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Curiosidades

Perceções sobre a floresta que a ciência ajuda a esclarecer

Alguma vez ouviu dizer que as espécies autóctones não ardem? Que antigamente a nossa área de floresta era muito maior? Ou que, para termos mais floresta, basta plantar árvores? Será verdade? Descubra os factos que esclarecem várias destas preceções sobre a floresta.

Várias ideias que se repetem sobre a nossa floresta têm pouco ou nenhum fundamento científico. No entanto, de tanto repetidas, acabam por se tornar populares. Para quem as ouve, torna-se difícil distinguir o que são factos e o que são perceções sobre a floresta.

O conhecimento, apoiado por evidências científicas e dados estatísticos, apoia uma visão informada, essencial para entender a realidade e os verdadeiros desafios do sector florestal.

Descubra quatro destas perceções sobre a floresta e como a ciência ajuda a esclarecê-las.

1 – A área de floresta em Portugal era maior antigamente?

Fact check: a área de floresta passou de 7% para mais de 36% do território em cerca de 140 anos

 

Este é uma das perceções sobre a floresta portuguesa contrariada pelos dados estatísticos e cartográficos existentes, que revelam termos cinco vezes mais área de floresta em Portugal do que em finais do século XIX.

As primeiras estatísticas florestais nacionais foram publicadas em 1875, por Gerardo Augusto Pery, em “Geographia e estatística geral de Portugal e Colónias”. Este documento indicava que apenas 7% da superfície de Portugal continental (cerca de 640 mil hectares) estaria coberta por floresta, lembram os Cadernos de Geografia Nº 21/23 da Universidade de Coimbra.

O sexto Inventário Florestal Nacional (IFN6), que caracterizou a floresta portuguesa em 2015, revelou que 36% do território estava coberto por floresta (mais de 3,2 milhões de hectares). Pouco depois, a Carta de Ocupação e Uso do Solo (COS 2018) indicou que as áreas florestais representavam 39% da superfície do país (mais de 3,4 milhões de hectares). Em ambos os casos, os dados apontam que a floresta ocupa mais de um terço da área de Portugal.

Desconhece-se a dimensão da floresta portuguesa antes de 1875, mas dada a dependência da madeira como material de construção e fonte energia (lenha e carvão), não será de admirar que a área florestal tivesse diminuído significativamente ao longo dos séculos anteriores. Acresce que raramente havia a preocupação de reflorestar, depois dos cortes.

Sabe-se que a expansão da agricultura a partir do Período Neolítico (10000-450 a.C.) levou ao início do recuo das florestas. A agricultura, o pastoreio, o estabelecimento de populações, as guerras e atividades mineiras foram responsáveis pela desflorestação na Península Ibérica antes sequer de Portugal e Espanha serem nações.

Embora tenham sido feitas várias iniciativas de plantação de floresta ao longo da história portuguesa (veja-se o caso do Pinhal de Leiria, cujo estabelecimento remonta ao século XII), só por volta de 1880 a floresta começou a aumentar, reforçando-se após 1886, com a criação dos Serviços Florestais e a implementação dos primeiros planos de florestação em zonas de dunas e baldios serranos. Parte significativa das zonas de floresta – matas, parques florestais e perímetros florestais serranos que temos atualmente foram plantadas nesse período, como, por exemplo, o Perímetro Florestal do Gerês ou o Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa.

2 – Será que não devemos plantar espécies exóticas?

Fact check: Há inúmeras espécies exóticas, florestais e não florestais, de grande valor, que usamos todos os dias e que podem ser plantadas em Portugal. O que não podemos plantar são espécies classificadas como invasoras.

 

As espécies nativas portuguesas são originárias do nosso território, enquanto as exóticas vêm de outras regiões. As espécies nativas estão em equilíbrio com o seu ecossistema. A maioria das espécies exóticas não perturbam o novo habitat nem as espécies nele existentes, sendo nesse caso consideradas naturalizadas. Contudo, uma pequena parte das exóticas introduzidas pode disseminar-se, competindo pelos recursos naturais e tornar-se uma ameaça para outras espécies. Neste caso, falamos de espécies invasoras e a sua plantação e disseminação são proibidas.

Espécie nativa
(autóctone ou indígena)
Espécie exótica
Espécie naturalizada
Espécie invasora
Espécie que ocorre naturalmente numa dada região.
Espécie que foi introduzida noutras zonas, fora da sua área de distribuição natural.
Espécie exótica que se reproduz e coexiste em equilíbrio com as espécies nativas na área em que foi introduzida.
Tem potencial para se dispersar por extensas áreas e alterar a estrutura e equilíbrio do ecossistema.

Esta distinção entre espécies nativas, exóticas, naturalizadas e invasoras é essencial para clarificar mais uma das perceções sobre a floresta portuguesa que tem vindo a generalizar-se: que as plantas exóticas são prejudiciais e não devem plantar-se.

As exóticas que plantamos em Portugal, tanto em zonas verdes e florestais como agrícolas, não são consideradas prejudiciais e são usadas por lhes ser reconhecido valor. Em muitos casos, são plantadas há tanto tempo que nem temos consciência de que são espécies que vieram de longe e acabaram por se naturalizar. Eis vários exemplos de plantas exóticas naturalizadas de valor reconhecido em Portugal, na floresta e fora dela:

  • Alho (Allium sativum) – originário da Ásia (Cazaquistão, Uzbequistão e Oeste da China), está bem-adaptado a climas mediterrânicos e tropicais. Há muito que é plantado em praticamente todo o mundo pelo seu valor condimentar e medicinal.
  • Arroz (Oryza sativa) – planta exótica de origem chinesa, foi ali que começou a ser domesticada há mais de 10 mil anos. A planta original e as suas variedades adaptaram-se bem a zonas de clima temperado.
  • Criptoméria (Cryptomeria japonica) – espécie natural do sul da China e do Japão, foi introduzida em território nacional durante o século XIX como ornamental e para produção de madeira. É hoje a espécie florestal mais importante do arquipélago dos Açores em termos económicos, mas também ecológicos.
  • Eucalipto (Eucalytpus globulus) – árvore trazida da Oceânia pela sua beleza ornamental, adapta-se bem a zonas temperadas e tornou-se em Portugal na principal fonte de madeira para a produção de papel, para além de um sem número de biocompostos com propriedades terapêuticas e prebióticas.
  • Laranjeira (Citrus sinensis) – árvore originária da China e Vietname, de zonas com clima subtropical. Adapta-se bem a regiões onde as estações do ano têm clima diferenciado e tornou-se um ícone dos produtos da região algarvia.
  • Nogueira (Juglans regia) – espécie originária da Ásia Central (Caxemira, Tajiquistão e Quirguistão), é cultivada na bacia do Mediterrâneo desde a Antiguidade, tendo-se tornado comum – naturalizada – por toda a Europa e valorizada tanto pelo seu fruto como pela sua madeira.

Grande parte das espécies de árvores exóticas que plantamos em Portugal foram trazidas para o nosso território pelo seu valor ornamental e naturalizaram-se, convivendo com as espécies nativas. Muitas são espécies frequentes em arruamentos e jardins, como o jacarandá (Jacaranda mimosifolia), trazido da América do Sul, ou o ginkgo (Ginkgo biloba) vindo da China e Japão. Outras tornaram-se comuns em sistemas florestais e agroflorestais, como a criptoméria, o eucalipto-comum ou a nogueira.

As espécies de arbustos e árvores consideradas nocivas – invasoras – integram a lista das invasoras proibidas em Portugal e não podem comercializar-se nem plantar-se. É mais fácil prevenir a sua introdução do que tentar erradicá-las depois de introduzidas.

3 – Será que as espécies florestais autóctones não ardem?

Fact check: Embora existam plantas mais bem-adaptadas ao fogo, todas as espécies vegetais ardem. Em Portugal, entre 2001 e 2022, as áreas florestais com espécies nativas foram as mais afetadas.

 

Uma das preceções sobre a floresta portuguesa que mais se tem generalizado é o de que o fogo tende a poupar as áreas florestais com espécies autóctones.

Embora esta crença seja comum, os estudos sobre este tema revelam que: os matos são a ocupação que tem maior probabilidade para arder, seguindo-se os povoamentos florestais, sendo os sistemas agroflorestais e as zonas agrícolas as ocupações menos percorridas pelo fogo. O tipo de vegetação consumida pelos incêndios é tendencialmente proporcional à vegetação existente (o que arde mais são as espécies mais abundantes) e, a partir de uma determinada dimensão, os incêndios propagam-se indiferentes ao tipo de vegetação existente.

Neste sentido, nos incêndios de grande intensidade, até as áreas agrícolas ardem. “Este comportamento é tanto mais comum quanto maiores são os incêndios, porque os grandes incêndios tendem a desenvolver-se sob condições meteorológicas severas, que lhes conferem grande intensidade” e, em consequência, têm capacidade de queimar qualquer espécie e até mesmo a vegetação que está verde e com teores de humidade altos, escreveu José Miguel Cardoso Pereira. O investigador e professor de engenharia florestal no ISA – Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa tem integrado variados estudos sobre este tema e identifica a falta de gestão da floresta, com acumulação e continuidade de biomassa (matos altos e contínuos), como o principal fator responsável pela extensão dos grandes fogos.

Floresta-com-gestão_mais_resistente_ao_fogo

O perigo de incêndio em zonas rurais e florestais aumenta quando existe acumulação de vegetação sob as copas (matos altos e contínuos), criando uma camada de biomassa combustível que alimenta e propaga as chamas do solo até às copas das árvores. Da mesma forma, o risco é mais elevado quando as copas das árvores se tocam, facilitando a propagação do fogo.

As zonas florestais que são geridas de forma ativa – nas quais é feito o controlo da vegetação espontânea e onde são mantidas faixas livres de vegetação (caminhos ou aceiros e faixas corta-fogo) –, apresentam tendencialmente menos incidência e intensidade de incêndios.

A ideia de que a floresta autóctone não arde é uma das perceções sobre a floresta também contrariada pelas estatísticas do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas sobre as “Áreas ardidas por uso e ocupação do solo”. Estes dados revelam que, entre 2001 e 2022:

  • O total da área ardida em Portugal representou 3 milhões de hectares (3042282 hectares): 49% em zonas florestais (1,490 milhões), 44% em zonas de matos (1,334 milhões) e 7% em áreas de agricultura (217,5 mil hectares).
  • A maioria das áreas florestais que arderam eram ocupadas por espécies autóctones (pinheiros, carvalhos, incluindo sobreiro e azinheira, castanheiro e alfarrobeira). No seu conjunto, neste período, as áreas florestais com espécies nativas afetadas pelo fogo ultrapassaram os 805 mil hectares, enquanto as áreas com eucaliptos estiveram perto dos 552 mil hectares.

Além das zonas florestais ardidas onde as espécies de árvores se encontram identificadas, arderam, no mesmo intervalo de tempo, mais 79,5 mil hectares de folhosas, 34,7 mil hectares de resinosas, 3,96 mil hectares de acácias e 15 mil hectares de espécies indeterminadas, o que não altera o facto de a maioria das áreas ardidas estarem ocupadas por espécies autóctones. Isto não é de estranhar porque em Portugal continental a maioria da floresta é composta por árvores de espécies autóctones (72%, de acordo com o 6.º Inventário Nacional Florestal – IFN6).

Áreas ardidas por ocupação do solo – espécies florestais, totais 2001 – 2022 (hectares)

Floresta
1490633
Espécies nativaspinheiro-bravo
619534
sobreiro
100222
azinheira
28898
outros carvalhos
30035
pinheiro-manso
19856
castanheiro
6512
alfarrobeira
310
Espécies exóticaseucaliptos
552030
Espécies invasorasacácias
3964
Espécie sem origem especificadaoutras folhosas
79478
outras resinosas
34767
espécie indeterminada
15022
Matos e pastagens
1334153
Matos
902922
Pastagens
390562
Agricultura
217496
Total de área ardida
3042282

Fonte: Áreas ardidas por uso e ocupação do solo, ICNF – Instituto da Conservação das Florestas e da Natureza.

4 – Para florestar ou reflorestar, bastará plantar árvores?

Fact check: Para florestar e reflorestar é preciso avaliar o que plantar, onde plantar e ter capacidade para cuidar da floresta (gerir). Plantar sem critério e sem cuidar da plantação, resulta no aumento da mortalidade das árvores e do risco de incêndio.

 

Para criar uma área florestal ou reflorestar uma zona onde já antes existiu uma floresta não basta plantar. Apesar da importância de plantar árvores, este é uma das perceções sobre a floresta que leva, muitas vezes, à plantação de espécies que não se adaptam às características de solo, clima e topografia da região. Outros erros são a plantação de árvores muito próximas entre si (que acabam por não ter recursos suficientes para sobreviver) e a plantação em épocas do ano pouco favoráveis, o que contribui para uma maior mortalidade das árvores.

Por exemplo, alguns zimbros (Juniperus sp.) conseguem crescer em zonas de clima quente e seco e de solo arenoso ou rochoso. A alfarrobeira (Cerotonia síliqua) sobrevive em solos argilosos, arenosos e com salinidade, aguentando calor e secura. Já os freixos (Fraxinus angustifolia), amieiros (Alnus glutinosa) e salgueiros (Salix sp.) precisam de muita humidade, devendo ser plantados junto a cursos de água ou em zonas húmidas. O sobreiro (Quercus suber) não tolera solos encharcados, invernos rigorosos nem zonas de grande altitude (não o vemos acima dos 500 metros de altitude), ao contrário do castanheiro (Castanea sativa), que vive em zonas montanhosas (até aos cerca de mil metros em Portugal), com invernos de temperatura e pluviosidade médias. É por este tipo de condicionantes que não devemos plantar castanheiros no Algarve, sobreiros na serra da Estrela ou alfarrobeiras no Minho.

Adicionalmente, a reflorestação de zonas afetadas por fenómenos como derrocadas ou incêndios não pode ser feita sem perceber os processos que foram perturbados e quais os riscos envolvidos. Dito de uma forma simples, é preciso analisar e esperar, pois a vegetação pode recuperar de forma natural, sendo apenas necessário fazer o controle de plantas invasoras, por exemplo. Além disso, é preciso considerar as condições edafoclimáticas (solo, clima, topografia) antes de decidir se é (ou não) necessário intervir no terreno (estabilizando-o) e se plantar árvores é (ou não) aconselhado.

Na generalidade, a plantação deve evitar o pico do inverno e os períodos em que é comum a ocorrência de geadas – muito frio e gelo danificam os tecidos das árvores jovens –, embora o calor e secura estivais façam do verão uma época igualmente desaconselhada para a plantação. Em Portugal, as árvores plantam-se habitualmente no final do outono e no início da primavera, embora nas zonas de invernos mais frios deva optar-se pelo final do inverno e início da primavera. Nas zonas de inverno mais suave a opção habitual é o final do outono e início do inverno, por serem épocas nas quais existe tendencialmente maior disponibilidade de água (chuva) e as temperaturas não são demasiado baixas.

Conhecer estas condições torna-se ainda mais importante quando sabemos que as pressões decorrentes das alterações climáticas – aumento da temperatura, secas e pragas, entre outras – estão a debilitar a saúde das árvores, contribuindo para perdas de vitalidade e aumentos de mortalidade.

Outra destas perceções sobre a floresta está relacionada com a simplificação das práticas de florestação ou reflorestação, ou seja, com a ideia de que não são necessários conhecimento e cuidados específicos antes, durante e após a plantação. Esta é uma ideia errada, pois a plantação de zonas florestais requer procedimentos técnicos que são críticos para a sobrevivência e saúde das árvores, desde o conhecimento das características do solo e da eventual necessidade de adubação, passando pelas técnicas de poda ou desrama e pela gestão equilibrada da vegetação que cresce espontaneamente.

Vejamos apenas este último aspeto para perceber que não basta plantar árvores: sem fazer a gestão da vegetação espontânea (a chamada “limpeza” da floresta), ervas e arbustos vão crescer e acumular-se, competindo com as árvores pelos mesmos recursos e aumentando o perigo de incêndio. Contudo, a vegetação espontânea é importante para a biodiversidade, é fonte de matéria-orgânica e protege o do solo contra a erosão, além de proteger as plantas jovens do vento, excesso de sol e geada. Estes e outros benefícios devem ser equacionados antes de avançar com o corte parcial ou total da vegetação, pois ele pode ter impactes negativos.

Saber onde plantar, o que plantar, quando plantar e quais as boas práticas para plantar e cuidar da floresta é essencial para que as jovens árvores tenham as condições de que necessitam para sobreviver e crescer. Plantar sem critério, conhecimento, nem capacidade de gestão, significa, com frequência, desperdiçar materiais florestais reprodutivos e contribuir para uma floresta frágil e mais propícia a riscos (como pragas e incêndios). A gestão sustentável das florestas e de outros ecossistemas requer recursos humanos com formação, assim como a disponibilidade de recursos financeiros.