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Alterações Climáticas

Os principais desafios da floresta portuguesa

Os desafios da floresta portuguesa são de ordem ambiental, socioeconómica e estrutural. Alterações climáticas, incêndios rurais, pragas, doenças e espécies invasoras cruzam-se com a fragmentação da propriedade, o abandono rural e a baixa rentabilidade da floresta. Estes e outros fatores podem ser mitigados com respostas integradas dos vários atores envolvidos no território.

Portugal apresenta uma grande diversidade de solos, climas e paisagens, que permitem uma multiplicidade de utilizações agrícolas e florestais do território. Apesar deste mosaico diversificado de condições e espécies abrir inúmeras oportunidades, várias estão condicionadas por pressões climáticas, socioeconómicas e estruturais, que configuram os principais desafios da floresta portuguesa.

Os efeitos das alterações climáticas, a maior intensidade dos incêndios rurais e o acréscimo da propagação de pragas, doenças e espécies invasoras combinam-se num território rural e florestal com pouca população – e população envelhecida –, proprietários ausentes e propriedades com uma estrutura fragmentada, cuja dimensão condiciona a rentabilidade económica das atividades florestais e a capacidade de investir na gestão da floresta.

Estes constrangimentos estruturais, que dificultam a governança e a concretização das políticas florestais (já de si complexas), são interdependentes e acabam por reforçar-se mutuamente. Exigem, em consonância, abordagens integradas, intersectoriais e baseadas em conhecimento fundamentado.

Múltiplos desafios da floresta portuguesa

A floresta portuguesa – e os diversos intervenientes que lhe dão forma – precisa do envolvimento da sociedade para percorrer o caminho necessário à recuperação das áreas degradadas e abandonadas, de dimensão significativa no território. Como contributo para este esforço transversal, cabe às empresas de base florestal um papel cada vez mais ativo na disponibilização de conhecimento, recursos técnicos e financeiros.

Incêndios rurais: o sinal mais evidente dos desafios da floresta portuguesa 

Os incêndios são o sinal mais evidente da vulnerabilidade da floresta, agravada pela deficiente ou inexistente gestão florestal ativa e pelos efeitos das alterações climáticas. 

A expansão da área florestal, o abandono das áreas florestadas e o consequente aumento da vegetação espontânea (com continuidade da biomassa que pode servir de combustível), o elevado número de ignições de origem humana (muitas negligentes) e os fenómenos meteorológicos extremos são apontados como os quatro fatores centrais que estão a aumentar o risco de incêndio em Portugal e em toda a Europa mediterrânica.  

Incêndios são desafio mais evidente na floresta portuguesa

Juntos, estes fatores propiciam incêndios de maior intensidade. Os maiores e mais intensos libertam uma energia que os meios de combate têm dificuldade em travar.

As interações entre os incêndios e outros desafios da floresta portuguesa são extensas: 

  • A perceção de elevado risco de incêndio condiciona o investimento na floresta (e na gestão florestal) e a perda de zonas florestais torna mais incerto o retorno para os operadores florestais. 
  • Às consequências económicas somam-se múltiplas consequências ambientais – desde a erosão do solo à perda de biodiversidade – e queima de floresta reduz o carbono retido por este sumidouro natural, assim como a sua capacidade de remover CO2 da atmosferaalimentando novas pressões climáticas. 

Alterações climáticas: um risco sistémico 

Entre os principais desafios da floresta portuguesa, as alterações climáticas assumem carácter sistémico. Não são um desafio isolado, mas uma disfunção que afeta simultânea e transversalmente os sistemas naturais, económicos e sociais. Assim, a interação e evolução dinâmica dos diferentes efeitos das alterações climáticas dá origem a efeitos “em cascata” e retroalimenta múltiplos riscos, o que colocou as alterações climáticas como tema prioritário no Plano de Intervenção para a Floresta “Floresta 2050, Futuro + Verde”, traçado pelo Governo português em 2025.

Além de afetarem a probabilidade e a intensidade dos incêndios florestais, alterações como o aumento da temperatura média, as secas prolongadas e os eventos extremos – tempestades, chuvas torrenciais, ventos ciclónicos, entre outros – causam pressões e desequilíbrios que alteram a funcionalidade e a vitalidade dos ecossistemas e povoamentos florestais.  

Alterações climáticas intensificam desafios da floresta

Prevê-se ainda que, em resposta às alterações de temperatura e pluviosidade médias, haja uma alteração nos padrões de crescimento das espécies nas suas áreas naturais de distribuição. Diferentes modelos de projeção antecipam aumentos de produtividade no norte litoral, mas decréscimo e retração da área potencial de ocupação natural de várias espécies florestais a sul, além de maior vulnerabilidade ao fogo e a pragas e doenças.

Pragas e doenças trazem vulnerabilidade acrescida 

As alterações climáticas e o comércio internacional têm contribuído para a deslocação de organismos patogénicos para locais onde não existiam anteriormente. Nos novos destinos, a falta de agentes de regulação natural – inimigos naturais – leva ao aparecimento de novas pragas e doenças 

Em paralelo, os efeitos das alterações climáticas, especialmente os eventos extremos de seca e as tempestades, deixam também as árvores mais debilitadas e suscetíveis a pragas e doenças oportunistas (que se aproveitam das árvores mais enfraquecidas), mesmo as que são causadas por organismos nativos.  

Pragas e doenças entre os desafios da floresta

Adicionalmente, as temperaturas mais elevadas favorecem o desenvolvimento de fungos e outros organismos que podem debilitar as árvores, tornando-as também mais vulneráveis por esta via.

A gestão florestal ativa, com aplicação de boas práticas de sanidade no terreno, é a via mais eficaz para prevenir o risco e manter a saúde da floresta, pois não existem meios de tratamento ou cura para muitas das pragas florestais.  

A redução do risco de contágio faz-se também pelo cumprimento das regras relativas à transação de madeiras e de materiais florestais de propagação. Refira-se que para evitar a instalação de árvores doentes ou infetadas, os materiais florestais de reprodução só podem ser comercializados por fornecedores licenciados pela autoridade florestal portuguesa, o ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. 

Espécies invasoras alteram equilíbrios ecológicos 

As plantas invasoras são um dos desafios da floresta portuguesa com maior impacte ecológico e uma das causas mais importantes de perda de biodiversidade. Alteram o equilíbrio e o funcionamento dos ecossistemas, incluindo os regimes de fogo e as cadeias alimentares, afetando praticamente todos os serviços dos ecossistemas e originando impactes que vão para além das florestas e outras áreas naturais – económicos e de saúde pública. 

As várias espécies de acácia e a háquea-picante são das espécies invasoras com mais impactes nas áreas florestais em Portugal. Ambas têm o seu ciclo de vida ligado à ocorrência de fogo e a sua rápida expansão, que dá origem a bosquetes densos, dificulta o seu controlo (e remoção) e impede o crescimento das outras espécies. Em paralelo, aumenta o risco de incêndio florestal.

Não são conhecidos em Portugal dados detalhados sobre a expansão das espécies invasoras como um todo, mas é possível perceber que a área de acácias é já representativa nas florestas portuguesas:

Invasoras reforçam desafios da floresta portuguesa
  • De acordo com o sexto Inventário Florestal Nacional (IFN6, 2015), estas espécies mais do que triplicaram a sua área em Portugal continental entre 1995 e 2015, passando de 2,5 mil hectares para 8,4 mil hectares.
  • Acresce o valor apresentado para os Açores, de 4,3 mil hectares, a que se somam 4,1 mil hectares na Madeira, indicados no Inventário desta Região Autónoma (IFRAM3, 2025). 

Estrutura e fragmentação da propriedade trava retornos 

Portugal tem apenas 2% de áreas florestais públicas e não se sabe ao certo quantos proprietários florestais existem.   

Apesar de terem sido avançadas iniciativas de cadastro simplificado que pretendem conhecer a propriedade e os seus proprietários, como o BUPi, apenas 34% das 8,94 milhões de matrizes que existem nos 173 municípios abrangidos por este programa tinham sido registadas até novembro de 2025. No total, 469 mil proprietários fizeram registos.

A dimensão média da propriedade rústica em Portugal é inferior a 1 hectare (10 mil m2) e é, em média, mais pequena no Centro e Norte. A pequena dimensão é identificada como um dos principais entraves estruturais à gestão florestal, dificultando a sua eficiência, a prevenção de incêndios e a criação da escala económica que poderia melhorar o retorno dos proprietários florestais e a sua capacidade de reinvestir na gestão florestal.

Propriedade pequena e fragmentada condiciona escala

Embora já tenham sido promovidos programas de emparcelamento de propriedades contíguas, como o Emparcelar para Ordenar, e iniciativas de gestão florestal conjunta ou agrupada, subsistem inúmeras barreiras – inclusive culturais, associadas ao baixo associativismo em Portugal – que limitam a escala de gestão.

Entre os desafios da floresta portuguesa relacionados com a propriedade, refira-se o processo de transmissão por herança, que promove o fracionamento até aos limites do que é permitido por lei – o regime jurídico da estruturação fundiária define como unidade de cultura, ou seja, a área mínima que um terreno agrícola ou florestal deve ter, de acordo com o tipo de terreno e a região do país. Terrenos de regadio podem ter de 2,5 a 4 hectares, consoante a região e os terrenos de sequeiro e florestais, de 4 a 48 hectares. A impossibilidade de uma repartição equitativa de um terreno por múltiplos herdeiros e a morosidade dos processos legais também contribuem para outros problemas, como o abandono das terras.

Abandono rural e falta de gestão ativa 

Aos desafios já elencados acresce a pequena dimensão das propriedades que condiciona a rentabilidade das atividades florestais, tornando-a insuficiente para financiar a sua gestão ativa. O envelhecimento da população que permanece nas zonas florestais e o êxodo populacional dos mais jovens, a par da falta de profissionais disponíveis para trabalhar em muitas zonas rurais, agravam esta situação.

Com contornos demográficos e socioeconómicos difíceis de reverter, este é um dos principais desafios da floresta portuguesa e as suas consequências fazem-se sentir no abandono das terras e no crescimento da vegetação que se acumula como carga combustível, aumentando a vulnerabilidade ao fogo. 

Apesar da importância da gestão florestal, só uma pequena percentagem da área florestal em Portugal beneficia de planos de gestão. A aposta na gestão ativa é essencial e as soluções de gestão agrupada podem apoiar não só o aumento da gestão em absoluto, mas também os benefícios de escala – no que diz respeito à redução de custos e riscos, e à maximização de retorno. 

Abandono rural é um dos desafios da floresta portuguesa

Baixa rentabilidade económica e desequilíbrios na cadeia de valor 

valor económico das áreas florestais está associado, maioritariamente, à madeira, biomassa e carvão, e aos produtos florestais não lenhosos, como a cortiça, o pinhão ou a castanha. Contudo, as áreas florestais dão origem a muitos outros produtos e serviços que não são formalmente transacionados: 

  • Produtos, como os cogumelos e as ervas aromáticas silvestres ou as pastagens;  
  • Serviços dos ecossistemas, que beneficiam todos os cidadãos, onde se incluem, entre outros, a purificação da água e do ar, o armazenamento de carbono e a redução da erosão do solo.  
Baixa rentabilidade compromete investimento na floresta portuguesa

Se fossem contabilizados, estes bens e serviços não mercantis representariam cerca de metade do valor económico total que é formalmente atribuído aos espaços florestais. Embora os proprietários e gestores florestais assegurem a sua disponibilidade e renovação, não são pagos pelo trabalho que lhes está associado.

Para colmatar esta falta de retorno, é necessário encontrar mecanismos – como o pagamento de serviços dos ecossistemas – que recompensem estes profissionais, permitindo-lhes investir numa gestão florestal ativa e sustentável.

O investimento florestal beneficiaria também da existência de programas de incentivos públicos ajustados ao tecido florestal do território, focados no fomento da gestão ativa e sustentável e na valorização dos bens públicos que a floresta proporciona à sociedade.