medicina tradicional à carpintaria

O freixo é utilizado desde a Antiguidade, com diferentes finalidades e aproveitamento de várias partes da árvore, desde a casca e madeira aos raminhos e folhas.

Nas zonas rurais, foi tradicionalmente plantado nas extremidades dos terrenos para os delimitar, nomeadamente para criar sebes vivas em pastagens seminaturais permanentes, como os lameiros ou prados-lima, do centro montanhoso e do norte de Portugal.

As suas ramagens e folhagens foram valorizadas como forragem para o gado e continuam a ser reconhecidas como uma boa fonte de alimento animal.

Geridas em talhadia alta (com corte de ramos de grande calibre), diferentes espécies de freixo permitem obter varas direitas e longas, valorizadas em peças de mobiliário, rodas de carroças, aros para pipas, cabos de ferramentas e muitos outros utensílios. O facto de a madeira ser resistente, mas elástica (flexível), permite a confeção de peças curvas, habitualmente, através da técnica de curvatura a vapor.

O freixo

A reter sobre o freixo (Fraxinus angustifolia)

A qualidade da madeira do freixo mais comum em Portugal é, contudo, considerada inferior à de outras espécies de Fraxinus. Ainda assim é avaliada como resistente, moderadamente dura, pesada e elástica. Sendo fácil de trabalhar, pode ser usada em contraplacados e folheados, assim como em mobiliário. A sua cor amarelo-rosada é apreciada. Também produz carvão e lenha de boa qualidade.

As folhas e casca dos freixos, especialmente do freixo-europeu (Fraxinus excelsior), são reconhecidas desde os tempos de Hipócrates (460 a.C.-377 a.C) como medicinais, com propriedades diuréticas e antipiréticas, analgésicas e outras. Hoje, o uso das folhas, tanto do freixo-europeu como do freixo-de-folhas-estreitas, está reconhecido pela Agência Europeia do Medicamento para o alívio de dores articulares e como diurético. Alguns estudos têm explorado também o potencial anticancerígeno, anti-inflamatório, antioxidante e neuroprotetor dos extratos de freixos.

Pela elegância do porte e beleza da folhagem, o freixo tem sido eleito como espécie ornamental, usada em jardins e arruamentos. Por exemplo, em Lisboa, existem freixos ao longo da Avenida das Forças Armadas, e no Alto Alentejo, na estrada que liga Castelo de Vide a Marvão (zona da Portagem), fica a Alameda dos Freixos (na foto), considerada das mais belas em Portugal. Esta alameda de Fraxinus angustifolia está classificada como “Arvoredo de Interesse Público” e o mesmo acontece com outros conjuntos e árvores isoladas, noutros locais do país.

O freixo é uma espécie antiga e tão comum em Portugal que se tornou sobrenome e batizou dezenas de localidades. Por exemplo, existe um Freixo em Ponte de Lima, outro em Amarante e outro em Almeida. Existem também terras com nomes derivados, como Freixianda, no concelho de Ourém, e com nomes compostos, como Freixo da Serra, na Serra da Estrela, ou Freixo de Espada à Cinta, no distrito de Bragança, que é, talvez, o exemplo mais conhecido na nossa toponímia.

Uma das mais belas alamedas de freixos, perto de Marvão, no Alentejo

Sabia que o freixo…

– É valorizado há milhares de anos pela sua madeira?

A mais antiga roda de madeira que se conhece no mundo, a Roda de Ljubljana Marshes (cerca de 3200 nos a.C.), é feita de freixo (Fraxinus spp.) e tem um eixo de carvalho (Quercus spp.). É uma demonstração de que a madeira foi um material fundamental para o avanço tecnológico.

As comunidades da Irlanda usavam-na há pelo menos 7000 anos, como se comprova pela sua inclusão na construção de uma armadilha de pesca do final do Mesolítico (cerca de 7000-4000 a.C.) descoberta na zona de North Wall Quay, em Dublin.

O carvão vegetal encontrado em sítios Neolíticos (cerca de 4000-2500 a.C.) sugere que, juntamente com a aveleira, o espinheiro e o azevinho, o freixo já era frequentemente utilizado como lenha.

– Era a árvore favorita do pintor John Constable?

John Constable, uma das referências da pintura de paisagem do Romantismo inglês, tinha uma relação próxima com as árvores e observava-as com grande rigor. O freixo era a sua árvore favorita e pode ser admirado em várias das sua obras, em primeiro plano ou como elemento estruturante da paisagem.

Este pintor estudava diretamente a natureza para compreender a forma, a luz e o movimento da folhagem, e os seus desenhos de freixos mostram essa atenção ao detalhe: troncos sombreados, copas iluminadas e ramos representados com uma precisão quase botânica, ajudando a transmitir a vitalidade, a atmosfera e a identidade rural da paisagem inglesa.

O pintor John Constable e o seu "Estudo dos freixos"

O estudo dos freixos, de John Constable

– É uma árvore sagrada em várias culturas?

O freixo surge em várias culturas como um símbolo de ligação entre mundos, de força, proteção, conhecimento e origem da humanidade.

Na mitologia nórdica, a referência mais conhecida é Yggdrasill, a Árvore do Mundo. Sustenta e articula o cosmos, ligando o mundo dos deuses, o mundo dos humanos e os domínios subterrâneos. O freixo está também associado a Odin, deus supremo da mitologia nórdica. Segunda a tradição, Odin enforcava-se na árvore para alcançar o conhecimento místico. Ainda na tradição nórdica, o primeiro homem chama-se Ask – nome comum dado ao freixo nas línguas escandinavas – e teria sido criado a partir da madeira desta árvore.

Na mitologia grega, várias ninfas estão associadas a espécies de árvores. As Melíades são as ninfas dos freixos, associadas à fertilidade e à génese do género humano.

Nos povos celtas, o freixo é uma de entre várias árvores sagradas e simboliza a proteção, a cura, a força e a ligação entre o mundo terreno e o sobrenatural. Três das cinco árvores guardiãs lendárias da Irlanda seriam freixos.

Na tradição oral galega, o freixo está associado à água, às margens dos rios e à presença de seres encantados. Algumas narrativas populares contam que fadas e outros seres míticos habitavam os lugares onde cresciam freixos, carvalhos e espinheiros.

– Inspirou poemas e cantigas portugueses?

Poema de D. Francisco Manuel de Melo, escritor, político e militar (séc. XVII)

Deixa-m´ir, que vou com pressa
Ao freixo tirar o ninho.
Está o freixo a quebrar
C´o peso do passarinho.

Quando o sol chegar a dar
Na c´roa do alto freixo
Então saberás amor
A razão por qu´eu te deixo.

Viva aquele freixo no alto monte,
Verde e robusto; apenas o tocava
O brando vento, apenas o deixava
De abraçar pelos pés aquela fonte.

Tão soberbo, despois levanta a fronte,

Como pavão, do bosque donde estava,
Envejoso de ver que o mar cortava
Um pinho, que nasceu defronte.

Ora saiu da terra e foi navio,
Lutou c’o mar, lutou c’o vento em guerra:
Quedas viu ser o que esperava abraços…

Ei-lo que chora em vão seu desvario.

De longe a vê, chegar deseja a terra:
Não lh’o consente o mar, nem em pedaços!

* Artigo em colaboração com Catarina Branco

Catarina Branco é, em 2026, estudante no segundo ano de Engenharia Florestal no ISA – Instituto Superior de Agronomia. A sua colaboração com o Florestas.pt realizou-se no âmbito dos estágios de verão alumnISA.